Nas mensagens recebidas após o recente falecimento do meu pai, palavras amigas de sentimentos, não à deriva, mas plantadas na terra deste meu corpo carente como faltos são todos os corpos.
E aos remetentes, agora destinatários, remeti meu obrigado imenso pelos carinhos imensuráveis, na convicção de que nossa vida é maravilhosa e de que por isso mesmo ela é passageira. Expedi-lhes a crença (querendo-se inabalável) de que outra maravilha há de erigir-se mais adiante. Enviei-lhes o meu desejo de que vivamos as ausências, mas de que nessa vivência saibamos fazer durarem na memória as presenças dos nossos entes queridos. Aos meus correspondentes, fui dizendo estar em paz graças a Deus; com um vazio sim, mas com a certeza de que a morte também é necessária. De fato, ao longo da vida vamos passando pelas experiências dolorosas, mas todas elas são amainadoras do nosso ser, do nosso fôlego soberbo necessitado de compreender os próprios limites, mormente nesta existência terrena.
Um vazio, a perda. Na memória, porém, os ganhos do que foi e será sempre vida. De nossos poros sentimentais, nascem e renascem sempre os que amamos. Em nós a gema, o centro da vida nos dando origens, travessias e destinos. Na falta, a presença. O intumescimento que se destaca num galho qualquer para formar novos indivíduos, novos fôlegos. Na brotação que nos habita, somos plantas não dormentes, e de nós abotoam-se folhas e flores, abrolhos e arrulhos, arrebentos no beijo do vento, borbulhas e fagulhas, brotaduras, brotamentos e filamentos, gomos, grelos, mudas sonoras, rebentos fortes, refilhos e seus descendentes, renovos sempre antigos e renovadores. Nascemos e renascemos. Nunca se morre.
Meu pai, quase duas semanas antes de ser internado num hospital para não voltar mais a nossa casa, lidava no quintal com feijões vermelhos ainda em palha, todos colhidos na sua faina amorosa de lavrador. Ajudei-o a espalhar pelo chão cimentado afora aquelas palhas promissoras, grávidas de grãos. E ele pegando uma vagem ou outra e me dizendo alegre apesar de doente: “Deus é bom demais! Olha só, meu filho, como Deus é bom! Dum pouquinho de feijão, essa montoeira toda. A natureza é um mistério e é bonita demais!”.
Meu pai assim louvando a Deus, abraçando a natureza de modo poroso, mesmo estando ele doente por obra da mesma natureza e talvez do mesmo Deus, não sei – tudo isso me sendo lição de aceitação da vida.
Meu pai e eu, filho dele. Eu, um rebento seu, uma continuidade sua nesta vida para permanecer aqui falando dos seus gestos, da sua gesta. Eu, ramo da sua linhagem, buscando sempre conhecer seus passos, suas alegrias apesar das coisas ásperas. Eu, frágil, tenro, humílimo, vindo de homem tão forte no viver a vida e suas agruras. Da terra seca, sem vida, sem beleza aparente, a umidade vivificadora do meu pai, os seus olhos pequenos e espertos mirando o que se admira, seu nariz matutando o ar que se respira, o seu propósito de viver amando cada gota da existência. Eu cresci perto do meu pai, esta árvore imensa. E desejo, do fundo da minha precariedade, continuar sua vida: entre palavras e na própria vida mesma.
Foi o meu pai quem me disse, nos derradeiros dias da sua vida ainda consciente (antes, pois, do seu sono no leito de uma unidade de terapia intensiva): “Fica tranquilo, filho! Adoecer e morrer faz parte da vida.”. Faz parte sim, meu pai. E essa sabedoria, bem sei, só pode vir de um homem forte. O senhor sempre foi forte, mesmo me tendo dito num momento de dor aguda, perante a minha fala de que o senhor aguentaria tudo porque era um homem forte: “Já fui forte; não sou mais.”.
Ele, o meu pai eterno, faleceu no Hospital Nossa Senhora das Mercês. E quantos benefícios, favores, graças, obséquios e serviços ofertados a ele eu pude presenciar! Muito bem cuidado pelos profissionais da saúde, esses anjos de carne e osso aqui na terra, essas mãos de Deus entre nós. Meu pai recebeu mercês, todas elas vindas de força sagrada por meio dos instrumentos que o mesmo deus utiliza.
E a maior mercê de todas é a eternidade do meu pai. Para sempre renovado e amado. Para sempre amado.