Entre o sagrado e o profano

Influencers católicos e a crise do chão paroquial

26 de Agosto de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0

Nos últimos anos, assistimos ao crescimento vertiginoso da presença católica nas redes sociais. Padres, freis, leigos e religiosas com carisma comunicativo tornaram-se verdadeiros influencers com milhões de seguidores e uma capacidade impressionante de mobilizar afetos, opiniões e... doações. À primeira vista, esse fenômeno parece uma bênção. A fé católica ganha visibilidade, o conteúdo religioso circula com facilidade e muitos se aproximam da Igreja por meio de um clique. No entanto, por trás dessa aparência entusiástica, há uma realidade pastoral e econômica que merece uma reflexão urgente.

Muitos fiéis, tocados por esses “ministérios midiáticos”, acabam desviando sua atenção - e seus recursos - da comunidade paroquial à qual pertencem. É cada vez mais comum ouvir a frase: “Não vou doar para a paróquia, prefiro ajudar o Padre X do YouTube (Instagram, Facebook etc.)”. Assim, a doação que deveria sustentar o “chão” que o fiel pisa - sua igreja local, sua paróquia, seu pároco - acaba sendo enviada a outro canto do país, onde vive e atua um influencer religioso que, muitas vezes, sequer conhece o doador.

Não se trata de desmerecer o trabalho evangelizador feito por essas figuras públicas. Há neles zelo, criatividade e dedicação que, sem dúvida, ajudam muitos a reencontrar o caminho da fé. O problema está em transformar o vínculo digital em substituto do vínculo comunitário, e o culto à personalidade em substituto da vida paroquial.

Muitas paróquias hoje enfrentam sérias dificuldades financeiras. Párocos lidam com contas de luz e água atrasadas, telhados prestes a ruir, obras inacabadas e estruturas deterioradas. A ausência de contribuições regulares, aliada à perda do senso de pertença, compromete a missão da Igreja em seu espaço concreto e encarnado. Quando uma igreja desaba - no sentido literal ou figurado - muitos se perguntam o que houve. A resposta, embora complexa, passa por esse esvaziamento silencioso do compromisso comunitário.

Além disso, há o impacto espiritual. Quantas vezes os fiéis deixam de ouvir seu pároco, rejeitam a catequese da comunidade ou resistem à orientação pastoral porque o “Frei Y” disse algo diferente em uma live? Substitui-se a autoridade pastoral concreta por uma voz distante, que fala sem conhecer a realidade local, sem partilhar os sofrimentos, os desafios e as alegrias daquele povo. Isso gera confusão, fragmentação e enfraquece a comunhão eclesial.

Não adianta culpar o Estado nem esperar por soluções externas, se muitos dentro da própria Igreja abandonam seu papel. A paróquia é, antes de tudo, uma casa espiritual, um espaço de encontro, um campo de missão. É ali que se batiza, se confessa, se casa, se enterra, se cuida dos pobres, se visita os doentes. Nada - nem mesmo os carismas mais midiáticos - pode substituir a importância dessa presença viva e próxima.

É urgente que repensemos nossas prioridades. Evangelizar no digital é importante, mas sem esquecer que a Igreja é feita de pessoas reais, em lugares reais, com necessidades reais. O pároco que luta para manter sua comunidade viva merece o nosso apoio, nossas orações e, sim, nossa contribuição material.

Afinal, se queremos templos firmes e comunidades vivas, precisamos começar pelo chão que pisamos.

A religião além dos ritos: refletindo sobre as palavras de Santo Oscar Romero

29 de Julho de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0

“Uma religião de missa dominical, mas de semanas injustas não agrada ao Deus da Vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração não é cristã. Uma Igreja que instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve os clamores das injustiças não é a verdadeira igreja de nosso Divino Redentor” (Santo Oscar Romero). 

Santo Oscar Romero foi um homem que lutou pela justiça social e pela defesa dos direitos humanos em seu país, El Salvador. Sua vida e legado são uma inspiração para todos nós, não só para os religiosos, mas para todos que buscam um mundo mais justo e solidário.

Romero nos deixou uma mensagem poderosa, que nos convida a refletir sobre a verdadeira essência da religião e da igreja. Ele nos alerta para não cairmos na armadilha de uma religião superficial, que se preocupa apenas com ritos e formalidades, mas que não coloca em prática os valores de amor, solidariedade e justiça que Jesus Cristo nos ensinou.

Uma religião que se contenta apenas com a frequência na missa dominical, mas que fecha os olhos para as injustiças e sofrimentos do povo, não é uma religião verdadeira. Da mesma forma, uma igreja que busca apenas o lucro e a comodidade, sem se preocupar com as necessidades das pessoas, não é a verdadeira igreja de Cristo.

Para Romero, a verdadeira religião e a verdadeira igreja são aquelas que estão ao lado dos pobres, dos oprimidos, dos marginalizados. É aquela que se coloca na linha de frente da luta por uma sociedade mais justa e igualitária, que promove a dignidade humana e os direitos fundamentais de todas as pessoas.

Assim, neste dia de Santo Oscar Romero, devemos refletir sobre o que estamos fazendo para contribuir para um mundo mais justo e solidário. Devemos nos questionar se nossa religião e nossa igreja estão realmente a serviço dos mais necessitados e se estamos colocando em prática os valores que nos são ensinados.

Que possamos seguir o exemplo de Romero, que não se calou diante da injustiça e da opressão, e que nos inspira a lutar por um mundo melhor, onde todos possam viver com dignidade e respeito.

Magnifica humanitas: o Papa, Tolkien e o futuro que já “começou”

01 de Julho de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0

Em um mundo em que a inteligência artificial reorganiza o trabalho, algoritmos moldam a atenção pública e a experiência cotidiana é mediada por sistemas digitais, a encíclica “Magnifica humanitas”, do Papa Leão XIV, publicada no dia 25 de maio último, formula uma indagação simples e incômoda: O que ainda define o valor humano quando quase tudo pode ser medido, simulado ou substituído? Esta análise não seguirá a ordem dos parágrafos da encíclica (Magnifica humanitas), mas as ideias que atravessam sua estrutura e que o autor identifica como eixos transversais de leitura.

No parágrafo 213, Leão XIV cita uma passagem de “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível para ajudar os anos em que estamos inseridos, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.”

A referência não funciona como ornamento cultural, mas como um elemento de aproximação com o leitor contemporâneo. Leão XIV escolhe uma linguagem capaz de atravessar o vocabulário estritamente teológico e dialogar com narrativas que ainda estruturam a imaginação contemporânea. Uma das teses que sustentam a encíclica e atravessam todo o documento é a de que o valor da pessoa não depende de desempenho, utilidade ou reconhecimento.    

Esse princípio entra em choque com uma cultura organizada por métricas contínuas. A vida passa a ser quantificada em indicadores de desempenho, avaliações automatizadas e sinais de visibilidade. Nesse cenário, o risco não está apenas no controle, mas na transformação do valor humano em efeito de medição.

O resultado é uma lógica em que o erro se converte em perda de valor e sucesso em prova de legitimidade.

Contra isso, o texto apresenta a ideia de “dignidade ontológica”. A pessoa vale pelo fato de existir, não pelo que produz ou alcança.

Essa afirmação reorganiza a forma de olhar situações sociais comuns. Pessoas deixam de ser classificadas por utilidade, como custo, problema estatístico ou recurso funcional, e passam a ser reconhecidas como fim em si mesmas.

Essa dignidade não é removida por erro moral grave. A responsabilidade permanece, mas não elimina a condição humana. A encíclica distingue o julgamento moral do reconhecimento da humanidade. Esse princípio reaparece quando trata da condição das mulheres. A desigualdade não é apenas formal, mas estrutural, marcada por assimetrias reais de proteção e voz.

O documento, então, desloca o foco para a verdade. Ao citar Hannah Arendt, Leão XIV retoma a ideia de que o problema dos regimes totalitários não é apenas a mentira deliberada, mas a perda da distinção entre fato e ficção. Quando essa fronteira desaparece, o julgamento crítico deixa de operar.

No ambiente atual, essa observação ganha um novo “formato”. Sistemas digitais, conteúdos sintéticos e algoritmos de filtragem reduzem a estabilidade do que pode ser reconhecido como realidade compartilhada.

O ponto central não é a existência de falsidades, mas a fragilidade do critério de discernimento. Esse problema se intensifica quando a encíclica trata da inteligência artificial aplicada à comunicação.

A encíclica afirma que linguagem simulada não equivale a relação humana. A diferença está na origem da interação. De um lado, processamento técnico. Do outro, experiência vivida e responsabilidade recíproca.

O risco identificado não é a substituição da fala, mas da própria relação, quando a interação suficiente passa a ser tomada como convivência real.

Esse mesmo eixo aparece quando a encíclica examina formas de violência dentro de estruturas institucionais.

A encíclica reconhece o abuso em suas múltiplas expressões – físicas, psicológicas, sociais e espirituais – e trata o abuso espiritual como uma forma específica dessa violência, especialmente ligada à manipulação da consciência e da fé. Ao mesmo tempo, valoriza a atuação de jornalistas na exposição de falhas institucionais. A implicação é direta. Nenhuma instituição mantém legitimidade apenas por autorreferência.

Essa lógica se torna mais explícita no tratamento da escravidão. No parágrafo 176, lê-se: “[...] não podemos negar ou minimizar o atraso com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo da escravatura.”

O foco não está na condenação em si, mas na demora histórica dessa condenação. Leão XIV recusa uma leitura retrospectiva que suavize o problema e reorganize o passado em uma narrativa “limpa”.

Esse reconhecimento não elimina o papel de movimentos e figuras que combateram a escravidão, mas impede que exceções substituam a avaliação do conjunto histórico.

O efeito é estabelecer um critério consistente. Verdade não depende da preservação institucional, mas do enfrentamento de limites reais.

A encíclica também aborda a solidão contemporânea em ambientes digitais. Sistemas automatizados podem simular diálogo e empatia, mas não produzem reciprocidade real, pois não envolvem vulnerabilidade mútua. A diferença aqui não é estética, mas estrutural. Interação não equivale a relação.

No conjunto, “Magnifica humanitas” desloca o debate religioso para um campo mais amplo. O problema não é apenas espiritual ou institucional, mas civilizacional. Trata-se de como preservar critérios humanos em sistemas que tendem a reduzir tudo a desempenho, simulação ou eficiência.

A encíclica não propõe restauração do passado nem rejeição da tecnologia. Leão XIV opera com uma distinção simples. Sistemas são meios; a pessoa é o limite deles. Num contexto de excesso de escala e velocidade, essa limitação deixa de ser restrição e passa a funcionar como critério de orientação.

Referência:

<https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/encyclicals/documents/20260515-magnifica-humanitas.html>. Acesso em: 08 jun. 2026.

A última “catequese” de Francisco

27 de Maio de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0

No dia 28 de abril (2026), consegui visitar a lápide do saudoso Papa Francisco. Posso dizer, sem exagero, que a minha fé se divide em dois tempos: antes e depois de Francisco e de seu admirável pontificado.

A fé, assim como a própria vida, exige amadurecimento. E, quando amadurece, nos obriga a enxergar o mundo por outras frestas. Foi exatamente isso que aconteceu comigo através do magistério de Francisco. Desde a infância, a opulência me causava incômodo; havia algo nela que me parecia distante do Evangelho. Então surgiu Francisco, com sua simplicidade desarmante, para consolidar um caminho que eu buscava sem sequer perceber: uma fé concreta, encarnada na vida, uma fé que recoloca Cristo no centro não como discurso, mas como prática cotidiana.

Mas não apenas isso. Francisco nos ensinou uma fé capaz de olhar para as periferias existenciais, de tocar as feridas humanas sem medo, de escancarar aquilo que deveria ser evidente desde sempre: uma Igreja para todos, todos e todos...

Foi um homem que viveu aquilo que pregou. Sua sepultura traduz isso de maneira quase silenciosa. Pela televisão, eu não imaginava que fosse tão simples; diante dela, a simplicidade impressiona ainda mais. Não há grandiosidade ornamental, apenas a sobriedade de quem compreendeu que a força do Evangelho não habita no excesso, mas na entrega.

Francisco, o “Papa da Igreja em saída”, deixou também em seu descanso eterno uma última catequese: escolheu repousar fora da sede oficial da Igreja Católica. Até na morte permaneceu fiel ao caminho que anunciou durante toda a vida.

Não consegui encontrá-lo fisicamente em vida, mas, de algum modo, hoje o encontro em um lugar mais caro: no coração. Há presenças que o tempo encerra e há outras que permanecem caminhando dentro de nós. Francisco pertence a essas últimas.

A semente foi novamente lançada à terra. Agora, cabe a nós decidir se teremos coragem de continuar o caminho que o Senhor nos indicou através dele.

Muito obrigado, Francisco!

Dominar ou servir? O dilema do conhecimento como poder

29 de Abril de 2026, por Mauro Luiz do Nascimento Júnior 0

Francis Bacon, um dos grandes expoentes do pensamento moderno, cunhou a frase célebre “conhecimento é poder” (knowledge is power). Essa afirmação, à primeira vista, parece encapsular uma simples relação de causa e efeito: quanto mais sabemos, mais somos capazes de exercer controle sobre o mundo ao nosso redor. Entretanto, por trás dessas palavras, encontra-se uma gama de possibilidades interpretativas que nos convidam a refletir sobre os verdadeiros propósitos do conhecimento e o tipo de poder que ele proporciona.

Quando pensamos em poder, frequentemente associamos o conceito à ideia de dominação e controle. E, de fato, o projeto baconiano da ciência moderna nasceu do desejo de submeter a natureza à vontade humana, libertando-nos das limitações impostas pela ignorância e pela superstição. Sob essa perspectiva, o conhecimento se torna uma ferramenta para a ampliação da liberdade humana, um meio de transcender a condição natural e os infortúnios que ela impõe.

No entanto, se pararmos para refletir, precisamos questionar: o que exatamente queremos com esse poder? Usá-lo apenas para dominar e explorar, seja a natureza, outros seres humanos, ou mesmo a nós mesmos, pode acabar por alienar-nos das mais profundas dimensões éticas e espirituais da vida. Como apontou Michel Foucault, o poder não é apenas uma força externa que subjuga; ele penetra nas mais íntimas fibras do tecido social, moldando nossa compreensão do mundo e nossa relação com os outros. Assim, o poder que advém do conhecimento não é moralmente neutro; ele pode tanto oprimir quanto libertar, dependendo de como e por quem é exercido.

Nesse sentido, o conhecimento também pode ser visto como um instrumento de serviço. Quando utilizado para promover o bem-estar, aliviar o sofrimento e fomentar a compreensão mútua, o poder do conhecimento torna-se uma força benéfica, capaz de gerar transformações positivas. Talvez aqui resida a chave para reinterpretar a frase de Bacon: o poder que o conhecimento oferece pode ser utilizado não para a dominação, mas para o serviço ao próximo.

Além da dimensão de poder sobre o mundo externo, o conhecimento possui um valor intrínseco que transcende a mera utilidade prática. Ele pode ser um tesouro para as futuras gerações, um atestado do que fomos capazes de compreender e realizar. Nesse contexto, o conhecimento é também uma forma de perpetuar o sentido e os valores de uma civilização, um ato de responsabilidade intergeracional. A construção do conhecimento, assim, pode ser vista não apenas como um exercício de poder, mas como um compromisso com o futuro.

Ademais, o conhecimento possui um aspecto reflexivo que nos conduz ao autoconhecimento. O poder que se ganha ao conhecer o mundo exterior é incompleto se não é acompanhado por uma exploração do mundo interior. Sócrates, o filósofo que se tornou símbolo do “conhece-te a ti mesmo”, nos lembra de que o verdadeiro poder não reside na capacidade de dominar os outros, mas na habilidade de compreender a si próprio, reconhecer os próprios limites e aspirar à virtude.

Há, no entanto, um lado sombrio nessa busca por conhecimento. Tal como qualquer forma de poder, o saber também pode viciar. Assim como uma droga poderosa, ele pode intoxicar a mente daqueles que o detêm, levando-os a acreditar que estão acima do bem e do mal. O conhecimento, se não for guiado por princípios éticos, pode se tornar um instrumento de tirania, como a história nos ensina em diversos exemplos de regimes que usaram ciência e tecnologia para oprimir em vez de libertar.

A sedução do poder pode corromper mesmo os mais bem-intencionados. Para que o conhecimento seja verdadeiramente emancipador, é preciso que ele seja guiado por uma disposição humilde e uma consciência crítica de seus próprios limites. Um conhecimento que não é temperado pela prudência pode se transformar em um novo tipo de servidão, pois, ao tentar dominar tudo o que nos cerca, corremos o risco de sermos dominados pela ilusão de onipotência.

Queremos o poder para dominar ou para servir? Para enriquecer a nós mesmos ou para beneficiar os outros? Para conquistar o mundo ou para conhecer a nós mesmos? Essas perguntas não têm respostas simples, mas nos desafiam a reconsiderar o valor que atribuímos ao conhecimento em nossa sociedade.

Se o poder do conhecimento deve ser buscado, é preciso que ele seja orientado por uma ética do cuidado, pelo serviço ao bem comum e pela busca de uma sabedoria que não seja apenas técnica, mas também moral. Apenas assim poderemos transformar o conhecimento em um poder verdadeiramente libertador, que não apenas expanda nossa capacidade de agir no mundo, mas também nos ensine a agir com responsabilidade, empatia e humanidade.

Neste sentido, o que deixamos como seres humanos deve ser mais do que uma coleção de feitos científicos e tecnológicos. Deve ser a marca de uma existência vivida em busca não apenas de controle, mas de compreensão, de um poder que não destrua, mas que edifique; não que subjuga, mas que liberta. Afinal, o maior poder que o conhecimento pode nos oferecer é o poder de nos tornarmos verdadeiramente humanos.

 

Referência:

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Edições Graal, 2019.