Que pancadaria...
25 de Marco de 2026, por Vanuza Resende 0
No futebol mineiro, a final do estadual sempre foi mais do que um jogo. É memória, rivalidade, provocação de bar e história passada de geração em geração. Mas o que se viu na decisão do Campeonato Mineiro deste ano, entre Cruzeiro e Atlético, teve pouco de futebol e muito de confusão.
A bola até rolou, mas ficou em segundo plano. Em campo, nervos à flor da pele, empurrões, discussão em cada dividida. Fora dele, a coisa desandou de vez. A rivalidade, que sempre temperou o clássico, ultrapassou o limite e virou pancadaria. Cena triste para quem cresceu ouvindo que clássico se ganha na bola, e não no braço. E pensar que a preocupação inicial era com a torcida, finalmente, dividida no Mineirão...
Clássico mineiro sempre teve provocação, claro. Faz parte. Torcedor gosta disso. O problema é quando a provocação vira agressão e o jogo passa a ser lembrado mais pela confusão do que pelo futebol.
No fim das contas, sobrou a sensação de que faltou cabeça fria dos dois lados. Cruzeiro e Atlético têm história demais para entregar um espetáculo desses numa final estadual. A rivalidade deveria engrandecer o jogo, não diminuir.
E talvez esse clima seja apenas o reflexo de um momento estranho vivido pelos dois lados da Lagoa da Pampulha. O Cruzeiro ainda tenta se reencontrar depois de anos turbulentos, alternando lampejos de esperança com tropeços que frustram o torcedor. Já o Atlético, que há pouco tempo empilhava títulos, parece ter perdido parte da força que o colocou no topo.
Como se não bastasse, os bastidores também andam agitados. Leonardo Jardim treina Flamengo, mesmo depois de garantir que no Brasil só tinha o Cruzeiro para ele...
No fim, a final do Mineiro deixou uma impressão incômoda. Não pela rivalidade, essa sempre existiu e sempre vai existir, mas pela sensação de que o futebol mineiro anda vivendo dias de pouca bola e muita turbulência. E quando a manchete de um clássico é a briga, não o gol, é sinal de que alguma coisa está fora do lugar.
Do frio europeu ao calor brasileiro: Lucas Pinheiro Braathen entra para a história
25 de Fevereiro de 2026, por Vanuza Resende 0
No alto da montanha, cercado por neve, bandeiras verdes e amarelas tremulavam como se fosse arquibancada de futebol em tarde de domingo. E foi ali, no dia 14 de fevereiro, sábado de Carnaval no país tropical, que o Brasil viveu um daqueles momentos raros e inesquecíveis: Lucas Pinheiro Braathen conquistou o ouro no slalom gigante nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina e escreveu o seu nome, e o do país, na história.
Primeiro brasileiro a subir ao pódio em Jogos de Inverno. Mais que isso: primeiro sul-americano. Um feito que parecia distante como as montanhas geladas da Itália agora têm sotaque misturado e alma brasileira.
Nascido em Oslo, na Noruega, filho de pai norueguês e mãe brasileira, Lucas cresceu entre duas culturas e dois mundos. Já havia até indicado o fim da carreira. Mas em 2024 decidiu algo que mudaria o rumo da própria trajetória e a do esporte nacional: escolheu defender o Brasil. O verde e amarelo virou pele, bandeira e propósito.
Chegou a Milão-Cortina cercado de expectativas. Segundo no ranking mundial do slalom gigante, dono de três pratas na temporada da Copa do Mundo, desembarcou como candidato real ao pódio. E entregou mais do que promessa: entregou ouro. O Brasil, agora, é o nono país a conquistar o título olímpico na prova, ao lado de potências como Áustria, Suíça, Itália, França, Noruega, Estados Unidos, Suécia e Alemanha.
Mas a medalha no peito é só parte da história.
Ao lado de Nicole Silveira, Lucas foi porta-bandeira do país na cerimônia de abertura. No desfile, abriu o casaco para mostrar um detalhe especial: a bandeira desenhada por dentro, como quem diz que carrega o Brasil no íntimo. “Quero sair desses jogos como fonte de inspiração”, afirmou. “Não importa de onde você seja, seu sotaque. O que importa é o que há por dentro.”
E o que há por dentro transborda carisma.
Antes mesmo do ouro, já era xodó da torcida. Em uma etapa na Áustria, ganhou brigadeiro e pão de queijo no meio da montanha. Desde então, virou rotina ver bandeiras brasileiras nas arquibancadas geladas da Europa. E, claro, suas danças após as provas, espontâneas, leves, quase carnavalescas, ajudaram a aproximar ainda mais o esquiador do público.
Lucas não venceu apenas uma corrida contra o cronômetro. Venceu a ideia de que certos esportes não são para nós. Provou que diversidade é força, que identidade não tem fronteira e que o Brasil pode, sim, brilhar onde antes parecia improvável.
Na neve de Milão-Cortina, o ouro reluziu. Mas o que aqueceu mesmo foi o sentimento: o Brasil, pela primeira vez, descobriu que também sabe deslizar rumo ao topo do mundo.
A contratação mais cara da história do futebol brasileiro foi o Cruzeiro quem fez
27 de Janeiro de 2026, por Vanuza Resende 0
A chegada de Gerson ao Cruzeiro não foi apenas mais uma transferência no mercado da bola. Foi daquelas notícias que fazem o torcedor reler o título para confirmar se entendeu direito. Sim, o Cruzeiro. Sim, Gerson. E sim: a compra mais cara da história do futebol brasileiro, em valores absolutos.
Não é só sobre dinheiro, embora ele esteja ali, escancarado, chamando atenção. É sobre o que esse movimento representa. O Cruzeiro resolveu sentar à mesa grande do futebol brasileiro e puxar a cadeira sem pedir licença. Não veio de mansinho. Veio batendo recorde.
Gerson chega com história, com rodagem, com peso. Já foi promessa, já foi realidade, já foi contestado, já foi campeão. É jogador de time grande, de jogo grande. Não é contratação para completar elenco. É contratação para mudar patamar, para alterar conversa, para mexer com o ambiente do campeonato.
E aí entra o detalhe que transforma tudo em crônica: o futebol brasileiro sempre viveu dizendo que não dava, que era impossível competir, que o mercado estava perdido. De repente, um clube decide ir lá e faz. Não resolve todos os problemas, não garante título, não assegura final feliz. Futebol nunca garantiu nada. Mas manda um recado claro: dá para ousar.
Claro que a cobrança vem junto, no mesmo pacote. Gerson não chega para ser “mais um”. Chega para ser protagonista. Cada passe, cada jogo mais apagado, cada atuação segura... tudo isso vai ser analisado com lupa. Preço alto cobra alto. É da regra do jogo.
Mas tem algo curioso nisso tudo. O torcedor do Cruzeiro, que há pouco tempo discutia sobrevivência, agora discute protagonismo. Discute título, discute imposição, discute respeito. O clube que já viveu noites amargas voltou a pensar grande. Talvez não por nostalgia, mas por decisão.
No fim das contas, a contratação de Gerson não é só sobre um jogador que chega. É sobre um clube que resolve lembrar quem é. E o futebol brasileiro, que adora dizer que está sempre atrasado, ganhou um capítulo novo para discutir, com números, ambição e, claro, muita expectativa.
Se vai dar certo? A bola responde. Mas que já entrou para a história, entrou.
Lá se vai mais um Brasileirão
24 de Dezembro de 2025, por Vanuza Resende 0
O Brasileirão 2025 terminou com aquela cara de mesa de bar: cada time trazendo sua própria história, seus tropeços e seus “quase”. Um campeonato que começou acelerado, terminou dramático e deixou torcedor rindo, chorando ou suspirando aliviado. Não foi tudo no mesmo domingo, mas teve isso tudo.
O Atlético viveu um daqueles anos difíceis de explicar. Time bom, elenco caro, estádio cheio… mas nada se encaixava. Era como tentar montar um móvel sem manual: algumas peças até se encontravam, mas o conjunto não ficava de pé. A torcida vibrou pouco, reclamou muito e terminou a temporada com aquela sensação de que 2026 precisa ser completamente diferente.
Do outro lado da cidade, o Cruzeiro fez o oposto. Um pouco de espetáculo e muita organização. Foi aquele time que entrega resultado, poderia até ter entregado mais, eu sei. Mas um futebol que somou pontos importantes e virou exemplo de reconstrução. Como o torcedor precisava dessa reconstrução, e inverter a soma dos 45 pontos para a soma do “tamo quase alcançando o líder”.
No eixo Rio–São Paulo, a novela mais comentada foi a do Palmeiras. O time de Abel Ferreira correu, liderou, reagiu, perdeu, reagiu de novo… parecia sempre prestes a explodir. Mas, no fim, ficou no “quase”. Nadou o mar inteiro e morreu na beira da areia, olhando o título escapar por centímetros. Não foi fracasso, longe disso; foi só aquela temporada em que o esforço não vira troféu, por mais que o roteiro pedisse. (E atenção: não foi a coluna anterior que zicou, continuo achando a melhor dupla do futebol brasileiro: Abel e Leila, só não sei se vão continuar em 2026).
E quem aproveitou tudo isso foi o Flamengo, que viveu seu momento “tudo dá certo”. Ganhar o Brasileirão já deixaria o ano enorme, mas levantar também a Libertadores colocou 2025 na prateleira das temporadas inesquecíveis. Era um time que sabia o que queria e, principalmente, sabia como resolver jogos difíceis. No fim, ninguém conseguiu segurar.
Enquanto isso, lá na parte de baixo da tabela, o Internacional provou que emoção não é exclusividade da briga por títulos. O Colorado passou boa parte do campeonato flertando com o perigo, tropeçando em jogos improváveis e dando susto em quem olhava a tabela. Conseguiu escapar na reta final, quase de raspão, mas ficou o aviso: 2026 não pode repetir o drama.
Quando a conta fecha, o Brasileirão 2025 deixa claro por que o campeonato brasileiro é tão comentado: ninguém sabe o que vai acontecer, até acontecer, né, Mirassol? Favorito vira coadjuvante, time desacreditado vira sensação, e a última rodada é sempre aquela que arruma encrenca para estatística e coração.
Ano que vem tem mais. E, como sempre, cada clube já começa a criar sua própria história antes mesmo do apito inicial.
Leila e Abel: o Palmeiras que voa mais alto que o próprio avião
25 de Novembro de 2025, por Vanuza Resende 0
No futebol, às vezes, surgem duplas improváveis. Um técnico português que fala grosso, pensa rápido e sofre como se estivesse sempre no último minuto da prorrogação. Uma presidente que compra avião como quem troca pneu de bicicleta, mas que não hesita em atravessar uma coletiva de imprensa para elogiar o próprio comandante, sem pedir licença a protocolo, a assessor ou a formalidade alguma.
No Palmeiras, Leila Pereira e Abel Ferreira formam essa dupla fora da curva, fora da lógica, fora do roteiro comum do futebol brasileiro. Um casamento esportivo que mistura disciplina europeia com temperamento brasileiro, cobrança com carinho, trabalho com ousadia. Um par improvável que colocou o clube em mais uma final de Libertadores e, de quebra, na rota direta para o possível título do Campeonato Brasileiro 2025.
O futebol, dizem, é feito de elencos. Mas às vezes é feito também dessas conexões que parecem escritas em algum lugar entre o destino e a teimosia. Porque era preciso teimosia, e das grandes, para segurar Abel quando o mundo inteiro o convidava a seguir caminho. Era preciso ousadia para bancar investimento pesado quando a maré parecia só contrária. E era preciso coragem, a que Leila tem de sobra, para atravessar a porta de uma coletiva e, sem cerimônia, mirar as câmeras e declarar aquilo que muita gente sente, mas não diz: “O Abel é o maior técnico da história do Palmeiras”.
Mas também é verdade que só um técnico como Abel Ferreira, que disputa sua terceira final de Libertadores em 5 anos de clube, entende essa energia. Entende porque tem o mesmo fogo dentro do peito. É disciplinado como poucos, exigente como quase ninguém e emocional como todo treinador que sabe que, no Brasil, dois jogos ruins viram tempestade e cinco vitórias seguidas viram céu azul de janeiro.
A chegada à final da Libertadores não é acaso. É construção. Tijolo sobre tijolo, treino sobre treino, temporada sobre temporada. É o tipo de projeto que só sobrevive quando gestão e comando falam a mesma língua, ainda que, às vezes, um fale português de Portugal e outra fale português de “manda quem pode”.
Se essa história fosse uma fábula, seria sobre a presidente destemida, o técnico obstinado e o clube que decidiu não apenas ganhar, mas construir um jeito próprio de vencer. Uma parceria que virou identidade, que virou modelo, que virou exemplo. O futebol brasileiro terá que admitir, mesmo com ciúme, mesmo rangendo os dentes: o Palmeiras de Leila e Abel não é só um time. É um voo. E um voo com avião próprio, e que está cada vez mais difícil de alcançar.