Ainda estamos aqui.
Vi o filme de Walter Salles em março de 2025. O roteiro de Murilo Hauser e Heitor Lorega foi baseado na autobiografia homônima de 2015, Ainda estou aqui, escrita por Marcelo Rubens Paiva, o mesmo autor que me fascinou há muitos anos com o livro Feliz ano velho. O filme Ainda estou aqui entrou em cartaz nos cinemas do Brasil em 7 de novembro de 2024, com uma grande repercussão, tornando-se um sucesso de bilheteria antes mesmo de suas indicações ao Oscar em 2025, e saiu dos cinemas em abril do mesmo ano. Esse foi o único longa-metragem que vi em 2025. Vi e chorei.
Chorei com a firmeza da interpretação da Fernanda Torres e com a intocável performance sem palavras da Fernanda Montenegro.
Vi o filme, e ainda estou aqui: respirando, pensando, falando e escrevendo. Nossas vidas se fazem de resistência e insistência. Em todos os sentidos.
E a arte é uma das formas de sobrevivermos. Não falo de sobrevida financeira, ainda mais em se tratando de literatura, a que não se vende facilmente. O trabalho circula, mas leitores de fato, como diversas vezes já falaram e lamentaram “n” escritores, são raros. Lembro as palavras de Lygia Fagundes Telles no seu delicioso A disciplina do amor, quando a autora discorre sobre o fato de leitores serem uma espécie em extinção (termos da escritora). E ela recorrentemente retomou essa ideia em diversas entrevistas. O livro é de 1980. E até hoje o problema continua.
Se proliferam divulgações de leitura, resta saber o que de fato está acontecendo com a leitura do texto literário. Os que citam tantos autores estão de fato os lendo?
Um desânimo paira no ar. Escreve-se. Escreve-se o texto. Escreve-se para quem?
Apesar de tudo, escrevo e publico. Escrevo por necessidade e por resistência. Publico por esses mesmos motivos, mas também por insistência. Remo constantemente, ainda que a correnteza se volte contra mim.
Enquanto houver motivo, se escreve. E o maior de todos é o não entendermos a existência. Damos explicações históricas, biológicas, sociológicas, psicológicas, religiosas e outras mais. Esgotamos pensamentos e compêndios inteiros, na duração da busca dum entendimento impossível.
Não nego as ciências, as religiões. Não nego a importância do tempo despendido em tantas elucubrações. Afinal, tudo isso nos define a nós humanos, pobres humanos! E nos constrói como seres pensantes, além de sentidores. Sentir, talvez, seja o que mais nos salva. Sentir com a mente, pensar com o coração.
Assim penso e sinto, por palavras impressas em livros. Um poema, um conto, uma crônica, as linhas de um romance. Tudo isso é tição, lenha que não se apaga, tocha (ainda que tênue) na escuridão da não leitura.
Não lamento aqui. Apenas constato. E também reitero o poder da escrita de lutar contra tudo o que lhe é contrário.
E vale lembrar sempre: ninguém é obrigado a ler. O debruçar-se sobre um livro, e aqui falo especialmente do livro literário, deve ser um ato de amor, deve construir-se na disciplina prazerosa do tocar as palavras, sentir-lhes o cheiro e o sabor, beijar-lhes a textura inconfundível. E avançar mais ainda: abraçar tudo o que elas, as palavras em estado de arte, podem nos oferecer. Beleza tamanha não tem preço, mesmo que o livro-mercadoria seja vendável.
Ler é mais do que estudar. Para quem é leitor espontâneo (e sei que essa espontaneidade é construída), o estudo é uma consequência natural. O leitor não tem medo do livro. Deita a cabeça sobre ele como num travesseiro aprazível e incômodo. E quantos sonhos e pesadelos se tecem nesse conforto desconfortável! Infindáveis lendas, imensuráveis ficções a nos falarem de verdades verdadeiras, de coisas boas e ruins. A nos falarem, na verdade, da vida e de tudo o que a vida representa e é para nós. Vale a pena esse exercício!
Escrever e ler são atos de amor. São atos que dizem que ainda estamos aqui. São disciplinas que construímos e que viram gestos de uma entrega sem esforço. A poesia nos amavia. Amemos!