O mundo, visto da janela do oitavo andar, parece uma geometria rígida de concreto e vidro. Mas, se estreitarmos os olhos para o terreno baldio que repousa nos fundos do edifício, a rigidez se desfaz. Ali, o tempo corre em outra velocidade, sob a guarda de pequenos deuses de veludo que ignoram as escrituras do cartório. O terreno pertence ao prédio, dizem os documentos; os gatos, porém, dizem que a terra pertence ao sol que a aquece.
Por que os gatos são perseguidos? A pergunta flutua no corredor, entre o cheiro seco da vida humana e o silêncio austero dos elevadores. É um mistério que desafia a lógica do afeto. Três moradores, munidos de tigelas e de uma ternura que não cabe em atas de condomínio, decidiram que a fome não deveria ser o destino daqueles seres de passos lunares. Mas a caridade, por vezes, encontra muros mais altos que os de alvenaria, erguidos por quem vê na vida alheia apenas um estorvo a ser “higienizado”.
Há uma estranha intolerância no bicho homem contra o bicho gato. Talvez seja a autonomia deles que nos ofenda. O gato não nos deve obediência; ele nos oferece presença. No terreno esquecido, entre o mato que insiste em ser verde e os restos de uma construção que nunca foi, eles são pequenas vírgulas de vida num parágrafo em branco. Cinzas, malhados, pretos como a noite sem estrelas, eles deslizam pelas sombras como se costurassem o tecido da realidade com fios invisíveis de mistério.
Essa perseguição ignora uma linhagem sagrada que remonta às areias do tempo. Não foi por acaso que os antigos egípcios os elevaram ao altar da divindade. Eles não viam no gato apenas um caçador de roedores, mas a personificação de Bastet, a deusa da proteção, do prazer e da saúde. No Egito, ferir um gato era ferir o equilíbrio do cosmos; eles eram os sentinelas do invisível, capazes de enxergar o que os olhos humanos, turvos de pressa e vaidade, jamais alcançam. Quando um gato caminhava pelos palácios de Tebas, ele não pedia permissão; emanava uma autoridade silenciosa, a mesma que hoje, milênios depois, ainda brilha nas pupilas verticais daqueles que habitam o nosso terreno baldio.
Adorá-los não era um capricho, era um reconhecimento de sua elegância metafísica. E hoje, o que fazemos? Trocamos o incenso e o ouro pelo desprezo e pela proibição. A perseguição nasce, talvez, de um equívoco de posse. Os vizinhos que protestam, amparados por regulamentos e queixas sobre “higiene”, parecem ter esquecido a lição dos faraós: de que há seres que carregam em si uma centelha do sagrado.
Quando os três moradores descem, quase em segredo, levam mais do que ração; levam o reconhecimento de que não somos os únicos donos da existência. Cada grão depositado na tigela é um verso de um poema que celebra o direito de respirar sob o mesmo céu. O gato é um mestre da contemplação. Ele olha para o humano não como um servo, mas como um mistério a ser observado. Talvez por isso causem medo. Eles são os guardiões dos portais da invisibilidade em meio à nossa urbanidade estéril.
Negar-lhes o alimento é uma tentativa vã de expulsar a natureza de dentro de nós mesmos, de “higienizar” o espírito até que não reste nada além de azulejos limpos e corações vazios. Há uma poesia silenciosa no ato de cuidar. Quando a mão humana se estende para o pequeno felino, há um curto-circuito de alteridade. Ali, naquela fronteira de mato e concreto, o antropocentrismo desmorona. Percebemos que a dor da fome é uma linguagem universal, que não exige tradução nem CPF.
A perseguição aos gatos é, no fundo, a perseguição à liberdade. Eles não pagam condomínio, não seguem o relógio de ponto e não se curvam às nossas vaidades. Simplesmente são. E sua existência, tão plena e tão frágil, parece afrontar aqueles que vivem aprisionados em suas próprias certezas de cimento.
Que se abram as frestas! Que as tigelas permaneçam cheias, não apenas de comida, mas de dignidade. Porque um edifício que não suporta o miado de um gato faminto é um edifício que já começou a desabar por dentro. O respeito a essas pequenas vidas é o que nos impede de virar apenas sombras frias no terreno baldio da indiferença. Despertemo-nos para a beleza de partilhar o mundo! Honremos o legado daqueles que, há milênios, já sabiam que onde há um gato há um pouco mais de luz.