Ritápolis: história de perdas e ganhos no Santuário de Santa Rita de Cássia


Cidades

José Venâncio de Resende0

Parte do forro recuperada (foto extraída do Facebook)

A mídia estadual e regional divulgou, recentemente, a recuperação de fragmentos do antigo forro da capela-mor do Santuário Diocesano de Santa Rita de Cássia, do município mineiro de Ritápolis, a cerca de 19 km de São João del-Rei. O antigo forro, obra do artista José Joaquim da Natividade (o Mestre Natividade), executada por volta do ano de 1800, foi retirado e vendido na década de 1970.

Mas essa história tem outros desdobramentos. O artista são-joanense Carlos Magno Araújo identificou e restaurou a imagem de Santa Rita, padroeira de Ritápolis, que havia sido roubada em 1998, junto com outras três imagens do santuário. Duas das imagens desaparecidas, uma delas a de Santa Rita, foram recuperadas em Campinas (SP), por meio de uma operação da Polícia Civil de Minas Gerais, e devolvidas ao santuário.

Por conta desse trabalho, há cerca de 18 a 20 anos, o então pároco de Ritápolis, padre Antônio Carlos Trindade da Silva, convidou Carlos Magno para restaurar o altar-mor. “O altar estava totalmente repintado, de branco com purpurina, e resgatamos a policromia original, onde se revelou o trabalho do Natividade. Na ocasião, já não existia o forro antigo. Existia apenas o forro liso, novo, pintado de branco.”  

No início da pandemia da Covid-19, o então pároco de Ritápolis, padre Adriano Tércio Melo de Oliveira, sondou Carlos Magno para fazer uma nova pintura no forro da capela-mor “porque as pessoas lamentavam muito a perda da pintura que existia lá no passado. Eu não sabia que havia tantos anos que esse forro tinha desaparecido, mas, pelas informações mais recentes, há quase cinco décadas”, diz o artista.

Carlos Magno conseguiu “algumas fotos muito ruins do forro, que eram monóculos que as pessoas tinham de casamentos, que continham trechos do forro. Eu não tinha dúvidas que aquilo era Natividade. Pela construção da trama, dava para ver que era um forro policromado pelo Natividade. Mas não tínhamos foto dele inteiro”.

Então, Carlos Magno fez um projeto “inspirado em outros forros do Natividade aqui da região e nas fotos que estavam na minha mão”. Ele apresentou o projeto ao padre Adriano, que levou ao Conselho [Municipal do Patrimônio Cultural], “e eles toparam fazer a pintura nova, que seria uma releitura do que existia no passado”.

O trabalho foi realizado com recursos da própria paróquia e da prefeitura municipal, conta Carlos Magno. “O forro foi entregue e, de certa forma, ele recompôs o conjunto da capela-mor.” 

 

De volta a casa

Em abril deste ano, foram localizados, em uma feira tradicional de antiguidades, em São Paulo, dois painéis (de Santo Agostinho e de São Gerônimo). Havia a suspeita de que poderiam ser recortes da pintura do forro do Santuário de Santa Rita de Cássia. Com base em fotos antigas, identificou-se a veracidade dos fragmentos da pintura do forro da igreja de Ritápolis e a Polícia Federal recuperou os dois painéis, que retornaram à paróquia no dia 16 de julho.

Tudo indica que o forro, que fora vendido por um padre, foi todo retalhado. O comprador fragmentou o forro e deve ter vendido os trechos em melhores condições, enquanto outras partes devem ter sido destruídas. Assim, devem existir outros fragmentos desse forro, outros trechos, outros santos, como o medalhão central e os outros dois doutores da Igreja, espalhados por aí. 

“Não existem condições de se recuperar o forro inteiro, eu acho impossível”, lamenta Carlos Magno. “Tentar colocar só esses dois painéis no forro vai ficar horrível. É melhor usar os dois painéis como lembrança do forro que existiu, da importância da obra de Natividade dentro dessa igreja e manter a releitura no teto, que tem data e é uma harmonização da capela-mor. E eu acredito que isso vai ficar para a história.”   

  Este é um momento de grande significado para a nossa comunidade, manifestaram-se representantes da paróquia no Facebook, com o retorno de fragmentos do antigo forro com as telas originais. “Mais do que obras de arte, essas peças carregam a memória, a fé e a identidade de gerações que aqui rezaram e construíram a história de nossa comunidade.”

“Esse reencontro com a história foi possível graças a um cuidadoso trabalho de pesquisa realizado por fiéis e pesquisadores, cuja dedicação contribuiu para identificar e recuperar parte desse precioso patrimônio religioso e cultural.” A esperança dos paroquianos de Ritápolis é de que outras peças retornem à casa.

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