“Naquela hora, eu cismasse de perguntar a Diadorim:
_ ‘Tu não acha que todo o mundo é dôido?’”
Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, pág. 603
A Maria Fumaça, em memória.
Toda pessoa tem sua vivência; seus particulares; sua vidinha.
Trabalho em secretaria de escola, sei disso. Tem família de tudo quanto é jeito. Gente de todo tipo. Vê lá se vou meter meu dedo em vespeiro! E futricar a vida dos outros. Telefonar para os pais das crianças na horinha do almoço?! Arre! Não faço uma bestagem dessas não, sô.
Sou cordial e fina com as pessoas.
Quando elas vêm até a escola e apresentam a documentação estou disposta a atendê-las, com todo cuidado, deferência e presteza. Anoto nome, endereço, filiação, identidade, número de telefone, e-mail. Faço cópia do comprovante de residência; solicito foto ¾, e os originais dos documentos pessoais, atualizados. Acordo a transferência das crianças no ato da matrícula. Trato a distância, com protocolo e cerimônia, a comunidade escolar. Sou muito profissional. Não quero saber e nem dar notícia do alheio. Não espicho conversa. Não invento moda. É o preto no branco. Faço o que tem de ser feito: o serviço da secretaria. No mais, não sei de nada. Se hoje está quente? Não sei. Vai chover? Não dou notícia. Não sou repórter do tempo, não é mesmo?
Considera. Você acabou de acordar. Bafo de onça. Cabelo desgrenhado. Remela nos olhos. Camisola babada. Cheia de gases. Bexiga explodindo e... Ô de casa! gritam no portão. Pudera! Eu me finjo de morta. Não saio do lugar; não mexo dedo mindinho; não respiro; nem dou sinal de vida. Vê se pode!? Incomodar as pessoas no brotar do dia. É querer receber porta na cara, não é mesmo? E quer saber de uma coisa? Recebe. Porque eu não abro.
Escuta. Depois das dez da manhã não recebo ninguém aqui em casa. Cisma? Nonada. É rotina. Preciso tomar banho. Relaxar. Passar cremes, óleos pelo corpo, me arrumar. Meu marido e eu temos horários e compromissos que não são nossos. Nossos quefazeres são diligências profissionais. Então, depois das dez da manhã, nós não estamos para ninguém. Perdoem-nos. Trabalhamos muito. É o mal do século: o corre na escassez da prosa, o celular e a falta de tempo. Aqui em casa, todas as nossas obrigações são planejadas. Uma hora e meia é o que temos. Não mais que isso.
Bota reparo. Na hora do almoço toca a campainha. Ah! Não atendo. Não largo meu prato de comida, mas de jeito nenhum. Não dá. Hora da refeição é sagrada. E se insistir, fica plantado, mofando no portão. Fosse o Papa Francisco! Não agendou? Não convido para almoçar. Podem me chamar do que for. Não atendo. E quer saber? Quem paga minhas contas sou eu. E só eu sei onde o calo me aperta. É, ou, não é? E não tome minha atitude como desfeita ou pouco caso. O fato é que só tenho uma hora e meia. Não mais que isso. Por favor, não seja inconveniente. Não me apareça aqui em casa na horinha do almoço. Combinado!?
Todo mundo aqui do bairro sabe que tenho minhas obrigações, e que não recebo ninguém aqui em casa depois das dez da manhã. Inclusive já avisei ao carteiro que tenho só uma hora e meia para me arrumar. E que não receberia nem o Papa, depois da dez. Mas como esse povo do correio é danado de espaçoso; e não regula horário de entrega; dia desses, vi-me obrigada a soltar os cachorros nessa gente.
Esgoelei. Gritei feito alucinada. Desaforo! Vê se pode?! O moço da carta enfiou o dedo na campainha e não largou de apertar. Em tempo de fechar curto na rede elétrica aqui de casa. Ah! Eu virei o bicho. Rasguei o verbo. Desentalei o engasgo. Falei mal. Amaldiçoei. Roguei praga. Desacatei geração inteira dos correios. E disse, aos gritos, que depois das dez da manhã não receberia nem o Presidente da Instituição.
O quê? Você está se rindo de mim? Está achando que eu, Maria Fumaça, sou doida mesmo? Pois que ache. Sei que você pensa assim feito eu, mas não tem a coragem que tenho de assumir as coisas que digo aqui. Essa é a diferença entre nós. Toleima. Fica o dito pelo não dito. Depois não diga que não avisei. Aliás, já li, numa dessas revistas de Filosofia que o governo federal manda aqui para a escola, que “o inferno são os outros”. Foi um tal de Sartre, filósofo francês, quem disse isso. E não é que o homem tinha razão!
Êta diacho de “outro” para infernar a paciência da gente, sô! Não é mesmo?