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Sinta-se em casa

01 de Julho de 2026, por Mário Márcio de Quadros

A Eliana Tolentino e a seus gatos. 

Alimpo de lua. Noitidão fechada.

Valendo-se da escuridão da noite, Artur enfiou-se entre as frestas do muro da casa vizinha. Às escondidas, invadiu o prédio à procura de abrigo, cuidado e sustento. Confiante, não se fez de demandado; nem petição de acesso lavrou aos residentes. Com destreza, perambulou de mansinho no telheiro da casa. Lá do alto, avistou felinos por todo território: sala, copa, cozinha, lavanderia, lavabo, quartos e banheiros. Vapt-vupt! Artur saltou; do telheiro ao muro, do muro ao chão.

No piso bruto, ponderou: Que bichanos e humanos o acolhessem de braços abertos, pouco lhe valia. Ele apenas desejava matar quem o estava, a cada passo, matando.  

Moscando-se pela casa, aquele gato sujo e fedido; invasor de becos, ruas e vielas da cidade; deparou-se com um lugar fresco, limpo e elegante à sua frente. Acostumado a encarar imundícies à procura de alimento, Artur viu-se diante de comedouros e potes de água potável na sala. No habitual, caçava pássaros, preás e serpentes. Bebia água cediça das poças; catava e furtava rações e ossos dos cachorros. Das criaturas da cidade, recolhia migalhas de comida, atiradas ao chão.

Aliás, as pessoas, no corre da metrópole, abandonavam os gatos. Eles eram invisíveis, invisibilizados e temidos pelo jornal do quotidiano. Porém, a vida dos felinos naquele casarão recebia conforto, modorra, luxo e afagos. Se aquele povo, trabalhadores da aflição, desprezava gatos em situação de rua, não lhe importava mais. Ele, Artur, não se envolveria com aquela gente; caso fosse acolhido pelos moradores da casa vizinha. Certeza da adoção?! Nenhuma. Intuição pura de um gato pobre, famélico e farroupilha.

De súbito, Artur deparou-se com Ariel, assim que entrou na sala, em direção à cozinha. Ariel, agastada e aos mios, explodiu em alerta:

Invasor à vista!

Gata caseira, Ariel colocou-se em posição de defesa: olhos arregalados, cauda em riste, garras e dentes à mostra. Seu território estava sendo invadido pelo forasteiro e malcheiroso farrapo. Ariel não suportava o enxerimento e ousadia do abominável felino. Daí, manteve-se em posição de advocacia: ronronou, esfolou as patas no tapete da sala; fluiu a cabeça no travesseiro; entesou e rodopiou a cauda; encenou avanço. Em seguida, distendeu-se; abriu e fechou as ventas; relaxou. Daí, olhos de afago e bocejo, recrutou apoio de Capitu.

Capitu, naquele momento, estava de namoração e corte com Ziggy. Ziggy e ela se gostavam no demais; faz tempo, e muito. Se aquele gato magricela, fedido e sujo queria apenas um prato de comida, que comesse, se fartasse, e para sempre, no distante, fosse embora. Desde que não brandisse estandarte aos olhos de Capitu, resolvido. Do contrário, o estrapilha iria sentir que altura e força contavam com presas e molares guerreiros. Mas Ziggy era da paz. Estava no feliz. Não se daria ao trabalho de sair do paraíso. Daí, convocou o apoio de Bernadet.

Jean-Claude Bernadet entrou em cena. Observou Artur, sem julgamentos: “Gato famulento, magricela, malcheiroso e lambuzo; astuto, afetivo e encantador. Um verdadeiro protagonista; em tutano, pelos e ossos. Perfeito!”

Tudo o que Bernadet precisava para dar sequência à sua história em defesa dos gatos em situação de rua. Ali, no repentino, em presença do protagonista, Jean-Claude reverenciou a vida que imita a arte, assombrosamente. E convidou sua irmã, Gal Costa, a recepcionar o mais novo membro da gataria.

Gal Costa, saboreando sachê de ração na cozinha, espichou lentamente o focinho. No distante do olhar, analisou. De esguelha, sopesou o invasor: lambuzo e delicado demais. Abancou e desfez a corte. De lá mesmo, da cozinha, espichada na passadeira, Gal cumprimentou o famulento Artur.

Conceição e Florbela, a exemplo da Gal Costa, também não se deram ao trabalho de acolher aquele felino, sujo, magricela e fedido, que não lavrou acesso aos residentes.

A partir daí, sem avesso e aversão declarada dos moradores, Artur caminhou em direção ao comedouro. Envergonhado, fartou-se na moderação.

Que bichanos e humanos o acolhessem de braços abertos, pouco lhe valia. Artur apenas desejava matar quem o estava, a cada passo, matando: a fome.  

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