Evaldo Balbino lança seu mais novo livro de poemas

“Fantasma de Joana d’Arc”, sétimo livro da obra do escritor resende-costense, é uma coletânea de poemas inspirados na mística da heroína francesa e santa da Igreja Católica


Cultura

André Eustáquio0

Lançamento do livro de Evaldo Balbino no Teatro Municipal de Resende Costa (Foto arquivo de Evaldo Balbino)

Joana d’Arc (1412-1431), também chamada de “A Donzela de Orléans”, é ao mesmo tempo heroína da França e santa da Igreja Católica. Heroína por defender seu povo na sangrenta Guerra dos Cem Anos. Canonizada em 1920 pelo papa Bento XV, que reconheceu as virtudes da “bruxa” queimada viva em um auto de fé da Inquisição.

Muito já se escreveu sobre a Donzela de Orléans que inspirou Shakespeare e Voltaire. A jovem camponesa analfabeta, que galgou as glórias do altar após ser humilhada nas chamas ignominiosas da Inquisição, inspira também o escritor e poeta resende-costense Evaldo Balbino. Seu mais novo livro “Fantasma de Joana d’Arc”, que chegou em setembro às livrarias pela editora 7Letras, não é uma hagiologia que pretende descrever a vida da santa padroeira da França, mas uma compilação de poemas nos quais o autor revela sua verve existencial e mística. “Evaldo Balbino em seu livro “Fantasma de Joana d’Arc” retoma procedimentos poéticos anteriores, mas imprime uma poética particular nascida do imaginário passional que oferece a personagem Joana d’Arc. Imaginário nutrido não só pelo mito, mas também por intertextualidades como a que realiza com o cinema de Carl Theodor Dreyer. Joana oferece diversas possibilidades desde o relato, às vezes em terceira pessoa e às vezes em primeira, até a apelação: ‘Alimentaste, Joana/um falso sonho humano/um falso sonho sem fim.’ (Página 53)”, diz a professora da Universidade Federal de Minas Gerais Sara Rojo na apresentação do livro.

A obra de Evaldo Balbino, nascido no Ribeirão de Santo Antônio, zona rural de Resende Costa, é um culto místico à arte revelada na literatura. Suas frases e palavras são descritivas, têm cor, alma, voz, cheiro, prazer. “O Fantasma de Joana d’Arc é um livro de múltiplas facetas, mas seus versos primam pelos motivos recorrentes na obra de Evaldo Balbino: o eu, a paixão, o corpo, a religiosidade e a escrita poética. Seus poemas convocam uma série de personagens que, como se fossem uma corte, acompanham a trajetória da existência e do escrever”, registra Sara Rojo.

O Teatro Municipal de Resende Costa e a Academia de Letras de São João del-Rei sediaram o lançamento de “Fantasma de Joana d’Arc” na região do Campo das Vertentes, nos dias 8 e 24 de setembro, respectivamente.

Leitor e escritor compulsivo, Evaldo Balbino conversou com o JL, do qual é colunista, sobre o lançamento do seu mais novo livro e revelou que seu próximo trabalho já está praticamente no prelo. Trata-se de estudo e organização da obra do poeta resende-costense Abel Lara, autor do hino do município de Resende Costa.

 

Produção literária

“Lançar mais um livro, o sétimo da minha produção, muito representa na minha carreira. Representa fôlego, persistência, como se diz: ‘sete vidas’. Isso no sentido de eu persistir na labuta maravilhosa com as palavras em busca, sempre, de erigir arte, de fazer tessitura poética. Sete vidas têm as mãos que escrevem, pois a literatura, como sabemos, não tem vez nem voz na multidão de pessoas. Sempre há, graças a Deus, grupos de amantes da arte verbal, do que essa arte nos proporciona em termos de beleza e de humanização. No entanto, a grande maioria das pessoas passa ao largo da literatura em nosso país. Estatisticamente, o Brasil está entre os países em que as pessoas leem muito pouco ou quase nada de literatura e que só o fazem quando a leitura ganha ares de pragmatismo imediato, como é o caso das leituras exigidas pela escola. Lançar mais um livro, então, é lutar no mercado editorial, um mercado de barreiras difíceis, de pouquíssimos leitores e, portanto, de falta de estímulo ao artista. Não falo de lucros. Não, não é isso. Grande parte dos autores não vive financeiramente de literatura, mas a realiza de modo paralelo a outras atividades remuneradas. Falo é sobre a dificuldade de manter as publicações, sendo que os livros pouco circulam. Essa é a pesada lei do mercado. Se algo não vende tanto, as editoras acabam por relutar em fazer as edições”.

 

Lançamento

“Lançar em Resende Costa e em São João del-Rei é sempre muito gratificante para mim. Em Resende Costa é o afeto de sempre, já que a minha recorrente ida para a cidade é um retomar e cultivar das minhas raízes, um rever a terra e sua gente com quem sempre convivi. Os lançamentos em Resende Costa são momentos em que comungamos, os convidados que comparecem e eu, uma dádiva que se dá à luz: a arte. O trabalho do escritor é solitário, dialogando sim com outros autores, com pessoas já ouvidas e amadas, mas o escrever em si requer, fisicamente, solidão. Assim, encontrar com os leitores é momento de partilha, hora de se dividir o pão da poesia. E isso aconteceu no último dia 8 de setembro no Teatro Municipal. Lá, as pessoas leram poesias do livro, outras registraram sua fala. E tudo isso regou as raízes de nossas vidas conjugadas. É assim que cultivamos a arte para que ela não morra. E é também assim que cultivamos as amizades, os afetos que temos uns pelos outros. Em São João é a segunda vez que faço lançamento. A primeira foi em 2013 no Festival de Inverno [da UFSJ]. Agora foi numa sessão da Academia de Letras da cidade. Os acadêmicos e as demais pessoas presentes me receberam com carinho, com atenção. Souberam ouvir minha simples mensagem e os meus poemas. Quando eu lia versos do “Moinho”, do “Filhos da pedra” e do “Fantasma de Joana dArc”, também via os brilhos nos olhos. O mesmo brilho que paira sobre os meus quando escrevo e quando leio. Encontrei ali também amantes da arte, os cultivadores da literatura como eu a cultivo. Foi uma experiência que me trouxe seiva, um sentimento de que a persistência que tenho em mim vale a pena, de que é fundamental continuar cultivando a flor, porque há olhos desejosos dela além dos meus”.

 

Projetos futuros

“Continuo escrevendo sempre: poemas, crônicas, contos e romances. Quanto à minha produção cronística, pouco a pouco a venho publicando mensalmente no Jornal das Lajes (https://www.jornaldaslajes.com.br/colunas/retalhos-literarios) ou de modo mais ou menos semanal no meu blog (https://evaldobalbino.blogspot.com.br/). Sendo assim, as crônicas são dadas à luz pouco a pouco, em conta-gotas, para depois, se Deus quiser, irem, já um pouco mudadas às vezes, fazendo parte de livros que sairão no futuro. Estou às voltas agora com dois romances. Um focaliza a vivência de um padre numa cidade interiorana e o outro resgata a voz de uma prostituta e sua existência numa cidade grande. Neste ano de 2017, estou realizando o meu pós-doutoramento na Universidade de São Paulo (USP). E o projeto em desenvolvimento é justamente sobre o nosso conterrâneo Abel Lara. Estou de posse, desde 2015, dos seus manuscritos, datiloscritos, livros de antologia em que ele participou, bem como dos recortes de jornais e revistas que o autor fez e guardou consigo durante décadas. Nesses recortes temos textos dele que foram publicados ao longo de uma vida. O intuito é organizar uma edição o mais completa possível da obra poética do escritor, mormente da sua produção lírica e em trovas. Pretendo apresentar o fruto deste trabalho à amiRCo [Associação de Amigos da Cultura de Resende Costa] sugerindo-lhe a publicação na Lageana da obra desse homem cuja poesia honra Resende Costa. Este trabalho que venho fazendo no meu pós-doutoramento é uma atividade de paixão pela arte e de busca da reconstrução da memória cultural de nossa cidade e de nossa região, no desejo de resgate mesmo dos fios literários tecidos em nossas paragens”.

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