Retalhos Literários

Escarcéu com muito amor

29 de Abril de 2026, por Evaldo Balbino 0

O coreto da praça de Monte Azul parecia flutuar sobre o mormaço daquela tarde de sábado. O casamento da prima Zulmira era o evento do século na grota, um desfile de ternos de tergal brilhantes e vestidos de cetim que pinicavam a alma. Com meus sete anos e os joelhos ralados, eu observava tudo do alto de um caixote de vinho. O mundo dos adultos é um teatro de sombras, e tia Odete era a protagonista daquele drama rural.

O sol de março castigava as ladeiras, e o cheiro de porco assado se misturava ao perfume barato das convidadas. Odete, a caçula de uma prole de doze filhas, sempre teve o dom de transformar um batizado em um funeral e um casamento em uma guerra civil. O estopim foi um pedaço de asa de frango. O marido, tio Onofre, um homem cuja paciência era proporcional à sua barriga de chope, cometeu o erro fatal de oferecer a iguaria à vizinha de mesa antes de servir a esposa.

– Você me desonrou, Onofre! – o grito de tia Odete cortou a música caipira como uma navalha em seda velha.

O silêncio caiu sobre a grota. Tia Odete, com seu vestido cor de rosa-choque, começou a marchar em direção à ribanceira que margeava a propriedade. O terreno descia íngreme até o riacho seco, um despenhadeiro de barro vermelho e urtiga.

– Vou acabar com tudo! –  ela berrava, jogando o buquê (que nem era dela) no chão. – A vida é um fardo de espinhos! Vou tomar veneno de rato! Vou me atirar no abismo e vocês vão chorar sobre meu cadáver!

Acompanhei a procissão de curiosos, fascinado. Na minha cabeça de criança, imaginava se o veneno de rato tinha gosto de groselha. A tia subiu no topo da ribanceira, descabelada, o rímel escorrendo como rios de petróleo pelo rosto redondo. Balançava os braços, fazendo uma performance digna de ópera mambembe.

Atrás dela, com os braços cruzados e uma expressão de quem assiste a um comercial chato, estava tia Eunice, a irmã mais velha, que era o oposto do drama; era feita de sarcasmo. Enquanto a família tentava acalmar a caçula, a primogênita apenas bocejava, ajustando os óculos no nariz.

– Ai, meu Deus, Odete vai se matar! – gritava a avó, quase desmaiando.

– Pois morra mesmo, minha irmã – disparou Eunice, com uma voz cortante que silenciou os soluços de Odete por um segundo. – Morra logo, que a gente ainda quer comer o bolo! Você está precisando mesmo de um descanso eterno, e nós de um pouco de paz.

Tia Odete arregalou os olhos, a boca aberta em um “O” perfeito de indignação.

– Você está me mandando morrer, Eunice? – soluçou, dramatizando a traição.

– Estou facilitando as coisas. Se quiser, eu dou um empurrãozinho pra ajudar na queda. Mas pula logo, porque esse seu show de todo feriado já perdeu a audiência. O veneno de rato tá ali na despensa, quer que eu busque com um copo d'água ou vai purinho mesmo? – tia Eunice sorria de um jeito ácido, aquele sorriso de quem trocou as fraldas da mana e sabia que ela tinha medo até de lagartixa.

– Você é um monstro! – tia Odete gritava para o vale, enquanto se agarrava a um pé de mamona para não escorregar de verdade.

– Sou prática, Odete. Você faz essa tempestade em copo d'água desde que perdeu a boneca de pano aos cinco anos. O Onofre só deu um frango pra comadre, mulher! Deixa de ser ridícula. Pula ou volta pro baile, que o doce de leite está acabando!

Eu olhava para tia Eunice com uma admiração nova. Ela era a guardiã da realidade. Tia Odete, percebendo que o sarcasmo da irmã ganhava mais público do que o seu martírio, começou a descer da ribanceira com a dignidade de uma rainha deposta, limpando o vestido sujo de terra.

– Eu vou voltar – anunciou soluçando baixo –, mas só porque não quero estragar a festa da Zulmira com o meu sangue.

– Sei – murmurou tia Eunice, voltando-se para o salão. – É o medo de encontrar o capeta e ele te devolver por excesso de drama.

A festa continuou. O casamento seguiu entre risos e fofocas. Tia Odete comeu três pedaços de bolo e tia Eunice continuou vigiando a vida com seus olhos de lince. E eu, ali no meu canto, aprendi que na família o amor às vezes se manifesta através de um “morra logo”, dito por quem sabe que temos vida demais para nos apagarmos por tão pouco. E quanta vida!

A odisseia dos “istas”

25 de Marco de 2026, por Evaldo Balbino 0

Dizem que o tempo é um senhor tão bonito quanto implacável, mas esqueceram de mencionar que ele não chega sozinho; traz consigo uma comitiva de especialistas. Houve uma época, perdida em algum lugar entre os carnavais de rua e as noites sem ressaca, em que a única lista que nos preocupava era a do supermercado ou a de contatos do finado MSN. Hoje a agenda virou um guia médico-hospitalar, e nossa vida se tornou uma sucessiva e irônica busca pela manutenção do que, outrora, funcionava no automático.

A jornada começa, invariavelmente, pela vista. O oftalmologista é o primeiro profeta dessa nova era. Ele nos olha com piedade enquanto tentamos ler letras que parecem formigas em fuga. “É a vista cansada”, ele diz, com a suavidade de quem anuncia o fim de um império. De repente, para conseguir ler o que sobrou da nossa autoestima em uma bula de remédio, precisamos esticar o braço como se estivéssemos tentando alcançar o horizonte. O mundo, antes nítido, ganha um filtro de neblina poética que, na verdade, é apenas o cristalino pedindo arrego.

Depois, o corpo começa a emitir sinais sonoros. Um “creck” ao levantar, um “track” ao sentar. Entra em cena o ortopedista. Com ele, descobrimos que a gravidade é uma força vingativa e que, após certa idade, até um espirro mal planejado é capaz de deslocar uma vértebra. Passamos a tratar nossas articulações como se fossem porcelanas da era Ming, e qualquer escada se torna o Monte Everest. O diagnóstico é quase sempre um lembrete de que não somos mais feitos de borracha, mas de um material que exige repouso e compressas de gelo.

A preocupação se torna interna, invisível, quase metafísica. O infectologista surge no horizonte não por causa de uma selva exótica, mas para conferir se aquele cansaço crônico que nos abate às oito da noite é um vírus oportunista ou apenas o peso acumulado do nosso próprio RG. Queremos um culpado microscópico para a nossa falta de fôlego, quando a verdade é que o metabolismo decidiu se aposentar antes de nós.

E o que dizer do cardiologista? Esse é o guardião dos ritmos. Monitora o tambor do peito para garantir que ele aguente os sustos do extrato bancário e as arritmias provocadas pelas notificações do WhatsApp em horários impróprios. Sob o seu olhar, o café vira vilão e a caminhada no parque, uma obrigação religiosa. O coração, que antes batia por paixões avassaladoras, agora bate para manter o colesterol dentro de uma meta que parece mais difícil que ganhar a Mega-Sena.

Por fim, chegamos à fronteira final da dignidade: o proctologista. É aqui que a ironia atinge seu ápice. Aceitamos, com uma resignação quase budista, que certas portas só se abrem com o tempo e que a saúde, às vezes, exige uma invasão de privacidade que nenhum contrato de rede social ousaria propor. É o momento em que o ego se dissolve e percebemos que somos, essencialmente, biologia em estado de alerta.

Nesta crônica dos “istas”, o que fica é a percepção de que envelhecer é o processo de se tornar um colecionador de pareceres. O dermatologista cuida das manchas que o sol de outrora desenhou na pele; o urologista monitora a hidráulica que insiste em falhar na calada da noite; o psicologista (ou terapeuta, para os íntimos) tenta organizar o caos de tudo o que os outros especialistas não conseguem ver nos exames de sangue.

Rimos dessas visitas porque o humor é o único anestésico que não exige receita. Trocar nomes de baladas por nomes de clínicas é o novo rito de passagem. E, entre uma sala de espera e outra, percebemos que essa busca incessante pelos especialistas é, no fundo, uma declaração de amor à vida. Queremos durar. Ser eternos é a nossa meta inatingível. Queremos ver o próximo capítulo, mesmo que seja através de lentes multifocais, com o coração monitorado e as articulações devidamente lubrificadas. Afinal, enquanto houver um “ista” para consultar, haverá uma história para contar.

Café, Letras e Cia.

25 de Fevereiro de 2026, por Evaldo Balbino 0

Entrei no Cheirin Bão como quem atravessa um portal de Minas para o mundo. O nome – tão regional quanto universal – prometia o que cumpria: cafés especiais e delícias mineiras. Havia no ar o perfume morno do grão recém-moído, esse incenso profano que absolve a pressa e desacelera o pulso. As mesas e cadeiras de madeira, dispostas com o cuidado de quem prepara um colo, acolhiam visitantes; atrás do balcão lindamente ornado, garçonetes educadíssimas serviam com zelo e carícia, como se cada xícara fosse um gesto de afeto entregue em porcelana. Era um cenário de aconchego: a vitrine doce exibia brownies, empadas, mimos e pedacinhos de sabor; quitutes e confeitos sorriam como pequenas epifanias do açúcar. O ponto do café sussurrava: “sabor & prosa”, e eu acreditei.

Entre uma xícara e outra, ergui os olhos e encontrei as prateleiras. Ali, alternando-se com pacotes de café gourmet, xícaras de louça, pires de madeira e plantinhas de folhas verdes aprazíveis, os livros aguardavam leitores como quem espera amigos. Toquei um, depois outro, sentindo sob os dedos a promessa de mundos empilhados. Era como passear por universos silenciosos: Uma ética para o novo milênio, do Dalai Lama, oferecia bússolas para tempos desnorteados; O som e a fúria, de William Faulkner, pulsava como um coração indomável; A menina que roubava livros, de Markus Zusak, lembrava que a literatura é um furto consentido perante a morte; O mundo de Sofia, de Jostein Gaarder, abria janelas filosóficas; O castelo, de Franz Kafka, erguia muros invisíveis; O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati, ensinava a espera; 1984, de George Orwell, vigiava em silêncio; Madame Bovary, de Gustave Flaubert, suspirava seus desejos; Seis personagens à procura de um autor, de Luigi Pirandello, buscava sentido; 20 poemas de amor e uma canção desesperada, de Pablo Neruda, ardia como café recém-passado.

Havia ainda conselhos para falar em público, códigos a decifrar, fundadores a imitar, receitas para viver sempre, prólogos que antecedem começos e um título que me piscou com intimidade: De um café ao outro. Pensei que, se cada mesa acolhia conversas apressadas, aquelas prateleiras acolhiam eternidades à espera de um par de olhos disponíveis.

Sentei-me com um livro aberto e um café fumegante. O desconforto me atravessou: café, letras e outras coisas mais; eu, porém, sem nenhuma companhia no gesto amoroso da leitura. Ao redor, risos, notificações, telas luminosas como pequenos sóis artificiais. Dedos deslizavam em superfícies lisas com a mesma delicadeza que raramente concediam às páginas. Não havia maldade em ninguém ao meu redor, apenas uma distração epidêmica – como se a vida precisasse caber no intervalo entre uma foto da xícara e a legenda espirituosa a ser postada nas redes sociais.

Li algumas páginas. O mundo de Sofia abriu perguntas como janelas; o som e a fúria ecoou no porcelanato; 1984 piscou no reflexo do vidro; Madame Bovary ajeitou o vestido na mesa ao lado. E eu ali, só, mas habitado por vozes que atravessam séculos. A solidão do leitor é um paradoxo fecundo: estamos sós para que muitos nos façam companhia. Cada frase é a mão estendida e amorosa do passado; cada capítulo, um quarto onde repousam inquietações humanas que ainda são nossas.

Doeu-me, sem acidez, perceber que os livros ali serviam apenas de ornamento para quase todos os clientes – plantas de papel que quase ninguém rega. Não peço fervor, nem que se abandone a conversa ou o doce ou a plataforma digital de interação virtual; peço apenas curiosidade. Um gesto mínimo: tocar a lombada, arriscar a primeira linha, permitir-se a demora. A leitura é um ato de resistência suave, um desacordo delicado com a pressa do mundo.

Quando terminei o último café, restava no fundo da xícara uma leve borra em forma de interrogação. Saí com o coração aquecido e uma melancolia mansa. No Cheirin Bão, as delícias são certas; a prosa, possível. A companhia, entretanto, é escolha — e exercício. Escolhi, mais uma vez, ser Cia. de mim mesmo entre goles e páginas, esperando que algum olhar vizinho descobrisse que, no ponto do café, também se serve eternidade. Porque, se é verdade que poucos se demoram nas letras, basta um leitor para que o mundo, por instantes, encontre abrigo.

Por que os gatos são perseguidos?

27 de Janeiro de 2026, por Evaldo Balbino 0

O mundo, visto da janela do oitavo andar, parece uma geometria rígida de concreto e vidro. Mas, se estreitarmos os olhos para o terreno baldio que repousa nos fundos do edifício, a rigidez se desfaz. Ali, o tempo corre em outra velocidade, sob a guarda de pequenos deuses de veludo que ignoram as escrituras do cartório. O terreno pertence ao prédio, dizem os documentos; os gatos, porém, dizem que a terra pertence ao sol que a aquece.

Por que os gatos são perseguidos? A pergunta flutua no corredor, entre o cheiro seco da vida humana e o silêncio austero dos elevadores. É um mistério que desafia a lógica do afeto. Três moradores, munidos de tigelas e de uma ternura que não cabe em atas de condomínio, decidiram que a fome não deveria ser o destino daqueles seres de passos lunares. Mas a caridade, por vezes, encontra muros mais altos que os de alvenaria, erguidos por quem vê na vida alheia apenas um estorvo a ser “higienizado”.

Há uma estranha intolerância no bicho homem contra o bicho gato. Talvez seja a autonomia deles que nos ofenda. O gato não nos deve obediência; ele nos oferece presença. No terreno esquecido, entre o mato que insiste em ser verde e os restos de uma construção que nunca foi, eles são pequenas vírgulas de vida num parágrafo em branco. Cinzas, malhados, pretos como a noite sem estrelas, eles deslizam pelas sombras como se costurassem o tecido da realidade com fios invisíveis de mistério.

Essa perseguição ignora uma linhagem sagrada que remonta às areias do tempo. Não foi por acaso que os antigos egípcios os elevaram ao altar da divindade. Eles não viam no gato apenas um caçador de roedores, mas a personificação de Bastet, a deusa da proteção, do prazer e da saúde. No Egito, ferir um gato era ferir o equilíbrio do cosmos; eles eram os sentinelas do invisível, capazes de enxergar o que os olhos humanos, turvos de pressa e vaidade, jamais alcançam. Quando um gato caminhava pelos palácios de Tebas, ele não pedia permissão; emanava uma autoridade silenciosa, a mesma que hoje, milênios depois, ainda brilha nas pupilas verticais daqueles que habitam o nosso terreno baldio.

Adorá-los não era um capricho, era um reconhecimento de sua elegância metafísica. E hoje, o que fazemos? Trocamos o incenso e o ouro pelo desprezo e pela proibição. A perseguição nasce, talvez, de um equívoco de posse. Os vizinhos que protestam, amparados por regulamentos e queixas sobre “higiene”, parecem ter esquecido a lição dos faraós: de que há seres que carregam em si uma centelha do sagrado.

Quando os três moradores descem, quase em segredo, levam mais do que ração; levam o reconhecimento de que não somos os únicos donos da existência. Cada grão depositado na tigela é um verso de um poema que celebra o direito de respirar sob o mesmo céu. O gato é um mestre da contemplação. Ele olha para o humano não como um servo, mas como um mistério a ser observado. Talvez por isso causem medo. Eles são os guardiões dos portais da invisibilidade em meio à nossa urbanidade estéril.

Negar-lhes o alimento é uma tentativa vã de expulsar a natureza de dentro de nós mesmos, de “higienizar” o espírito até que não reste nada além de azulejos limpos e corações vazios. Há uma poesia silenciosa no ato de cuidar. Quando a mão humana se estende para o pequeno felino, há um curto-circuito de alteridade. Ali, naquela fronteira de mato e concreto, o antropocentrismo desmorona. Percebemos que a dor da fome é uma linguagem universal, que não exige tradução nem CPF.

A perseguição aos gatos é, no fundo, a perseguição à liberdade. Eles não pagam condomínio, não seguem o relógio de ponto e não se curvam às nossas vaidades. Simplesmente são. E sua existência, tão plena e tão frágil, parece afrontar aqueles que vivem aprisionados em suas próprias certezas de cimento.

Que se abram as frestas! Que as tigelas permaneçam cheias, não apenas de comida, mas de dignidade. Porque um edifício que não suporta o miado de um gato faminto é um edifício que já começou a desabar por dentro. O respeito a essas pequenas vidas é o que nos impede de virar apenas sombras frias no terreno baldio da indiferença. Despertemo-nos para a beleza de partilhar o mundo! Honremos o legado daqueles que, há milênios, já sabiam que onde há um gato há um pouco mais de luz.

Escrever para amar

24 de Dezembro de 2025, por Evaldo Balbino 0

Ainda estamos aqui.

Vi o filme de Walter Salles em março de 2025. O roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega foi baseado na autobiografia homônima de 2015, Ainda estou aqui, escrita por Marcelo Rubens Paiva, o mesmo autor que me fascinou há muitos anos com o livro Feliz ano velho. O filme Ainda estou aqui entrou em cartaz nos cinemas do Brasil em 7 de novembro de 2024, com uma grande repercussão, tornando-se um sucesso de bilheteria antes mesmo de suas indicações ao Oscar em 2025, e saiu dos cinemas em abril do mesmo ano. Esse foi o único longa-metragem que vi em 2025. Vi e chorei.

Chorei com a firmeza da interpretação da Fernanda Torres e com a intocável performance sem palavras da Fernanda Montenegro.

Vi o filme, e ainda estou aqui: respirando, pensando, falando e escrevendo. Nossas vidas se fazem de resistência e insistência. Em todos os sentidos.

E a arte é uma das formas de sobrevivermos. Não falo de sobrevida financeira, ainda mais em se tratando de literatura, a que não se vende facilmente. O trabalho circula, mas leitores de fato, como diversas vezes já falaram e lamentaram “n” escritores, são raros. Lembro as palavras de Lygia Fagundes Telles no seu delicioso A disciplina do amor, quando a autora discorre sobre o fato de leitores serem uma espécie em extinção (termos da escritora). E ela recorrentemente retomou essa ideia em diversas entrevistas. O livro é de 1980. E até hoje o problema continua.

Se proliferam divulgações de leitura, resta saber o que de fato está acontecendo com a leitura do texto literário. Os que citam tantos autores estão de fato os lendo?

Um desânimo paira no ar. Escreve-se. Escreve-se o texto. Escreve-se para quem?

Apesar de tudo, escrevo e publico. Escrevo por necessidade e por resistência. Publico por esses mesmos motivos, mas também por insistência. Remo constantemente, ainda que a correnteza se volte contra mim.

Enquanto houver motivo, se escreve. E o maior de todos é o não entendermos a existência. Damos explicações históricas, biológicas, sociológicas, psicológicas, religiosas e outras mais. Esgotamos pensamentos e compêndios inteiros, na duração da busca dum entendimento impossível.

Não nego as ciências, as religiões. Não nego a importância do tempo despendido em tantas elucubrações. Afinal, tudo isso nos define a nós humanos, pobres humanos! E nos constrói como seres pensantes, além de sentidores. Sentir, talvez, seja o que mais nos salva. Sentir com a mente, pensar com o coração.

Assim penso e sinto, por palavras impressas em livros. Um poema, um conto, uma crônica, as linhas de um romance. Tudo isso é tição, lenha que não se apaga, tocha (ainda que tênue) na escuridão da não leitura.

Não lamento aqui. Apenas constato. E também reitero o poder da escrita de lutar contra tudo o que lhe é contrário.

E vale lembrar sempre: ninguém é obrigado a ler. O debruçar-se sobre um livro, e aqui falo especialmente do livro literário, deve ser um ato de amor, deve construir-se na disciplina prazerosa do tocar as palavras, sentir-lhes o cheiro e o sabor, beijar-lhes a textura inconfundível. E avançar mais ainda: abraçar tudo o que elas, as palavras em estado de arte, podem nos oferecer. Beleza tamanha não tem preço, mesmo que o livro-mercadoria seja vendável.

Ler é mais do que estudar. Para quem é leitor espontâneo (e sei que essa espontaneidade é construída), o estudo é uma consequência natural. O leitor não tem medo do livro. Deita a cabeça sobre ele como num travesseiro aprazível e incômodo. E quantos sonhos e pesadelos se tecem nesse conforto desconfortável! Infindáveis lendas, imensuráveis ficções a nos falarem de verdades verdadeiras, de coisas boas e ruins. A nos falarem, na verdade, da vida e de tudo o que a vida representa e é para nós. Vale a pena esse exercício!

Escrever e ler são atos de amor. São atos que dizem que ainda estamos aqui. São disciplinas que construímos e que viram gestos de uma entrega sem esforço. A poesia nos amavia. Amemos!