Lino perigoso, Comadre Maria e Compadre Antero
29 de Agosto de 2026, por Mário Márcio de Quadros 0
JURANDIR E ANTÔNIO
— Cê ficou sabendo, Antônio?
— Do quê, Criatura?
— Do Lino!
— Que Lino, Jurandir?!
— Do Lino Perigoso, uai!
— Sei não. Que tem ele?
— Como não sabe, Antônio?!
_ Sei dos acovardamentos do Lino. O povo aqui da roça sabe que o diacho do homem é cioso. E vévi acertando a mão na mulher dele. Novidade isso não é para ninguém.
_ Entonce!
_ Entonce, o quê?!
_ Agora foi pra valer.
_ Desembucha logo, Jurandir! Que história é essa?
_ Agora tem os home da polícia lá.
_ Lá aonde?! Na casa dele?! E por conta de quê?!
_ Por conta de que o bicho pegou!
_ Que bicho, Jurandir?! Destrava a língua, Criatura! Deixe de engasgo!
_ Sei de nada, não. Sei do que o povo anda acordando por aí.
__ A teia do cochicho, né? Jurandir!
— É acerto de contas! E foi na base do machado.
— Acerto de contas na base do machado, o quê, Jurandir?!
— Lino matou a Maria e o compadre Antero.
_ Deixe de prosa fiada, home!
_ Parece que é fato.
_ Cê viu e conferiu no branco do olho?!
_ Cê tá maluco, Antônio! Ocê acha que eu tenho estômago pra ver um trem desse?
_ E por que, no buchicho, você carrega certeza, Criatura?
_ Carrego não.
_ Entonce, não se meta a besta. Boca fechada não abriga formigueiro.
_ Ó! cê não quer acreditar, não credita.
_ Creditar no que, home?
_ Que o Lino...
_ Matou a Maria mais o compadre Antero a machadada?! Credito não!
_ E por que não?
_ Lino nunca partiu um graveto de lenha. O sujeito é frouxo. A Maria é o home da casa.
_ Que “home da casa” o quê, Antônio?!
_ A Maria vévi amoitada em casa, Jurandir. Do rancho para o roçado, do roçado para o rancho, feito bicho do mato.
_ É... E parece que nem muda de roupa dona Maria tinha de sobra.
_ Por conta da ciumeira do Lino Perigoso, Criatura.
_ Sei não! Pão-durice, mesmo.
_ Mas que prosa fiada é essa, Jurandir? Por que dona Maria do Lino não teria muda de roupa? Quem palavrou um trem desse, home?!
_ Tem quem palavrou não.
_ Uai! Se não tem complico, nem fuxico, cê tá inventando essa história.
_ Eu sou lá home de inventar história, Antônio!
_ Entonce, por que não tem quem atiçou palavra?
_ Porque andam arroteando por aí no silêncio da arenga.
_ Ah, tá! Andam arroteando e ocê trambeca, né?! Cê é home da roça, Criatura, mas não é bobo bocó.
_ Sou não.
_ Entonce, larga de asneira, home! E vá caçar apuro dessa bestagem.
BANICA E PERITO
_ Nem roupa decente a comadre Maria tinha de troca. Eu mais a Mafalda revirou a casa toda, e não achou nada; nem calcinha e sutiã que prestasse. Comadre Maria vivia aos molambos, no remendo dos trapos. O diacho do Lino nunca cuidou dela direito. Só fazia trepar, zurzir e encher a casa de filhos. Italiano avarento, cachaceiro, brigador e jogador de troco.
_ PERITO (anotando): ...
MAFALDA E BANICA
_ Foi com o olho do machado, Banica.
_ Que história é essa de “olho do machado”?!
_ Vai lá!
_ Lá aonde, Mafalda?
_ Na sala, uai. Na pedra do batente da porta.
_ E o que tem lá?
_ O corpo do compadre Antero.
_ Uai! O Lino, entonce, matou eles dois?
_ Matou. Socando a cabeça deles feito pilão, no olho do machado.
_ Jesus, toma conta!
_ No derramo dos corpos: osso, cabelo, sangue, mijo e bosta, tudo misturado chão afora.
_ E agora, o que a gente faz?
_ Não faz.
_ E por que, não?
_ Por conta da perícia, uai.
_ Ah, tá. É verdade.
_ Do Lino Perigoso... Alguém aqui oferece apontamento do paradeiro dele?
O POVO
_ Não.
_ Oferece não.
_ Lino vai comprar a lei.
_ Ah, vai!
_ E o Juiz também.
_ É do jogo!
_ O Lino é filho de gente crescida e graduada da Vila.
_ É. Gente graúda e metida a besta.
_ No de costume, quem tem banca: planta inimigo, arenga, digital e narrativa.
_ Verdade!
_ É fato.
MAFALDA E BANICA
_ Dizem que o compadre Antero mais a Maria estavam na cozinha tomando café, Banica.
_ Era de costume deles dois, mais o Lino. Compadre Antero todos os dias passava aqui no compadre Lino para trazer o leite das crianças. E no embalo tomava um golinho de café, proseava e comia um tareco de broa. Nada no demais; a não ser o embuste do povo.
_ Jesus, toma conta!
_ A mulher vévi sob vigia do alheio.
_ Não pode mijar fora do pinico.
_ E quem disse que a comadre Maria mijou?
_ A ignorância do Lino e a vileza do povo.
_ Entonce!
_ Entonce, o quê?!
_ Agora foi pra valer.
CONSIDERA. ESCUTA. BOTA REPARO, arquivo
29 de Julho de 2026, por Mário Márcio de Quadros 0
“Naquela hora, eu cismasse de perguntar a Diadorim:
_ ‘Tu não acha que todo o mundo é dôido?’”
Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, pág. 603
A Maria Fumaça, em memória.
Toda pessoa tem sua vivência; seus particulares; sua vidinha.
Trabalho em secretaria de escola, sei disso. Tem família de tudo quanto é jeito. Gente de todo tipo. Vê lá se vou meter meu dedo em vespeiro! E futricar a vida dos outros. Telefonar para os pais das crianças na horinha do almoço?! Arre! Não faço uma bestagem dessas não, sô.
Sou cordial e fina com as pessoas.
Quando elas vêm até a escola e apresentam a documentação estou disposta a atendê-las, com todo cuidado, deferência e presteza. Anoto nome, endereço, filiação, identidade, número de telefone, e-mail. Faço cópia do comprovante de residência; solicito foto ¾, e os originais dos documentos pessoais, atualizados. Acordo a transferência das crianças no ato da matrícula. Trato a distância, com protocolo e cerimônia, a comunidade escolar. Sou muito profissional. Não quero saber e nem dar notícia do alheio. Não espicho conversa. Não invento moda. É o preto no branco. Faço o que tem de ser feito: o serviço da secretaria. No mais, não sei de nada. Se hoje está quente? Não sei. Vai chover? Não dou notícia. Não sou repórter do tempo, não é mesmo?
Considera. Você acabou de acordar. Bafo de onça. Cabelo desgrenhado. Remela nos olhos. Camisola babada. Cheia de gases. Bexiga explodindo e... Ô de casa! gritam no portão. Pudera! Eu me finjo de morta. Não saio do lugar; não mexo dedo mindinho; não respiro; nem dou sinal de vida. Vê se pode!? Incomodar as pessoas no brotar do dia. É querer receber porta na cara, não é mesmo? E quer saber de uma coisa? Recebe. Porque eu não abro.
Escuta. Depois das dez da manhã não recebo ninguém aqui em casa. Cisma? Nonada. É rotina. Preciso tomar banho. Relaxar. Passar cremes, óleos pelo corpo, me arrumar. Meu marido e eu temos horários e compromissos que não são nossos. Nossos quefazeres são diligências profissionais. Então, depois das dez da manhã, nós não estamos para ninguém. Perdoem-nos. Trabalhamos muito. É o mal do século: o corre na escassez da prosa, o celular e a falta de tempo. Aqui em casa, todas as nossas obrigações são planejadas. Uma hora e meia é o que temos. Não mais que isso.
Bota reparo. Na hora do almoço toca a campainha. Ah! Não atendo. Não largo meu prato de comida, mas de jeito nenhum. Não dá. Hora da refeição é sagrada. E se insistir, fica plantado, mofando no portão. Fosse o Papa Francisco! Não agendou? Não convido para almoçar. Podem me chamar do que for. Não atendo. E quer saber? Quem paga minhas contas sou eu. E só eu sei onde o calo me aperta. É, ou, não é? E não tome minha atitude como desfeita ou pouco caso. O fato é que só tenho uma hora e meia. Não mais que isso. Por favor, não seja inconveniente. Não me apareça aqui em casa na horinha do almoço. Combinado!?
Todo mundo aqui do bairro sabe que tenho minhas obrigações, e que não recebo ninguém aqui em casa depois das dez da manhã. Inclusive já avisei ao carteiro que tenho só uma hora e meia para me arrumar. E que não receberia nem o Papa, depois da dez. Mas como esse povo do correio é danado de espaçoso; e não regula horário de entrega; dia desses, vi-me obrigada a soltar os cachorros nessa gente.
Esgoelei. Gritei feito alucinada. Desaforo! Vê se pode?! O moço da carta enfiou o dedo na campainha e não largou de apertar. Em tempo de fechar curto na rede elétrica aqui de casa. Ah! Eu virei o bicho. Rasguei o verbo. Desentalei o engasgo. Falei mal. Amaldiçoei. Roguei praga. Desacatei geração inteira dos correios. E disse, aos gritos, que depois das dez da manhã não receberia nem o Presidente da Instituição.
O quê? Você está se rindo de mim? Está achando que eu, Maria Fumaça, sou doida mesmo? Pois que ache. Sei que você pensa assim feito eu, mas não tem a coragem que tenho de assumir as coisas que digo aqui. Essa é a diferença entre nós. Toleima. Fica o dito pelo não dito. Depois não diga que não avisei. Aliás, já li, numa dessas revistas de Filosofia que o governo federal manda aqui para a escola, que “o inferno são os outros”. Foi um tal de Sartre, filósofo francês, quem disse isso. E não é que o homem tinha razão!
Êta diacho de “outro” para infernar a paciência da gente, sô! Não é mesmo?
Sinta-se em casa
01 de Julho de 2026, por Mário Márcio de Quadros 0
A Eliana Tolentino e a seus gatos.
Alimpo de lua. Noitidão fechada.
Valendo-se da escuridão da noite, Artur enfiou-se entre as frestas do muro da casa vizinha. Às escondidas, invadiu o prédio à procura de abrigo, cuidado e sustento. Confiante, não se fez de demandado; nem petição de acesso lavrou aos residentes. Com destreza, perambulou de mansinho no telheiro da casa. Lá do alto, avistou felinos por todo território: sala, copa, cozinha, lavanderia, lavabo, quartos e banheiros. Vapt-vupt! Artur saltou; do telheiro ao muro, do muro ao chão.
No piso bruto, ponderou: Que bichanos e humanos o acolhessem de braços abertos, pouco lhe valia. Ele apenas desejava matar quem o estava, a cada passo, matando.
Moscando-se pela casa, aquele gato sujo e fedido; invasor de becos, ruas e vielas da cidade; deparou-se com um lugar fresco, limpo e elegante à sua frente. Acostumado a encarar imundícies à procura de alimento, Artur viu-se diante de comedouros e potes de água potável na sala. No habitual, caçava pássaros, preás e serpentes. Bebia água cediça das poças; catava e furtava rações e ossos dos cachorros. Das criaturas da cidade, recolhia migalhas de comida, atiradas ao chão.
Aliás, as pessoas, no corre da metrópole, abandonavam os gatos. Eles eram invisíveis, invisibilizados e temidos pelo jornal do quotidiano. Porém, a vida dos felinos naquele casarão recebia conforto, modorra, luxo e afagos. Se aquele povo, trabalhadores da aflição, desprezava gatos em situação de rua, não lhe importava mais. Ele, Artur, não se envolveria com aquela gente; caso fosse acolhido pelos moradores da casa vizinha. Certeza da adoção?! Nenhuma. Intuição pura de um gato pobre, famélico e farroupilha.
De súbito, Artur deparou-se com Ariel, assim que entrou na sala, em direção à cozinha. Ariel, agastada e aos mios, explodiu em alerta:
– Invasor à vista!
Gata caseira, Ariel colocou-se em posição de defesa: olhos arregalados, cauda em riste, garras e dentes à mostra. Seu território estava sendo invadido pelo forasteiro e malcheiroso farrapo. Ariel não suportava o enxerimento e ousadia do abominável felino. Daí, manteve-se em posição de advocacia: ronronou, esfolou as patas no tapete da sala; fluiu a cabeça no travesseiro; entesou e rodopiou a cauda; encenou avanço. Em seguida, distendeu-se; abriu e fechou as ventas; relaxou. Daí, olhos de afago e bocejo, recrutou apoio de Capitu.
Capitu, naquele momento, estava de namoração e corte com Ziggy. Ziggy e ela se gostavam no demais; faz tempo, e muito. Se aquele gato magricela, fedido e sujo queria apenas um prato de comida, que comesse, se fartasse, e para sempre, no distante, fosse embora. Desde que não brandisse estandarte aos olhos de Capitu, resolvido. Do contrário, o estrapilha iria sentir que altura e força contavam com presas e molares guerreiros. Mas Ziggy era da paz. Estava no feliz. Não se daria ao trabalho de sair do paraíso. Daí, convocou o apoio de Bernadet.
Jean-Claude Bernadet entrou em cena. Observou Artur, sem julgamentos: “Gato famulento, magricela, malcheiroso e lambuzo; astuto, afetivo e encantador. Um verdadeiro protagonista; em tutano, pelos e ossos. Perfeito!”
Tudo o que Bernadet precisava para dar sequência à sua história em defesa dos gatos em situação de rua. Ali, no repentino, em presença do protagonista, Jean-Claude reverenciou a vida que imita a arte, assombrosamente. E convidou sua irmã, Gal Costa, a recepcionar o mais novo membro da gataria.
Gal Costa, saboreando sachê de ração na cozinha, espichou lentamente o focinho. No distante do olhar, analisou. De esguelha, sopesou o invasor: lambuzo e delicado demais. Abancou e desfez a corte. De lá mesmo, da cozinha, espichada na passadeira, Gal cumprimentou o famulento Artur.
Conceição e Florbela, a exemplo da Gal Costa, também não se deram ao trabalho de acolher aquele felino, sujo, magricela e fedido, que não lavrou acesso aos residentes.
A partir daí, sem avesso e aversão declarada dos moradores, Artur caminhou em direção ao comedouro. Envergonhado, fartou-se na moderação.
Que bichanos e humanos o acolhessem de braços abertos, pouco lhe valia. Artur apenas desejava matar quem o estava, a cada passo, matando: a fome.
Um menino imaginoso e boboca, contador de prosa e fazedor de poesia
27 de Maio de 2026, por Mário Márcio de Quadros 0
Nasci e fui criado na cidade de São João del-Rei, Minas Gerais. Mas papai me batizou no Município de Tiradentes. Ele e o Cônego da Paróquia do Matozinhos, Jacinto Lovatto Filho, não se bicavam. Nunca me disseram a razão da pendenga deles dois. Mas essa foi a história que mamãe me contou, quando perguntei a ela o porquê de não ter sido batizado no Município onde nasci. Sempre quis saber o exato motivo de ter sido plantado na cidade vizinha. Mas a explicação abrigava fervura e desconforto. Porque, sim! “Seu pai e o padre não se suportam. Não se fala mais nisso. Pronto, acabou. Assunto encerrado. Ponto final”. Nunca aceitei essa explicação que não desembrulhava nada. E por que não podia “falar mais nisso, pronto, acabou e ponto final”?!
Dizem que sempre fui uma criança perguntadeira. E gostava de ouvir histórias de animais falantes, narradas por Geraldo Corneteiro, meu avô, pai da mamãe. No prosear do povo lá de casa, desde criança fui um menino imaginoso e inteligente, mas boboca, também. Não me conformava com o melódico: “e foram felizes para sempre...”, ao final das fábulas. Contestava, de pronto: “Ninguém é feliz para sempre, vovô!” Na minha opinião, as parábolas não podiam fazer pouco da inteligência dos menino; e o fantástico das narrativas precisava ter abrigo na lavoura plantada em riba do chão. Hoje sei o porquê do meu desapontamento com algumas histórias. Mas à época, dizia que não gostava dessa ou daquela porque não entrava na minha cabeça de menino paleio. Até concordava com a moral delas todas; mas achava descabida a trama tecida para se chegar até ela. Histórias cerzidas em linhas tortas e frouxas por demais; sobretudo para o gosto de um menino boboca, tagarela e imaginoso, feito eu.
Talvez por ser mesmo boboca, discordasse do fato de o Coelho ter perdido a corrida para a Tartaruga. Achava aquilo um absurdo sem tamanho de medida. A Tartaruga, morosa, songa e sonolenta, não venceria uma competição contra o Coelho. Quando, ao final da história, vovô me perguntava se tinha gostado da fábula; sentenciava: “mais ou menos...” E no abreviado da prosa, rebatia: “O Coelho jamais perderia a corrida para a Tartaruga, vovô!” Hoje, sei o porquê da minha insatisfação na palestra do “mais ou menos”. Gostava da fábula sim, mas discordava dos argumentos e alinhavos da narrativa.
Então, quando recontava essa história do Coelho e da Tartaruga para meus irmãos mais novos, me recusava a dizer a eles que o Coelho, “certo de que venceria a corrida, havia dormido a um passo da chegada”. Dizia que, ao contrário da Tartaruga, o coelho era um animal astuto, ativo e ligeiro; mas corria sem observar as tranqueiras do caminho. Daí, devido ao distraimento e excesso de certeza, deu uma topada forte no espinheiro. E viu-se, por conta do acaso, seriamente impedido de seguir jornada na competição. Desse modo, dona Tartaruga, que ao contrário do Coelho, media água e fogo, tempero e fubá, cumpriu o percurso antes dele. Dona Tartaruga andava na lerdeza das pernas dela, é verdade; mas estava determinada a seguir, sempre em frente. Conhecedora de suas limitações físicas, caminhava firme no piso bruto, socado e liso do chão. Deste modo, no uso da inteligência e da observação atenta do caminho, dona Tartaruga venceu a corrida.
Moral da história: Devagar [prestando atenção nas dificuldades do caminho] se vai longe...
Meu primeiro contato com a palavra foi verbal. Costumo dizer que nasci cercado de livros e rodeado de histórias. Embora discordasse dos alinhavos das tramas, adorava ouvir narrativas contadas pelo povo lá de casa. Fábulas guardadas nos livros; mas que no reconto dos adultos, vestiam e calçavam o jeitão simples e sincero do povo do interiorzão mineiro. Ao contrário dos meus irmãos, eu não dormia; passava noite inteira acordado; no confuso do sono que se perdia de mim; e eu, dele. Queria histórias, ao infinito. Em todas, colocava-me no silêncio das palavras; e avoava imaginoso; ideando personagens, comédias, adivinhas e dramas. Gostava de recontar do meu jeito. Mentira! No jeito da mamãe: “no avesso do reverso do rimado do verso”, como ela dizia, antes da contação de histórias.
E por conta do “reverso do verso”, costumava desfazer e recompor toda história que não acordasse potocas do Coquinho. Menino interrogador, fabulador de prosa e fazedor de poesia.
A partir de hoje, proponho a você, querido leitor e estimada leitora, um pequeno desafio: me conta, que eu reconto sua história. De preferência, histórias e causos de Resende Costa, do passado e do presente. Causos e contos dos vivos de hoje; e dos de ontem também, no distante. Que tributo você prestaria a seus ancestrais ou à comunidade resende-costense nesta coluna do Jornal?
Entre um lamento e outro, toda pessoa acredita que sua vida daria um livro. Será que a sua daria uma crônica aqui nesta coluna do Jornal das Lajes?
Coquinho e eu aceitamos o desafio. E você, topa nos desafiar?
me conta, que eu reconto.