São João del-Rei realiza a segunda edição do Festival São João dos Queijos

ATUALIZAÇÃO: Produção de queijo no município começou no século XVIII, de acordo com o historiador Antônio Gaio Sobrinho.


Economia

José Venâncio de Resende0

O II Festival São João dos Queijos, entre 5 e 7 de julho no Largo São Francisco em São João del-Rei, já tem a programação completa,  reunindo música, gastronomia, concurso de queijos, experiências culturais e muito mais para celebrar a força do queijo são-joanense. A programação inclui espetáculo teatral, workshops, shows, oficinas e concurso de queijo minas artesanal em parceria com a Emater. Outras atrações são a Vila do Queijo e a Feira da Mineiridade. 

Confira aqui a programação 

Celeiro no século XVIII

No século XVIII, a então Vila de São João del-Rei era o celeiro que abastecia de alimentos,  inclusive de queijos, toda a Capitania das Minas Gerais, assinala o historiador Antônio Gaio Sobrinho. "No início do século XIX, com a vinda da Corte Portuguesa para o Brasil, a Comarca do Rio das Mortes foi incumbida também de suprir de produtos da agricultura e da pecuária, sobretudo de toucinho, carnes e queijos, a cidade do Rio de Janeiro."

Para ele, certamente, esse foi o principal fator pelo qual a Vila de São João não sofreu, no seu desenvolvimento, os prejudiciais efeitos da decadência da mineração aurífera, como aconteceu com as demais vilas do ouro. "Entre 1810 e 1830, São João foi visitada por mais de uma dezena de viajantes e cronistas estrangeiros. Todos eles são concordes, em seus relatos de viagem, no elogiar a Vila por sua riqueza, sua beleza, seu progresso."

Alguns desses viajantes, "como Luccock, Saint-Hilaire, Spix e Martius e, mais tarde, também Richard Burton, ao enumerar a diversidade da produção econômica são-joanense, se referem ao queijo, como um de seus principais produtos de exportação. E Burton dizia que, por ocasião de sua visita, a produção de queijos era uma das que prosperavam, tendo sua exportação, em 1854, atingido 264 contos de réis para a economia local".

Spix & Martius, em 1818, diziam, sobre a enorme variedade de produtos alimentícios provindos das redondezas de São João del-Rei, "que se achavam, nas gargantas e no fundo dos vales, muitas fazendas espalhadas, que fornecem o necessário em milho, mandioca, feijão, laranjas, fumo, como também algum açúcar e algodão, muito gado vacum, porcos e, sobretudo, queijos".

Já no século XX, por volta de 1929, havia, na cidade, cinco depósitos de queijos que exportavam 217.207 kg do produto, entre os quais Messias & Mattar, prossegue Antônio Gaio. Dois anos depois, essa exportação já mais que dobrava, atingindo 531.293 kg de queijos. São João del-Rei tinha, então, uma população de 20 mil habitantes, na zona urbana, e 30 mil na zona rural, repartida em oito distritos.

"Os queijos vinham das fazendas e dos distritos vizinhos, transportados em canudos e jacás de taquaras de bambu, no lombo de burros, para os negociantes do ramo, os chamados atravessadores", detalha Antônio Gaio. "Daqui, a exportação se fazia, principalmente, pela estrada-de-ferro, sobretudo para as praças de São Paulo e do Rio de Janeiro, então capital federal da República. Naqueles tempos, anteriores às geladeiras e aos modernos processos de refrigeração do leite, fabricar queijo e manteiga era, na opinião de Ulisses Passarelli, o único jeito de conservar o excedente do leite produzido e consumido, pois, do contrário, o produto azedava, ao passo que o queijo, com o tempo, curava e podia ser longamente conservado."

No centenário

Por ocasião do centenário da cidade, em 1938, São João del-Rei ocupava o 4º lugar na produção estadual de queijos, relata Antônio. "Nesse ano, fundava-se aqui a indústria de manteiga e queijos Laticínios Vito Lombardi, que produzia vários tipos de queijos, como parmezão, cavalo, provolone, além de mozarela e ricota, e as manteigas Caruzo e Marconi. Para beneficiamento de leite, havia também a Proto Usina Mineira Sânitas, gerenciada por Mansur & El-Corab, que tinha, anexa, fábrica de queijo e requeijão."

Dez anos depois, a produção de leite alcançava 13.494.000 litros, no valor de Cr$ 10.795.200,00. Havia, no município, seis estabelecimentos industriais de fabricação de laticínios, cadastrados, entre eles Ferreira Filhos & Cia; Willer & Cia; e J. Mendes & Fiche, na Fazenda da Cachoeira. Por esse tempo, entre os maiores exportadores de queijos da cidade, ficaram famosos Vicente Tortamano e os  irmãos João e José Lobosque, com seus filhos, de acordo Geraldo Nascimento, citado por Antônio Gaio.

Em 1963, a produção de leite do município, de 14.185.800 litros, rendia Cr$ 354.645.000,00. Além de manteiga, fabricavam-se 132.184 kg de queijos, no valor de Cr$ 24.138.153,00. "Já então o município havia perdido os distritos de Cassiterita, Nazareno e Santa Rita", assinala o historiador.

Por essa época, a empresa Cacique Ltda tinha fábricas na sede municipal e nos distritos de Vitória e Emboabas, produzindo 20 toneladas mensais de ótimos queijos prato e minas. Já a fábrica de Geraldo Lucindo Sobrinho produzia, mensalmente, de 900 kg  de queijos minas, de excelente qualidade. E ainda havia a fábrica de manteiga e queijos Helianto, na rua Pe. Faustino.

São João dos Queijos

"Por toda essa rica história da produção artesanal e industrial, consumo e exportação de queijo, não admira que São João del-Rei, mais cedo ou mais tarde, ganhasse o apelido jocoso ou, talvez, pejorativo, de SÃO JOÃO DOS QUEIJOS. Isso teria ocorrido ainda na primeira metade do século passado e, certamente, devemo-lo aos habitantes de Barbacena, nossa principal concorrente política nos caminhos da história."

Assim, "os são-joanenses, além do velha alcunha de Sabiá com Farinha, acabaram, portanto, ganhando para sua cidade, mais esta de São João dos Queijos. O apelido, outrora depreciativo, pode, atualmente, converter-se num motivo de orgulho e adquirir um forte e vantajoso apelo para o desenvolvimento da produção de queijos. E São João del-Rei, que já é a capital de um punhado de coisas,  poderá se tornar também conhecida, nacional e internacionalmente, como a Capital Brasileira dos Queijos", conclui Antônio Gaio.

Fonte: São João del-Rei Transparente 

 

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