Dizem que o tempo é um senhor tão bonito quanto implacável, mas esqueceram de mencionar que ele não chega sozinho; traz consigo uma comitiva de especialistas. Houve uma época, perdida em algum lugar entre os carnavais de rua e as noites sem ressaca, em que a única lista que nos preocupava era a do supermercado ou a de contatos do finado MSN. Hoje a agenda virou um guia médico-hospitalar, e nossa vida se tornou uma sucessiva e irônica busca pela manutenção do que, outrora, funcionava no automático.
A jornada começa, invariavelmente, pela vista. O oftalmologista é o primeiro profeta dessa nova era. Ele nos olha com piedade enquanto tentamos ler letras que parecem formigas em fuga. “É a vista cansada”, ele diz, com a suavidade de quem anuncia o fim de um império. De repente, para conseguir ler o que sobrou da nossa autoestima em uma bula de remédio, precisamos esticar o braço como se estivéssemos tentando alcançar o horizonte. O mundo, antes nítido, ganha um filtro de neblina poética que, na verdade, é apenas o cristalino pedindo arrego.
Depois, o corpo começa a emitir sinais sonoros. Um “creck” ao levantar, um “track” ao sentar. Entra em cena o ortopedista. Com ele, descobrimos que a gravidade é uma força vingativa e que, após certa idade, até um espirro mal planejado é capaz de deslocar uma vértebra. Passamos a tratar nossas articulações como se fossem porcelanas da era Ming, e qualquer escada se torna o Monte Everest. O diagnóstico é quase sempre um lembrete de que não somos mais feitos de borracha, mas de um material que exige repouso e compressas de gelo.
A preocupação se torna interna, invisível, quase metafísica. O infectologista surge no horizonte não por causa de uma selva exótica, mas para conferir se aquele cansaço crônico que nos abate às oito da noite é um vírus oportunista ou apenas o peso acumulado do nosso próprio RG. Queremos um culpado microscópico para a nossa falta de fôlego, quando a verdade é que o metabolismo decidiu se aposentar antes de nós.
E o que dizer do cardiologista? Esse é o guardião dos ritmos. Monitora o tambor do peito para garantir que ele aguente os sustos do extrato bancário e as arritmias provocadas pelas notificações do WhatsApp em horários impróprios. Sob o seu olhar, o café vira vilão e a caminhada no parque, uma obrigação religiosa. O coração, que antes batia por paixões avassaladoras, agora bate para manter o colesterol dentro de uma meta que parece mais difícil que ganhar a Mega-Sena.
Por fim, chegamos à fronteira final da dignidade: o proctologista. É aqui que a ironia atinge seu ápice. Aceitamos, com uma resignação quase budista, que certas portas só se abrem com o tempo e que a saúde, às vezes, exige uma invasão de privacidade que nenhum contrato de rede social ousaria propor. É o momento em que o ego se dissolve e percebemos que somos, essencialmente, biologia em estado de alerta.
Nesta crônica dos “istas”, o que fica é a percepção de que envelhecer é o processo de se tornar um colecionador de pareceres. O dermatologista cuida das manchas que o sol de outrora desenhou na pele; o urologista monitora a hidráulica que insiste em falhar na calada da noite; o psicologista (ou terapeuta, para os íntimos) tenta organizar o caos de tudo o que os outros especialistas não conseguem ver nos exames de sangue.
Rimos dessas visitas porque o humor é o único anestésico que não exige receita. Trocar nomes de baladas por nomes de clínicas é o novo rito de passagem. E, entre uma sala de espera e outra, percebemos que essa busca incessante pelos especialistas é, no fundo, uma declaração de amor à vida. Queremos durar. Ser eternos é a nossa meta inatingível. Queremos ver o próximo capítulo, mesmo que seja através de lentes multifocais, com o coração monitorado e as articulações devidamente lubrificadas. Afinal, enquanto houver um “ista” para consultar, haverá uma história para contar.