Retalhos Literários

Picumã nos bons modos

06 de Julho de 2026, por Evaldo Balbino 0

A tarde caía com a lentidão de um doce de leite apurando no fogo. No interior das Minas Gerais, o tempo não corre e se arrasta de prosa.

Nessa tarde durando sempre, visitamos a casa da comadre Lurdinha. Minha mãe subira o morro incansável para o sagrado ritual do café. Fora armada com sua paciência de santa e dois filhos a tiracolo: eu, com os meus cinco anos de pura curiosidade sem modos; e minha irmã, a afilhada de sete anos que já carregava a pose de quem entende de etiqueta.

A cozinha de dona Lurdinha era um templo escuro de fumaça e mistério. O fogão a lenha era uma locomotiva de tijolos e trabalhava incansável a todo vapor. O cheiro de lenha de eucalipto misturava-se ao aroma do café acabado de coar no pano, criando-se ali uma atmosfera que oscilava entre o rústico e o místico. O que me fascinava, porém, não era o que estava sobre a chapa de ferro, e sim o que pairava acima de nossas cabeças, grudado nas telhas e nos caibros.

O teto daquela cozinha estava todo “enfeitado”. Décadas de fumaça e teias de aranha haviam transformado a cobertura de barro e madeira em um santuário de fuligem. O picumã acumulado ali era mais do que sujeira: fazia-se textura orgânica, densa, que pendia em estalactites escuras e aveludadas. Para os olhos de uma criança de cinco anos, aquela massa cinzenta e viscosa, que balançava leve com o bafo de ar quente subido do fogão, tinha uma semelhança inegável com algo muito familiar, porém proibido em mesas onde se podia comer o bocado bom de cada dia.

Eu não aguentei. Entre um gole de leite e um pedaço de queijo, apontei o dedo inquiridor (e mais do que isso, inquisidor) para o alto, quebrando a harmonia das fofocas adultas:

– Olha, mãe! Credo... tem picumã no telhado!

O silêncio envergonhado que se seguiu ficou mais denso que a própria fuligem. Minha mãe arregalou os olhos vexados, buscando um buraco no chão de terra batida para se esconder. Minha irmã, a afilhada exemplar de sete anos, fingiu – eu acho – que não era da mesma linhagem genética que a minha. Mas a reação mais memorável veio da dona da casa.

Comadre Lurdinha não era mulher de meias palavras. Não tinha eira nem beira na língua, e o freio de sua educação havia se rompido ainda na infância. Parou de tomar o café, olhou para o teto, depois olhou para mim com um olhar que misturava desprezo e uma honestidade brutal. Sem pestanejar, disparou o petardo impiedoso:

– Se tem picumã na teia, limpa você!

A resposta veio como um coice de mula desembestada. A cara de minha mãe, quase tendo o brilho vermelho-vivo a laranja das brasas do fogão, tentou sorrir um sorriso amarelo que mais parecia uma careta de dor diante da franqueza da comadre. A visita, que deveria durar inteira até o pôr do sol, foi abreviada pela “urgência de ver o feijão no fogo em casa”.

Saímos de lá em passos rápidos, descendo o morro sob o sol poente. O caminho de volta foi o palco da verdadeira aula de etiqueta e bons modos. Minha mãe, mestre na arte de corrigir sem traumatizar, parou à sombra de uma jabuticabeira. Abaixou-se, ficando na minha altura, e com uma voz que era um misto de mel e autoridade, começou o sermão amoroso:

– Meu filho, o picumã é coisa de casa antiga, mas existem certas sujeiras que a gente não comenta na casa dos outros. A casa da comadre é o castelo dela. Se o telhado tem fumaça ou qualquer outra coisa que sua imaginação veja, o seu silêncio é que deve falar.

– Mas, mãe, parecia mesmo... – tentei argumentar.

– Não importa o que pareça – ela interrompeu, limpando meu rosto com o canto da barra do vestido. – Ter bons modos é saber que a verdade, às vezes, é uma visita indesejada. A gente olha, mas não aponta. A gente sente, mas não descreve. O mundo é cheio de picumã, meu amor; o que não podemos é faltar com cortesia.

Naquele dia aprendi que a fumaça e a aranha fazem o picumã no teto, mas que a falta de educação faz o estrago no coração das comadres. E, principalmente, aprendi que, diante de uma mulher como a dona Lurdinha, com uma xícara de café na mão e nenhuma paciência no juízo, o melhor tipo de gente que podemos ser é o tipo que fica calado.

Cilêncio

27 de Maio de 2026, por Evaldo Balbino 0

Dona Adelaide era uma dessas professoras que não apenas ensinavam, mas regiam a turma como uma maestrina em meio a um vendaval. No quinto ano B, o barulho era som e mais que som: era uma entidade viva, um poltergeist feito de estojos caindo, fofocas sobre o recreio e o incessante arrastar de cadeiras.

O ar estava denso naquela tarde de terça-feira. A paciência de Adelaide, geralmente um elástico bem esticado, finalmente arrebentou. Nenhum brado professoral. O grito é para os fracos; o silêncio de Adelaide era o terror dos impúberes. Ela caminhou até o quadro negro, que na verdade era um “quadro verde” (nós e a mania antiga de derivarmos nossa expressão do inglês blackboard). Foi até a lousa com a solenidade de um carrasco e, com o giz rangendo como um dente faminto, escreveu em letras garrafais: CILÊNCIO!

– Já que vocês não sabem se comportar, vão aprender a escrever pela repetição – sentenciou ela, com um brilho quase poético nos olhos. – Cinquenta vezes no caderno! Não, quer saber? O arrependimento pede abundância. Cem vezes. Cada letra deve ser um tributo à paz que vocês têm me roubado. Ô, turminha difícil!!!

E assim, trinta cabecinhas se baixaram. O único som na sala era o vupt-vupt dos lápis (criança não podia e nem pode escrever com caneta) e o roçar da ponta no papel. O erro, ali no quadro, brilhava soberano. O “C” de Adelaide parecia uma foice ceifando a ortografia em nome da disciplina. Os meninos, hipnotizados pelo castigo, não questionaram. Se a autoridade máxima dizia que o silêncio agora tinha a curva de uma “casa” e não a elegância de um “sino”, quem seriam eles para duvidar?

O drama literário só ganhou seu quase epílogo à noite, na casa do pequeno Pedrinho. Sua mãe, examinando o caderno como quem busca provas de um crime, estancou diante do que vira.

– Pedrinho... que é isso? – perguntou a mãe, a voz oscilando entre o espanto e o pânico.

– É castigo, mãe. Cem vezes. Pra gente aprender a não fazer barulho.

– Mas meu filho... “silêncio” é com “s”!

– Não na escola, mãe. Na nossa turma, o silêncio mudou de letra.

No dia seguinte, a mãe – munida de um dicionário e uma coragem cívica invejável – foi à escola. Reuniu-se com a coordenação e, para surpresa geral, verificaram-se os outros cadernos. Era uma epidemia. Trinta cadernos, três mil vezes a palavra errada. A escola inteira estava mergulhada em um “silêncio” ortograficamente clandestino.

Dona Adelaide, chamada às pressas, entrou na sala com sua habitual altivez. Quando confrontada com o erro, não vacilou. Olhou para o caderno, olhou para a mãe e, com um humor fino que só os mestres possuem, soltou:

– Minha querida, o barulho era tanto, mas tanto, que o “s” saiu correndo de susto. Eu apenas acolhi o “c” que estava sobrando no estoque! Eu estava poetizando com os meninos.

Ou mal aceita foi a desculpa, ou então concordaram de fato com a professora, pois o assunto não rendeu mais nada.

Mas Adelaide era uma mulher de camadas. Dias depois, durante uma aula de matemática, o pequeno Juquinha, confuso diante de uma situação-problema que envolvia uma conta de divisão de laranjas para meninos gulosos e que parecia não ter fim, levantou a mão:

– Tia, esse problema aqui... a resolução dele é daquela mais grande ou daquela mais pequena?

O inspetor da escola, um homem de bigodes severos e olhos de águia, estava encostado no portal da porta, avaliando o desempenho pedagógico da sala. Adelaide sentiu o peso do cargo. O “erro” do aluno doía-lhe nos ouvidos como um acorde desafinado, mas a presença da autoridade exigia a perfeição que ela mesma, dias antes, ignorara no quadro.

Com um sorriso que misturava doçura e uma correção cirúrgica, ela pigarreou:

– Ora, Juquinha, meu bem... Não usamos “mais grande” nem “mais pequena”. O mundo é feito de grandezas relativas: ou o problema é maior, ou ele é menor.

O inspetor assentiu, satisfeito com a erudição da mestre. Juquinha, coitado, anotou a correção. Mal sabia ele que, no universo particular de dona Adelaide, a gramática era como a matemática: uma ciência exata, exceto quando o barulho era tão alto que até as letras precisavam mudar de roupa de tão atarantadas.

Adelaide voltou para sua mesa, vitoriosa. Naquela sala, os erros eram relativos, mas a autoridade – ah, essa era sempre maior.

Escarcéu com muito amor

29 de Abril de 2026, por Evaldo Balbino 0

O coreto da praça de Monte Azul parecia flutuar sobre o mormaço daquela tarde de sábado. O casamento da prima Zulmira era o evento do século na grota, um desfile de ternos de tergal brilhantes e vestidos de cetim que pinicavam a alma. Com meus sete anos e os joelhos ralados, eu observava tudo do alto de um caixote de vinho. O mundo dos adultos é um teatro de sombras, e tia Odete era a protagonista daquele drama rural.

O sol de março castigava as ladeiras, e o cheiro de porco assado se misturava ao perfume barato das convidadas. Odete, a caçula de uma prole de doze filhas, sempre teve o dom de transformar um batizado em um funeral e um casamento em uma guerra civil. O estopim foi um pedaço de asa de frango. O marido, tio Onofre, um homem cuja paciência era proporcional à sua barriga de chope, cometeu o erro fatal de oferecer a iguaria à vizinha de mesa antes de servir a esposa.

– Você me desonrou, Onofre! – o grito de tia Odete cortou a música caipira como uma navalha em seda velha.

O silêncio caiu sobre a grota. Tia Odete, com seu vestido cor de rosa-choque, começou a marchar em direção à ribanceira que margeava a propriedade. O terreno descia íngreme até o riacho seco, um despenhadeiro de barro vermelho e urtiga.

– Vou acabar com tudo! –  ela berrava, jogando o buquê (que nem era dela) no chão. – A vida é um fardo de espinhos! Vou tomar veneno de rato! Vou me atirar no abismo e vocês vão chorar sobre meu cadáver!

Acompanhei a procissão de curiosos, fascinado. Na minha cabeça de criança, imaginava se o veneno de rato tinha gosto de groselha. A tia subiu no topo da ribanceira, descabelada, o rímel escorrendo como rios de petróleo pelo rosto redondo. Balançava os braços, fazendo uma performance digna de ópera mambembe.

Atrás dela, com os braços cruzados e uma expressão de quem assiste a um comercial chato, estava tia Eunice, a irmã mais velha, que era o oposto do drama; era feita de sarcasmo. Enquanto a família tentava acalmar a caçula, a primogênita apenas bocejava, ajustando os óculos no nariz.

– Ai, meu Deus, Odete vai se matar! – gritava a avó, quase desmaiando.

– Pois morra mesmo, minha irmã – disparou Eunice, com uma voz cortante que silenciou os soluços de Odete por um segundo. – Morra logo, que a gente ainda quer comer o bolo! Você está precisando mesmo de um descanso eterno, e nós de um pouco de paz.

Tia Odete arregalou os olhos, a boca aberta em um “O” perfeito de indignação.

– Você está me mandando morrer, Eunice? – soluçou, dramatizando a traição.

– Estou facilitando as coisas. Se quiser, eu dou um empurrãozinho pra ajudar na queda. Mas pula logo, porque esse seu show de todo feriado já perdeu a audiência. O veneno de rato tá ali na despensa, quer que eu busque com um copo d'água ou vai purinho mesmo? – tia Eunice sorria de um jeito ácido, aquele sorriso de quem trocou as fraldas da mana e sabia que ela tinha medo até de lagartixa.

– Você é um monstro! – tia Odete gritava para o vale, enquanto se agarrava a um pé de mamona para não escorregar de verdade.

– Sou prática, Odete. Você faz essa tempestade em copo d'água desde que perdeu a boneca de pano aos cinco anos. O Onofre só deu um frango pra comadre, mulher! Deixa de ser ridícula. Pula ou volta pro baile, que o doce de leite está acabando!

Eu olhava para tia Eunice com uma admiração nova. Ela era a guardiã da realidade. Tia Odete, percebendo que o sarcasmo da irmã ganhava mais público do que o seu martírio, começou a descer da ribanceira com a dignidade de uma rainha deposta, limpando o vestido sujo de terra.

– Eu vou voltar – anunciou soluçando baixo –, mas só porque não quero estragar a festa da Zulmira com o meu sangue.

– Sei – murmurou tia Eunice, voltando-se para o salão. – É o medo de encontrar o capeta e ele te devolver por excesso de drama.

A festa continuou. O casamento seguiu entre risos e fofocas. Tia Odete comeu três pedaços de bolo e tia Eunice continuou vigiando a vida com seus olhos de lince. E eu, ali no meu canto, aprendi que na família o amor às vezes se manifesta através de um “morra logo”, dito por quem sabe que temos vida demais para nos apagarmos por tão pouco. E quanta vida!

A odisseia dos “istas”

25 de Marco de 2026, por Evaldo Balbino 0

Dizem que o tempo é um senhor tão bonito quanto implacável, mas esqueceram de mencionar que ele não chega sozinho; traz consigo uma comitiva de especialistas. Houve uma época, perdida em algum lugar entre os carnavais de rua e as noites sem ressaca, em que a única lista que nos preocupava era a do supermercado ou a de contatos do finado MSN. Hoje a agenda virou um guia médico-hospitalar, e nossa vida se tornou uma sucessiva e irônica busca pela manutenção do que, outrora, funcionava no automático.

A jornada começa, invariavelmente, pela vista. O oftalmologista é o primeiro profeta dessa nova era. Ele nos olha com piedade enquanto tentamos ler letras que parecem formigas em fuga. “É a vista cansada”, ele diz, com a suavidade de quem anuncia o fim de um império. De repente, para conseguir ler o que sobrou da nossa autoestima em uma bula de remédio, precisamos esticar o braço como se estivéssemos tentando alcançar o horizonte. O mundo, antes nítido, ganha um filtro de neblina poética que, na verdade, é apenas o cristalino pedindo arrego.

Depois, o corpo começa a emitir sinais sonoros. Um “creck” ao levantar, um “track” ao sentar. Entra em cena o ortopedista. Com ele, descobrimos que a gravidade é uma força vingativa e que, após certa idade, até um espirro mal planejado é capaz de deslocar uma vértebra. Passamos a tratar nossas articulações como se fossem porcelanas da era Ming, e qualquer escada se torna o Monte Everest. O diagnóstico é quase sempre um lembrete de que não somos mais feitos de borracha, mas de um material que exige repouso e compressas de gelo.

A preocupação se torna interna, invisível, quase metafísica. O infectologista surge no horizonte não por causa de uma selva exótica, mas para conferir se aquele cansaço crônico que nos abate às oito da noite é um vírus oportunista ou apenas o peso acumulado do nosso próprio RG. Queremos um culpado microscópico para a nossa falta de fôlego, quando a verdade é que o metabolismo decidiu se aposentar antes de nós.

E o que dizer do cardiologista? Esse é o guardião dos ritmos. Monitora o tambor do peito para garantir que ele aguente os sustos do extrato bancário e as arritmias provocadas pelas notificações do WhatsApp em horários impróprios. Sob o seu olhar, o café vira vilão e a caminhada no parque, uma obrigação religiosa. O coração, que antes batia por paixões avassaladoras, agora bate para manter o colesterol dentro de uma meta que parece mais difícil que ganhar a Mega-Sena.

Por fim, chegamos à fronteira final da dignidade: o proctologista. É aqui que a ironia atinge seu ápice. Aceitamos, com uma resignação quase budista, que certas portas só se abrem com o tempo e que a saúde, às vezes, exige uma invasão de privacidade que nenhum contrato de rede social ousaria propor. É o momento em que o ego se dissolve e percebemos que somos, essencialmente, biologia em estado de alerta.

Nesta crônica dos “istas”, o que fica é a percepção de que envelhecer é o processo de se tornar um colecionador de pareceres. O dermatologista cuida das manchas que o sol de outrora desenhou na pele; o urologista monitora a hidráulica que insiste em falhar na calada da noite; o psicologista (ou terapeuta, para os íntimos) tenta organizar o caos de tudo o que os outros especialistas não conseguem ver nos exames de sangue.

Rimos dessas visitas porque o humor é o único anestésico que não exige receita. Trocar nomes de baladas por nomes de clínicas é o novo rito de passagem. E, entre uma sala de espera e outra, percebemos que essa busca incessante pelos especialistas é, no fundo, uma declaração de amor à vida. Queremos durar. Ser eternos é a nossa meta inatingível. Queremos ver o próximo capítulo, mesmo que seja através de lentes multifocais, com o coração monitorado e as articulações devidamente lubrificadas. Afinal, enquanto houver um “ista” para consultar, haverá uma história para contar.

Café, Letras e Cia.

25 de Fevereiro de 2026, por Evaldo Balbino 0

Entrei no Cheirin Bão como quem atravessa um portal de Minas para o mundo. O nome – tão regional quanto universal – prometia o que cumpria: cafés especiais e delícias mineiras. Havia no ar o perfume morno do grão recém-moído, esse incenso profano que absolve a pressa e desacelera o pulso. As mesas e cadeiras de madeira, dispostas com o cuidado de quem prepara um colo, acolhiam visitantes; atrás do balcão lindamente ornado, garçonetes educadíssimas serviam com zelo e carícia, como se cada xícara fosse um gesto de afeto entregue em porcelana. Era um cenário de aconchego: a vitrine doce exibia brownies, empadas, mimos e pedacinhos de sabor; quitutes e confeitos sorriam como pequenas epifanias do açúcar. O ponto do café sussurrava: “sabor & prosa”, e eu acreditei.

Entre uma xícara e outra, ergui os olhos e encontrei as prateleiras. Ali, alternando-se com pacotes de café gourmet, xícaras de louça, pires de madeira e plantinhas de folhas verdes aprazíveis, os livros aguardavam leitores como quem espera amigos. Toquei um, depois outro, sentindo sob os dedos a promessa de mundos empilhados. Era como passear por universos silenciosos: Uma ética para o novo milênio, do Dalai Lama, oferecia bússolas para tempos desnorteados; O som e a fúria, de William Faulkner, pulsava como um coração indomável; A menina que roubava livros, de Markus Zusak, lembrava que a literatura é um furto consentido perante a morte; O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, abria janelas filosóficas; O castelo, de Franz Kafka, erguia muros invisíveis; O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati, ensinava a espera; 1984, de George Orwell, vigiava em silêncio; Madame Bovary, de Gustave Flaubert, suspirava seus desejos; Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, buscava sentido; 20 poemas de amor e uma canção desesperada, de Pablo Neruda, ardia como café recém-passado.

Havia ainda conselhos para falar em público, códigos a decifrar, fundadores a imitar, receitas para viver sempre, prólogos que antecedem começos e um título que me piscou com intimidade: De um café ao outro. Pensei que, se cada mesa acolhia conversas apressadas, aquelas prateleiras acolhiam eternidades à espera de um par de olhos disponíveis.

Sentei-me com um livro aberto e um café fumegante. O desconforto me atravessou: café, letras e outras coisas mais; eu, porém, sem nenhuma companhia no gesto amoroso da leitura. Ao redor, risos, notificações, telas luminosas como pequenos sóis artificiais. Dedos deslizavam em superfícies lisas com a mesma delicadeza que raramente concediam às páginas. Não havia maldade em ninguém ao meu redor, apenas uma distração epidêmica – como se a vida precisasse caber no intervalo entre uma foto da xícara e a legenda espirituosa a ser postada nas redes sociais.

Li algumas páginas. O mundo de Sofia abriu perguntas como janelas; o som e a fúria ecoou no porcelanato; 1984 piscou no reflexo do vidro; Madame Bovary ajeitou o vestido na mesa ao lado. E eu ali, só, mas habitado por vozes que atravessam séculos. A solidão do leitor é um paradoxo fecundo: estamos sós para que muitos nos façam companhia. Cada frase é a mão estendida e amorosa do passado; cada capítulo, um quarto onde repousam inquietações humanas que ainda são nossas.

Doeu-me, sem acidez, perceber que os livros ali serviam apenas de ornamento para quase todos os clientes – plantas de papel que quase ninguém rega. Não peço fervor, nem que se abandone a conversa ou o doce ou a plataforma digital de interação virtual; peço apenas curiosidade. Um gesto mínimo: tocar a lombada, arriscar a primeira linha, permitir-se a demora. A leitura é um ato de resistência suave, um desacordo delicado com a pressa do mundo.

Quando terminei o último café, restava no fundo da xícara uma leve borra em forma de interrogação. Saí com o coração aquecido e uma melancolia mansa. No Cheirin Bão, as delícias são certas; a prosa, possível. A companhia, entretanto, é escolha — e exercício. Escolhi, mais uma vez, ser Cia. de mim mesmo entre goles e páginas, esperando que algum olhar vizinho descobrisse que, no ponto do café, também se serve eternidade. Porque, se é verdade que poucos se demoram nas letras, basta um leitor para que o mundo, por instantes, encontre abrigo.