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A alegria e a companheira da alegria

01 de Outubro de 2025, por Evaldo Balbino

Sozinha, a alegria não segue seus passos.

Precisamos da tristeza para enxergar a importância da alegria.

Dirão que meu pensamento é binarista, mas não é. Pois sei que caminhamos por largos espectros em nossas vidas. As cores do arco-íris caminham num degradê; do mesmo modo somos nós e nossos sentimentos, ações e percepções. Entre a alegria e a tristeza existe um vasto percurso no qual nos situamos. Sempre um caminhar.

Lembro a entrevista em que a atriz Tônia Carrero, indagada por um jornalista se era feliz, respondeu prontamente: “Sou, várias vezes ao dia”. Isto mesmo. “Várias vezes ao dia” quer dizer que não se é feliz, mas sim que se vivem momentos de felicidade na existência.

E vejam que maravilha de fala! Apesar dos pesares, podemos ser felizes “várias vezes ao dia”. Este pronome indefinido é tudo e nos salva! Não são poucas as vezes em que ficamos felizes.

Dirão os pessimistas e extremamente realistas que um dia é um intervalo muito pequeno de tempo para tanta felicidade. E eu digo que essas vozes não são apenas pessimistas e extremamente realistas, mas também muito literais na leitura das palavras.

Ora, tomemos “dia” como “existência”. Assim fica tudo mais suportável. A existência, mesmo efêmera, é longa. E nela, na existência, muitas gotas de alegria (e até rios e mares inteiros) podem nos banhar. Digo até do dia no sentido literal, pois que num só dia podemos viver intensamente felizes. Isso é possível, graças a Deus!

A frase da atriz carrega uma leveza e nos leva a contemplar as multifaces tanto da alegria ou felicidade quanto, por extensão, da tristeza. A felicidade não é uma estátua, contínua e imutável, porém sim estados experienciais fluidos, pontuais e muitas vezes, por que não?, discretos.

Poderão pensar que estou confundindo alegria com felicidade. Não, não estou. Se entre ambas há diferenças de intensidade e duração, de causas externas e internas, de profundidade ou rasura emocional, de distanciamento ou aproximação da tristeza – elas são boas e apetecíveis. E é isso que importa. Uso uma pela outra sem constrangimentos.

Perceber a alegria como algo que acontece em pequenos momentos – e não como um estado absoluto – é reconhecer que a vida é pontilhada, um tecido em construção com idas e vindas das linhas tantas e tortas. Somos ora alegres ora tristes, ou ainda alegres e tristes ao mesmo tempo. A sensação constante de bem-estar não existe. Temos de lidar com os desconfortos do corpo e da alma sob todos os aspectos.

A felicidade chega a ser algo subjetivo, fragmentado, e até mesmo efêmero. Aliás, como a própria vida.

Se a felicidade acontece em momentos esparsos, a tristeza também. Não sendo um estado contínuo e imutável, o sentimento da tristeza aparece e desaparece. Como o pisca-pisca de um vagalume. O lume e o escuro se abraçando o tempo todo em nós.

Vi pela primeira vez a imagem da alegria intermitente em Guimarães Rosa, no belíssimo conto “As margens da alegria”: “Voava, porém, a luzinha verde, vindo mesmo da mata, o primeiro vagalume. Sim, o vagalume, sim, era lindo! – tão pequenino, no ar, um instante só, alto, distante, indo-se. Era, outra vez em quando, a Alegria”. Rosa me ensinando as rosas da vida, apesar do rumor dos espinhos das rosas.

Sucessão de momentos, nossas vidas vão dando volteios em torno de si e de outras vidas mais. Coexistindo e alternando-se, a alegria e a tristeza são irmãs, uma dando sentido à outra, uma existindo porque a outra existe.

A tristeza não é falta de alegria. É justamente o que nos faz entender o que é a alegria. Como amaríamos a água sem saber o sabor da sede? Sem experienciar os momentos difíceis, não saberíamos valorizar os pequenos e imensos prazeres cotidianos.

No equilíbrio da existência humana, a vida é uma dança de emoções. E nessa dança vamos bailando nosso corpo e nossa alma. Mesmo na lama a alma pode dançar.

E cantamos também, de corpo e alma. Escuto sempre o eco da “Toada” de Adélia Prado acariciando-me inteiro: “Cantiga triste, pode com ela / é quem não perdeu a alegria”.

Sejamos alegres e tristes! Vivamos!

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