O fascismo e sua crença
01 de Julho de 2026, por José Mauricio de Carvalho 0
O historiador Yuval Noah Harari entrou em assuntos polêmicos em 21 lições para o século 21. Por exemplo, refletindo sobre as razões de os homens manterem crenças como as religiosas, ele atribuiu o fato ao cérebro humano fazer arranjos estranhos, que mais se parecem a dissonância cognitiva. Por exemplo, comentando a conduta dos conservadores americanos filiados ao partido Republicano, armamentista e contrário a políticas sociais, ele observou a mais completa incoerência com os ensinamentos de Jesus de Nazaré. Ele mostrou que, ao contrário do que esses conservadores cristãos, a mensagem de Jesus foi noutra direção (id., p. 337): “Jesus não foi mais incisivo quanto a ajudar os pobres do que quanto a armar você até os dentes.” Os ensinamentos de Jesus foram exatamente o contrário do que praticam aqueles grupos. A mesma incoerência, ele avaliou, aparece no muçulmano que quer vingar o companheiro de fé morto em conflito quando ensina que, morrendo nessa luta, ele vai direto para o Paraíso. Não faz sentido, ele ridiculariza a conduta de terroristas que querem vingar um irmão de fé que foi levado ao Paraíso justo por esse motivo. Por que alguém vingaria alguém querido porque ele foi conduzido ao Paraíso? O cérebro humano permite as incoerências construindo mais de uma identidade, melhor seria dizer, vivendo papéis diferentes na vida ou em momentos dela. A pregação de fé nada tem a ver com a prática terrorista que alimentam. Temos aqui uma crítica muito dura à forma como vivem as pessoas de fé.
Se a crítica à religião parece limitada por sua visão simplificadora, como comentaremos a seguir, a sua crítica ao fascismo parece bem exata. Para não deixar o termo vago e com definição superficial, ele explicou o que denomina fascismo. Trata-se da absolutização de uma narrativa ruim. O fascismo corrompeu o nacionalismo porque não considera o amor e respeito à sua nação como um valor entre outros. Um governo fascista diz que (id., p. 358): “minha nação é suprema e devo a ela obrigações exclusivas.” E isso leva seus seguidores a fazer absurdos (ibidem): “se minha nação exigir que eu mate milhões de pessoas – devo matar milhões de pessoas.” E ainda tão mal quanto isso (ibidem): “se minha nação exigir que eu traia a verdade e a beleza – devo trair a verdade e a beleza.” O que importa é servir à nação, o resto não tem relevância. Uma tal crença prospera em momentos de crise social porque, como ele observou (id., p. 359): “simplifica muito os dilemas difíceis e também porque faz as pessoas pensarem que pertencem à coisa mais importante e mais bela do mundo – a sua nação.”
Como observamos, quando se aplica esse raciocínio às religiões comete-se equívocos. O grande problema por trás de crenças, ele avaliou, é sua absolutização. E há uma crença que lhe parece ruim por excelência, a crença em algo absoluto, pois ela vai produzir algum problema. Ele afirmou que a crença absoluta tem muitos objetos possíveis, mas todas causam as mesmas dificuldades (id., p. 371): “a essência eterna às vezes é chamada de Deus, às vezes de nação, às vezes de alma, às vezes de eu autêntico e às vezes de amor verdadeiro.” Para contraditar esse pensamento, ele recordou Buda e defendeu que as pessoas não precisam de um sentido e que tudo passa e nada permanece.
Quando mencionamos acima que essa estimativa da religião é superficial, foi porque Harari comparou práticas antigas a formas atuais de lidar com o sagrado. E mais, ele desconsiderou o papel da religião na vida cultural de uma sociedade, e igualmente desconheceu o florescimento pessoal que ela propicia a seus seguidores, nem considerou como ela contribui para o desenvolvimento humano. Pior ainda é quando ele atribui à religião a maldade das pessoas (HARARI, 2018, p. 173): “outras tradições religiosas enchem o mundo de muita feiura e fazem as pessoas serem más e cruéis.” O que torna alguém ruim é o fanatismo na ignorância, não a prática de uma religião com o propósito de se aproximar de Deus e cujas práticas não se afastam da excelência moral.
Dialogando com os tempos líquidos
27 de Maio de 2026, por José Mauricio de Carvalho 0
Uma das dificuldades de boa parte das pessoas é entender as mudanças de nosso tempo e conseguir se posicionar frente a elas. Não é preciso acolher o que está chegando e que vemos parcialmente, mas é preciso saber o que já vemos e como estamos.
Um dos aspectos desse mundo atual é que é uma sociedade de massa, o que não é novidade. O filósofo espanhol José Ortega y Gasset já disse isso, em 1930, no clássico A rebelião das massas. Porém, nosso tempo apresenta massas distintas das que ele viu, e que vivem um hedonismo ansioso. Nem só hedonismo como na antiga Grécia, mas ansioso, o que é uma novidade histórica. E o que diz esse novo hedonismo? O clima é esse: sente a vida vazia? Consuma! Está triste? Consuma! Está frustrado? Consuma! O reflexo consumista é melancólico e identifica o desafio existencial, os medos da alma, a finitude e os reduz a sentir vazio, frio, deprimido. O remédio para tudo é o consumo e o prazer ou a necessidade de encher o íntimo de coisas quentes, ricas e prazerosas. Claro que as indicações de consumo são amplas, não se limitam a alimento (pode ser roupa, passeio, distração em geral, sexo irresponsável, relações efêmeras são ótimas, tudo o que apenas distrai, dá prazer, mas não cria vínculo). O resultado dessa vida é a depressão, o receio, a insegurança, uso de drogas, ou ainda um conservadorismo anacrônico que procura voltar a costumes e antigos padrões existenciais que não respondem mais aos novos desafios que a vida coloca. Um conservadorismo que passa uma sensação de falsa segurança num mundo em que tudo muda e nada está assegurado.
Vemos crescer os amores líquidos, relações afetivas sem consistência, vida sem compromisso e sem sentido onde prevalece a tristeza, infelicidade, nervosismo, insônia, violência, drogadicção, como descreveu o psiquiatra Viktor Frankl. O simples atendimento do desejo não resolve a questão existencial, o desejo quer gozar, apenas isso. Assim cada desejo satisfeito acende outro numa aspiral crescente e acelerada, alimentando a ansiedade e, no fundo, a insatisfação com a vida se a tanto ela se limita.
Em meio a tantas mudanças, há múltiplas tradições que também ajudam a rearticular um conservadorismo que poderia ser assim resumido (BAUMAN e MAURO, Babel, entre a incerteza e a esperança 2016, p. 140): “o sentido próprio de uma tradição implica exatamente essa qualidade institucional inerente: o reconhecimento de que não há nada que as pessoas vivas possam fazer para mudar as instituições herdadas.” Quebrar esse legado não ocorreria sem a emergência de todo tipo de desastre, resultantes da punição divina ou da natureza, mas que não combinam com o mundo das mudanças. Essa percepção difusa alimenta um discurso conservador que quer preservar a liberdade do capital e lucrar sem limite, deixando de lado qualquer preocupação social. É essa a liberdade da moda.
Quanto ao discurso político, os teóricos da ultradireita em moda rotulam como comunista qualquer proposta de sociedade menos desigual e mais fraterna, descomprometidos que estão das preocupações sociais do Estado e com o destino dos mais pobres. O assunto é complexo e envolve outras variáveis. Esses grupos baniram o humanismo do espaço cultural e deram as costas para as questões ambientais, a racionalidade, o pensamento crítico e criticam a própria ciência quando contraria seus interesses. Aqui há um conservadorismo radical e razões ideológicas sérias que alimentam esses movimentos. A ultradireita atual não tem (id., p. 55): “história, tradição, paixão, valores e ideais, que é precisamente o que faz as bandeiras triunfarem.” Porém, nesse novo mundo das redes sociais, parece não haver vento para fazer essas bandeiras tremularem, significando que viramos as costas para os mais caros valores ocidentais desenvolvidos há um milênio. Apesar do momento difícil para ideais humanitários, precisamos defender esses valores que constituem a coluna vertebral do ocidente, sem que isso signifique uma simples volta aos referentes morais de 200 anos atrás, como quer o conservadorismo religioso, pois eram outros os problemas.