JURANDIR E ANTÔNIO
— Cê ficou sabendo, Antônio?
— Do quê, Criatura?
— Do Lino!
— Que Lino, Jurandir?!
— Do Lino Perigoso, uai!
— Sei não. Que tem ele?
— Como não sabe, Antônio?!
_ Sei dos acovardamentos do Lino. O povo aqui da roça sabe que o diacho do homem é cioso. E vévi acertando a mão na mulher dele. Novidade isso não é para ninguém.
_ Entonce!
_ Entonce, o quê?!
_ Agora foi pra valer.
_ Desembucha logo, Jurandir! Que história é essa?
_ Agora tem os home da polícia lá.
_ Lá aonde?! Na casa dele?! E por conta de quê?!
_ Por conta de que o bicho pegou!
_ Que bicho, Jurandir?! Destrava a língua, Criatura! Deixe de engasgo!
_ Sei de nada, não. Sei do que o povo anda acordando por aí.
__ A teia do cochicho, né? Jurandir!
— É acerto de contas! E foi na base do machado.
— Acerto de contas na base do machado, o quê, Jurandir?!
— Lino matou a Maria e o compadre Antero.
_ Deixe de prosa fiada, home!
_ Parece que é fato.
_ Cê viu e conferiu no branco do olho?!
_ Cê tá maluco, Antônio! Ocê acha que eu tenho estômago pra ver um trem desse?
_ E por que, no buchicho, você carrega certeza, Criatura?
_ Carrego não.
_ Entonce, não se meta a besta. Boca fechada não abriga formigueiro.
_ Ó! cê não quer acreditar, não credita.
_ Creditar no que, home?
_ Que o Lino...
_ Matou a Maria mais o compadre Antero a machadada?! Credito não!
_ E por que não?
_ Lino nunca partiu um graveto de lenha. O sujeito é frouxo. A Maria é o home da casa.
_ Que “home da casa” o quê, Antônio?!
_ A Maria vévi amoitada em casa, Jurandir. Do rancho para o roçado, do roçado para o rancho, feito bicho do mato.
_ É... E parece que nem muda de roupa dona Maria tinha de sobra.
_ Por conta da ciumeira do Lino Perigoso, Criatura.
_ Sei não! Pão-durice, mesmo.
_ Mas que prosa fiada é essa, Jurandir? Por que dona Maria do Lino não teria muda de roupa? Quem palavrou um trem desse, home?!
_ Tem quem palavrou não.
_ Uai! Se não tem complico, nem fuxico, cê tá inventando essa história.
_ Eu sou lá home de inventar história, Antônio!
_ Entonce, por que não tem quem atiçou palavra?
_ Porque andam arroteando por aí no silêncio da arenga.
_ Ah, tá! Andam arroteando e ocê trambeca, né?! Cê é home da roça, Criatura, mas não é bobo bocó.
_ Sou não.
_ Entonce, larga de asneira, home! E vá caçar apuro dessa bestagem.
BANICA E PERITO
_ Nem roupa decente a comadre Maria tinha de troca. Eu mais a Mafalda revirou a casa toda, e não achou nada; nem calcinha e sutiã que prestasse. Comadre Maria vivia aos molambos, no remendo dos trapos. O diacho do Lino nunca cuidou dela direito. Só fazia trepar, zurzir e encher a casa de filhos. Italiano avarento, cachaceiro, brigador e jogador de troco.
_ PERITO (anotando): ...
MAFALDA E BANICA
_ Foi com o olho do machado, Banica.
_ Que história é essa de “olho do machado”?!
_ Vai lá!
_ Lá aonde, Mafalda?
_ Na sala, uai. Na pedra do batente da porta.
_ E o que tem lá?
_ O corpo do compadre Antero.
_ Uai! O Lino, entonce, matou eles dois?
_ Matou. Socando a cabeça deles feito pilão, no olho do machado.
_ Jesus, toma conta!
_ No derramo dos corpos: osso, cabelo, sangue, mijo e bosta, tudo misturado chão afora.
_ E agora, o que a gente faz?
_ Não faz.
_ E por que, não?
_ Por conta da perícia, uai.
_ Ah, tá. É verdade.
_ Do Lino Perigoso... Alguém aqui oferece apontamento do paradeiro dele?
O POVO
_ Não.
_ Oferece não.
_ Lino vai comprar a lei.
_ Ah, vai!
_ E o Juiz também.
_ É do jogo!
_ O Lino é filho de gente crescida e graduada da Vila.
_ É. Gente graúda e metida a besta.
_ No de costume, quem tem banca: planta inimigo, arenga, digital e narrativa.
_ Verdade!
_ É fato.
MAFALDA E BANICA
_ Dizem que o compadre Antero mais a Maria estavam na cozinha tomando café, Banica.
_ Era de costume deles dois, mais o Lino. Compadre Antero todos os dias passava aqui no compadre Lino para trazer o leite das crianças. E no embalo tomava um golinho de café, proseava e comia um tareco de broa. Nada no demais; a não ser o embuste do povo.
_ Jesus, toma conta!
_ A mulher vévi sob vigia do alheio.
_ Não pode mijar fora do pinico.
_ E quem disse que a comadre Maria mijou?
_ A ignorância do Lino e a vileza do povo.
_ Entonce!
_ Entonce, o quê?!
_ Agora foi pra valer.