De um ponto de vista

Igreja santa e pecadora: humana

26 de Agosto de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Há vinte e seis anos comprei um livro: O Papa de Hitler – A história secreta de Pio XII, lançado no ano anterior, 1999.

O autor John Cornwell, inglês, jornalista e escritor premiado, que sempre se ocupa de temas católicos. Escreveu: Um ladrão na noite: a morte do Papa João Paulo I. Sucesso absoluto no mundo inteiro. Tem também uma obra em que trabalha o perfil de João Paulo II.

O biografado: Pio XII. Eugênio Pacelli, seu nome de batismo. Pessoa peculiaríssima, pelas características individuais e riqueza de personalidade. Viveu seu tempo quase total não só a serviço da Igreja no Vaticano, como fora de Roma, no desempenho de complexas relações diplomáticas. Com a morte de Pio XI, em 1939, Pacelli é eleito Bispo de Roma, isto é, Papa.

O mundo vivia dois tempos: os que se seguiram à Primeira Guerra, guerra que não encerrou conflitos, e os dias que antecediam a anunciada Segunda Guerra Mundial. O mundo flutuava entre regimes governamentais ditatoriais, entre ideologias comunistas e fascistas – sempre absolutistas - e um outro esforço pela democracia. A mesma Igreja Católica se comportava sob a independente, radical e autocrática autoridade do Papa Pio XI.

Nascido em 1938, passei toda a minha infância e parte notável da juventude sob os melhores auspícios da figura de Pio XII, que faleceu em 1959. O Papa nos era apresentado como figura não apenas ímpar, mas acima de qualquer suspeita humana de fragilidade. Cultura exuberante, atendia e palestrava para os mais diversos auditórios, religiosos, leigos, artísticos, científicos. E quase sempre na língua dos grupos que o visitavam. A simpatia pessoal cativava quem se lhe aproximasse. A fama de santidade coroava toda sua intensa atividade de Pastor Angélico, conforme dele dizia a profecia de São Malaquias.

Mas, comprei então o livro, há vinte seis anos. E ficou na minha estante junto de outros livros relativos à Igreja. De Penny Lernoux, “A barca de Pedro – nos bastidores da Igreja”; de Gordon Urquhart: A Armada do Papa”. E entre os mais recentes, o romance: Um Assassino para o Papa, de Tad Szulc.

Seis meses faz, resolvi desmontar minha biblioteca. Tenho feito doação de livros para entidades diversas, conforme as peculiaridades de cada uma e seus interesses. Processo doloroso, que tenho enfrentado com razoável coragem. E me indago por que ainda tinha livros intocáveis. Não aqueles que são para pura consulta. Mas livros de absoluto interesse histórico, passageiro e de enriquecimento pessoal. Pio XII, o Papa de Hitler, chamou minha atenção. Por que até hoje? E quantas vezes toquei nele, nesses vinte se seis anos, sem a ele me dedicar. Confesso que, temeroso, decidi encarar as quase quinhentas páginas. Temeroso porque sabedor de que o Vaticano escancarara as portas de seus arquivos secretos ao autor John Cornwell. Temeroso, porque imaginava vir a conhecer, de fato, que dias e meses e anos foram aqueles que o celebradíssimo Pio XII havia vivido e enfrentado, sob mil acusações de omissão, de cumplicidade, de irrefreável aparente apoio ao nazismo: nenhuma palavra contra, em momento algum. Que de mistério se envolvia a vida do Bispo de Roma para salvar milhares de judeus na cidade e deixar que milhões deles se encaminhassem para o holocausto. Eu imaginava que o livro fosse dizer alguma coisa.

A história não poderia ser nem aquela que inocentava cem por cento o Papa, muito menos aquela que dele se diziam mil palavras tristes e ofensivas. Entendo que o livro tenha dito tudo porque os arquivos secretos foram a fonte dos relatos. E tudo quanto disse tem muito pouco a ver com a história que nos era contada.

Entendi porque não li aquele livro há mais tempo. Não me teria feito bem. Hoje, o li em paz. E melhor conhecedor dos fatos, apenas me dou conta de que nossa Igreja é mesmo “Santa e Pecadora: Humana”.

Tempo ainda de esperança

29 de Julho de 2026, por João Bosco Teixeira 0

A questão é o tempo. Lá na Bíblia está escrito que há um tempo para tudo. E a experiência mostra que é verdade. Há, no entanto, outras verdades. Inclusive esta, que é cômica, mas é: “O mundo é talvez: e é só. Talvez nem seja talvez”. Do tempo, então, o que dizer?

Para se viver é suficiente não morrer. Isto, no entanto, é pouco. Pois o viver pede muito. Pede, inclusive, que se leve a sério o tempo. E este tem suas exigências.

Exigências que se sucedem. Umas permanecem. Outras findam. Umas se vão com lamentos e sem constrangimentos. Muitas com agradecimentos.

Hoje, já na oitava dezena de vida, vivida em sua maior parte, exigências persistem. Oriundas, na sua maior parte, do desejo de querer viver. E viver com constâncias. Algumas, por caducas, caducaram; enquanto outras, por sábias, insistem em permanecer.

Por mais que sabido, sabe-se que é preciso respeitar o tempo, quando ele exige abandonar a ideia de querer tomar banho em cinco minutos; de querer subir escada aos galopes; de querer curar gripe com mel/cachaça/limão; de querer jogar bola com os netos. O tempo lembra que não se pode mais participar de tudo na comunidade; que não faz mais sentido querer ser o primeiro a chegar nos acontecimentos, nos quais se insiste em estar presente; que não se pode mais querer sempre ter uma palavra “importante” para dizer nos encontros ou reuniões.

Oh! Que tempo aquele em que se devia responder por assuntos nos quais se tomava parte; quando era preciso ser o primeiro a dar conta de conflitos comuns; quando era dever dizer certas coisas; quando fazia sentido se lamentar por não ter sido convidado e por não ter sido contemplado na lista de pessoas citadas.

Hoje, o tempo é aquele em que não faz mais sentido reclamar porque os colegas não sabem que se anda muito ocupado, apesar de aposentado; não faz sentido sentir-se ofendido por não ter sido notado em certos ambientes e não ter sido contemplado com as próprias ideias em assuntos mais que superados. É tempo em que não se pode sofrer por não ter sido ouvido, quando, na verdade, é preciso ouvir.    

Oh! O tempo foge irreparavelmente “Fugit irreparabile tempus”. E, no entanto, o tempo continua sendo a grande riqueza que cada um tem. Ele possui novas dimensões; novas cores, pois manhãs e tardes continuam se sucedendo. E, no tempo, as esquinas continuam presentes. E, nelas, os encontros, pois, se assim não for, eliminem-se as esquinas. 

Oh! Novos lindos tempos em que sapatos caminham, ainda que numa estrada de pó, mas também de esperança.

Drible de corpo

01 de Julho de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Era véspera da finalíssima Brasil e Itália, em 1970. Euforia nos dois países. A mídia italiana trazia o depoimento de dois personagens ilustres. Um deles, o técnico da seleção italiana. Ele dizia ser impossível o ataque brasileiro superar a defesa italiana. E mais: “Estudamos, exaustivamente, a maneira de jogar do ataque e de cada atacante do Brasil.” Outro personagem ilustre: um técnico do Real Madri, convidado pela televisão italiana para comentar os jogos da Copa do Mundo. Ele dizia mais ou menos o seguinte: “Se o Brasil jogar quarenta por cento do que vem jogando, a Itália não terá chance alguma.” Os fatos, de um lado, fizeram valer a opinião do comentarista; de outro, deixaram o técnico italiano sem “defesa”.

De lá para cá, tudo na vida mudou muito. Na área esportiva também. Pense-se no uso da tecnologia da TV com cores: o que ela introduziu de novidade no mostrar o esporte, qualquer deles. Um dia ter a camisa de um time era uma aventura. Hoje os estádios se colorem com as cores do clube, porque cada torcedor já as traz consigo. Tudo muito mudado. E, em tantos aspectos, para melhor. Hoje não se faria mais gol “com a mão de Deus”. E a Inglaterra não teria sido campeã mundial com gol inexistente.

Do ponto de vista do “jogo”, da estratégia de jogo, da maior ou menor habilidade no trato com a bola por parte dos jogadores; da qualidade do material esportivo e dos gramados; da possibilidade de se ter vários craques num time... com tudo isso, não vale hipotetizar uma melhora ou piora na prática do futebol, pois, se colocada a questão, não se chegaria nunca a bom termo. E por quê? Porque todos esses aspectos ficam subordinados não à razão, mas à emoção com que se vive a paixão por algo que se considera importante na vida. A emoção desconsidera qualquer tipo de racionalidade que coloque a vida e suas manifestações em dúvida, quando não em risco.

Torcidas organizadas, estádios embandeirados, fogos luminosos, nuvens de fumaça invadindo o gramado, celulares fazendo apresentações luminosas, drones sobrevoando os gramados, nada de tudo isso qualifica, excepcionalmente, a participação dos torcedores, tomados que sejam de amor, de decepção, de raiva, de entusiasmo. As emoções não se enquadram em esquema algum, quando tudo é sinal de vida. E num estádio, com o próprio time em campo, tudo é plenitude de vida.

Quanta emoção vivida face a tanta beleza, grandeza, bravura. Aspectos positivos e negativos se sucederam e se sucedem. No entanto, para mim, há um lance, há um toque de bola que resta intocável.

Sei muito bem que já não se tem um meio de campo com “Andrade, Adílio e Zico”, Piazza, Dirceu e Tostão”. “Clodoaldo, Gerson e Rivelino” e tantos mais; já não se têm laterais quais Nilton Santos, Leandro, Cafu, Nelinho, Carlos Alberto; já não se vê uma “Folha Seca”; já não se fala de uma seleção de craques, apenas dois ou três incapazes de tanta coisa bonita que invadiu nossas vidas de torcedores de clubes e de nossa seleção. Mas, há uma coisa que me encanta, me encantará sempre, porque plástica, decisiva e fatal no futebol: trata-se do drible de corpo. É tão lindo, tão sublime, tão eficaz que, um dia, alguém o definiu dizendo: “o drible de corpo é quando o corpo tem a presença de espírito”. Que incrível definição identificadora dos incomparáveis Garrincha e Pelé:  sublimidade pura.

Dialeto do Timor

27 de Maio de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Pobre Gilmar Mendes, infeliz Gilmar Mendes, xenofóbico e racista Gilmar Mendes. Além de preconceituoso e adepto do perfilamento linguístico, manifestou-se invejoso do mineiro de estirpe que dá um boi para não entrar na briga, mas uma boiada para dela não sair.  Ah! Gilmar, você foi desastroso. Não sei se se deu conta. Melhor teria sido manter a boca fechada que ridicularizar lídima manifestação da diversidade regional que faz grande este país.

Sabe, “intocável” Ministro, nossa “Aparente docilidade esconde reservas de insubordinação, às vezes convertida em ironia, e, de algum modo, chocada na pachorra de esperar, que tanto ilude o observador apressado, incapaz de perceber a chama latente do borralho” (CDA).

Nosso jeito de falar “Não é caricatura. Não é piada fácil em torno do “uai”, do “trem”, do “sô”. Não é sotaque reduzido a ornamento turístico. É forma de expressão das mineiridades: um modo de falar, silenciar, acolher, desconfiar, contar causos, convidar para o café e organizar a convivência”. (Leônidas Oliveira).

 Nós mineiros, do centro e das beiradas, das alterosas e das planícies, das riquezas e das pobrezas, nos orgulhamos de significar o que é este maravilhoso país.  Sr. Ministro, Minas é síntese. Minas é caminho para o norte e para o Sul, para o leste e para o oeste. Minas é o caminho por excelência da POLÍTICA. E, por isso, nosso jeito maior, nossa cara mais autêntica, V. Exª bem o sabe, é a encarnação e proclamação da liberdade.

Posso lhe recordar?  “O segundo nome de Minas é Liberdade” (TN).  “Se Ouro Preto é repositório de arte, fé e tradição, mais se distingue pela vocação da Liberdade” (JK). “Sem liberdade, cairemos na opressão política... a democracia falhará em sua missão” (MC). E não se trata de liberdade abstrata. Não. É a liberdade que nos leva a tratar a todos com sumo respeito, nas muitas maneiras do falar, do sentir e do se emocionar.  Liberdade, qual único caminho para a justiça, geradora da paz. Liberdade, qual maior dom que dos deuses os humanos receberam e pelo qual vale perder a honra e até a vida. E nós, mineiros, somos uma gente tão comprometida com a liberdade que o que nos faz feliz não é o que possuímos, mas a liberdade diante daquilo que nos falta. NU!!!, fui longe, não, Ministro?

Pense, tão falado senhor, na imensa riqueza cultural deste país, em que nada há a se desprezar, nada há a se excluir, nada há a esquecer. Tudo feito para enriquecer.

Ah! Sr. Gilmar Mendes, ocorre-me que possa lhe faltar grandeza para entender o que seja Minas Gerais, o que sejam os mineiros. Falamos, sim, um dialeto. Mas olhe: haja dialetos a exprimir a riqueza deste país! Haja dialetos, sem os quais não há brasilidade, sem os quais não se tem o Brasil que queremos. Haja uma multivariada raça, em cores, costumes e procedimentos, vez que somos capazes de conviver com as diferenças. E cale-se qualquer voz dissonante com a grandeza do país.

Vivam mil dialetos! Viva o Dialeto do Timor!

João, cidadão

29 de Abril de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Cidadão: habitante da cidade, preocupado com a cidade, identificado com a cidade, disposto a servir à cidade. Cidadão também da grande cidade, da cidade maior, da cidade-país. E, então, sofrendo e padecendo com este país-cidade.

Para ainda sobreviver, veem-me à mente lembranças, vividas e não, objetivas e menos, válidas e cridas, presentes como nunca. 

Como me doeu um dia: O que será que será?...

 

O que não tem certeza, nem nunca terá.
O que não tem conserto, nem nunca terá.

 

O que não tem decência nem nunca terá.
O que não tem censura nem nunca terá.

O que não tem governo, nem nunca terá.
O que não tem vergonha nem nunca terá.


Como me dói ainda hoje! É que a saudade dói. Mas, não é a saudade; é a realidade.

Há momentos em que o presente muito lucraria se os governantes conhecessem e se dispusessem a aprender lições nunca esquecíveis. Eis uma de tantas protagonizada pelo  rei Assuero que  escreveu carta aos governadores das cento e vinte e sete províncias  e aos chefes de distrito, seus subordinados, carta na qual dizia: “Colocado na chefia de inúmeros povos e como senhor de toda a terra, eu me propus não me deixar embriagar pelo orgulho do poder e sempre governar com grande espírito de moderação e benevolência, a fim de outorgar a meus subordinados o perfeito gozo de uma existência sem sobressaltos e, já que meu reino oferece os benefícios da civilização e a livre circulação entre as suas fronteiras, nele instaurar o objeto do desejo universal, que é a paz”. (Est 3,13

Assuero viveu no século V a.C., mas suas palavras ressoariam, validamente, no Congresso Nacional, se este não houvesse perdido a legitimidade.  E perdeu, pois, diante de um Supremo judiciário que legisla, ele se cala empobrecidamente, ou quem sabe, covardemente, ou, pior ainda, interesseiramente, dado que não convém rebelar-se contra quem tem a espada de Dâmocles sobre o próprio pescoço.

Sei não. Princípios morais raramente são universais, pois são ajustes de uma sociedade, num tempo determinado. Mas há conceitos insubstituíveis, há valores intocáveis, pelo menos na civilização iluminada pelo cristianismo. Numa reunião de condomínio, depois de acelerada discussão – e é uma pena que tais discussões sejam sempre “aceleradas” - um ex-síndico disse: “não se pode pensar e agir assim: para mim está bom, o resto que se dane. O bem do grupo precisa anteceder, precisa ser mais considerado que o meu bem-estar pessoal”. Corajoso síndico, possuidor de pura cidadania, seria condenado em várias instâncias superiores de nossa administração pública.

Li em O TEMPO de 11 de abril passado: “O verdadeiro desenvolvimento precisa começar pelo básico: ouvir a população, respeitar os territórios e garantir condições dignas de vida para todos e todas” (Andreia de Jesus, Dep. Estadual PT-MG), É verdade, pois “se eu não te ouvir como é que posso cuidar de você?”, dizemos nós, os psicólogos clínicos. Se o partido da Deputada seguisse o preceito que ela apregoa, não teríamos um número de bolsas maior que o número de carteiras assinadas de trabalhador.

João, cidadão. Da cidade terrena. À luz do tempo pascal celebrado, cidadão também da cidade eterna, pois “Semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual (1Cor 15,42).

Não é fuga. É convicção capaz de justificar e iluminar a cidadania de quem habita, qual cuidador, este mínimo espaço cósmico.