Nasci e fui criado na cidade de São João del-Rei, Minas Gerais. Mas papai me batizou no Município de Tiradentes. Ele e o Cônego da Paróquia do Matozinhos, Jacinto Lovatto Filho, não se bicavam. Nunca me disseram a razão da pendenga deles dois. Mas essa foi a história que mamãe me contou, quando perguntei a ela o porquê de não ter sido batizado no Município onde nasci. Sempre quis saber o exato motivo de ter sido plantado na cidade vizinha. Mas a explicação abrigava fervura e desconforto. Porque, sim! “Seu pai e o padre não se suportam. Não se fala mais nisso. Pronto, acabou. Assunto encerrado. Ponto final”. Nunca aceitei essa explicação que não desembrulhava nada. E por que não podia “falar mais nisso, pronto, acabou e ponto final”?!
Dizem que sempre fui uma criança perguntadeira. E gostava de ouvir histórias de animais falantes, narradas por Geraldo Corneteiro, meu avô, pai da mamãe. No prosear do povo lá de casa, desde criança fui um menino imaginoso e inteligente, mas boboca, também. Não me conformava com o melódico: “e foram felizes para sempre...”, ao final das fábulas. Contestava, de pronto: “Ninguém é feliz para sempre, vovô!” Na minha opinião, as parábolas não podiam fazer pouco da inteligência dos menino; e o fantástico das narrativas precisava ter abrigo na lavoura plantada em riba do chão. Hoje sei o porquê do meu desapontamento com algumas histórias. Mas à época, dizia que não gostava dessa ou daquela porque não entrava na minha cabeça de menino paleio. Até concordava com a moral delas todas; mas achava descabida a trama tecida para se chegar até ela. Histórias cerzidas em linhas tortas e frouxas por demais; sobretudo para o gosto de um menino boboca, tagarela e imaginoso, feito eu.
Talvez por ser mesmo boboca, discordasse do fato de o Coelho ter perdido a corrida para a Tartaruga. Achava aquilo um absurdo sem tamanho de medida. A Tartaruga, morosa, songa e sonolenta, não venceria uma competição contra o Coelho. Quando, ao final da história, vovô me perguntava se tinha gostado da fábula; sentenciava: “mais ou menos...” E no abreviado da prosa, rebatia: “O Coelho jamais perderia a corrida para a Tartaruga, vovô!” Hoje, sei o porquê da minha insatisfação na palestra do “mais ou menos”. Gostava da fábula sim, mas discordava dos argumentos e alinhavos da narrativa.
Então, quando recontava essa história do Coelho e da Tartaruga para meus irmãos mais novos, me recusava a dizer a eles que o Coelho, “certo de que venceria a corrida, havia dormido a um passo da chegada”. Dizia que, ao contrário da Tartaruga, o coelho era um animal astuto, ativo e ligeiro; mas corria sem observar as tranqueiras do caminho. Daí, devido ao distraimento e excesso de certeza, deu uma topada forte no espinheiro. E viu-se, por conta do acaso, seriamente impedido de seguir jornada na competição. Desse modo, dona Tartaruga, que ao contrário do Coelho, media água e fogo, tempero e fubá, cumpriu o percurso antes dele. Dona Tartaruga andava na lerdeza das pernas dela, é verdade; mas estava determinada a seguir, sempre em frente. Conhecedora de suas limitações físicas, caminhava firme no piso bruto, socado e liso do chão. Deste modo, no uso da inteligência e da observação atenta do caminho, dona Tartaruga venceu a corrida.
Moral da história: Devagar [prestando atenção nas dificuldades do caminho] se vai longe...
Meu primeiro contato com a palavra foi verbal. Costumo dizer que nasci cercado de livros e rodeado de histórias. Embora discordasse dos alinhavos das tramas, adorava ouvir narrativas contadas pelo povo lá de casa. Fábulas guardadas nos livros; mas que no reconto dos adultos, vestiam e calçavam o jeitão simples e sincero do povo do interiorzão mineiro. Ao contrário dos meus irmãos, eu não dormia; passava noite inteira acordado; no confuso do sono que se perdia de mim; e eu, dele. Queria histórias, ao infinito. Em todas, colocava-me no silêncio das palavras; e avoava imaginoso; ideando personagens, comédias, adivinhas e dramas. Gostava de recontar do meu jeito. Mentira! No jeito da mamãe: “no avesso do reverso do rimado do verso”, como ela dizia, antes da contação de histórias.
E por conta do “reverso do verso”, costumava desfazer e recompor toda história que não acordasse potocas do Coquinho. Menino interrogador, fabulador de prosa e fazedor de poesia.
A partir de hoje, proponho a você, querido leitor e estimada leitora, um pequeno desafio: me conta, que eu reconto sua história. De preferência, histórias e causos de Resende Costa, do passado e do presente. Causos e contos dos vivos de hoje; e dos de ontem também, no distante. Que tributo você prestaria a seus ancestrais ou à comunidade resende-costense nesta coluna do Jornal?
Entre um lamento e outro, toda pessoa acredita que sua vida daria um livro. Será que a sua daria uma crônica aqui nesta coluna do Jornal das Lajes?
Coquinho e eu aceitamos o desafio. E você, topa nos desafiar?
me conta, que eu reconto.