De um ponto de vista

Morro de vergonha

25 de Marco de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Ando morrendo de vergonha perante a sequência de fatos que vão se sucedendo no país. Nosso céu já anda até desestrelando, com receio de ver suas luzes empanadas por tanto caráter a faltar e desfaçatez a sobrar.

Não consigo ver nada sobrando no SUPREMO do país. Se algo sobra, não dá para ver, pois o que “pobreja” é demasiado maior. Lá se vive o “colapso moral”, pois se praticam os mais “ignóbeis atos de canalhice”. Considere-se: “Se um ministro sabe que é impedido e continua na relatoria da causa, isso seria um ato gravíssimo, motivo mais que suficiente para impeachment”. Um juiz ou está impedido ou não está. “Magistrado não escolhe processo nem entra e sai da relatoria conforme a conveniência institucional”. Fazer-se juiz de um processo em que se está metido é “aceitar a falência da civilização”. É podridão no que já apodrecido está, sem se notar.

É admirável: “um banqueiro esperto contrata um ex-ministro da fazenda por R$1 milhão por mês; contrata um ex-ministro do Supremo, depois ministro da Justiça, por R$ 5 milhões. A família de outro ministro tem o inédito contrato de advocacia de valor gigantesco: R$ 129 milhões”.

O Supremo tem se comportado como cego, fingindo que está vigiando os que enxergam. Às vezes me assalta a dúvida: certos ministros já sabem qual o significado da posição que ocupam?  Têm sobrado respostas erradas e inadequadas para tantas questões da vida. Têm-se comportado como nenhum juiz de instâncias inferiores pode se comportar.

Quem tem um mínimo contato com a Constituição Brasileira sabe que a mais alta corte do país precisa ser ocupada por pessoas com “notório saber jurídico”. Quem tem um mínimo de contato com as notícias relativas aos ministros do Supremo sabe que, lá, há ministros sem tal mínima exigência legal. Exigência técnica, digamos. Para mim, porém, não é o pior. Descabida é a imaturidade. Não consigo não pensar: pode a SUPREMA CORTE de um país ser ocupada por gente imatura, gente que não tem condição de suportar as mais variadas pressões, gente que não vence a tentação de fugir de sua função, agindo como advogado e não como juiz?

Serei eu um tolo ao imaginar que merecemos mais? Que o Brasil não é pequeno e pobre, a ponto de ter que aceitar tal inversão de valores nas mais altas autoridades do país? Serão os senhores ministros tão mal remunerados, que lhes seja autorizado buscar outras fontes de recursos, fontes discutíveis, compensatórios de sua pobreza?

O Supremo tem nos levado a viver a incerteza na certeza de nada. Estamos sendo obrigados a comer um mexido que não fizemos. Tudo no Supremo hoje é débito para com as pessoas e para com o país. E falta-lhe crédito. Chega-se a sonhar com a morte na esperança de que ela possa significar um despertar.

Em 1964 já eu estava nos meus vinte e seis anos. Não era criança e sabia bastante do quanto se estava vivendo no Brasil. Pois bem. Se naqueles idos, Forças Armadas e Governadores se uniram para derrubar um governo, dito comunista, hoje a situação me parece muito mais alarmante sob os mesmos pontos de vista. E onde, onde Forças Armadas e Governadores?

A situação é por demais vergonhosa para quem se dedicou integralmente à educação, entendida como fundamento para uma República decente.

APESAR DE VOCÊ

25 de Fevereiro de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Um vento varre o mundo. Varre a vida.

Leva o que ela contém.

Não me quer mais. Pois já não há o quê.

Lealdade. Sensibilidade. Justiça.

É passado.

 

Presente?

Apenas o desejo, de incrível qualidade:  

comprometido com a mentira e desfaçatez.

 

Onde os xicos? Onde os baianos?

Covardes? Não sei.

Sei que não cantam o que cantavam.

Não falam o que diziam.

Mas vivem o que queriam.

 

A vida alheia, entretanto, é a mesma:

feita de esperança fina, sem longemirança.

Utópica. 

Vislumbre que se sucede, indefinidamente, no horizonte.

Carrega tudo consigo: a própria vaidade da grandeza inexistente.

 

No entanto,

está passando na avenida um samba impopular.

O pecado sem perdão é inventado para não ter que perdoar

.

Manhã?

Sem jeito, pois a noite é sem lua.

Nela só se enxerga com óculos escuros.

 Vistas míopes. Olhos odiosos na luz.

 

Amanhã?

 APESAR DE VOCÊ.

Solto a voz nas estradas

27 de Janeiro de 2026, por João Bosco Teixeira 0

Estávamos em Parati: catorze irmãos que, todo ano, gostávamos de passar juntos uns três dias.

Daquela vez, havia uma grande novidade.

Somos uma família que canta desde que nasceu. Ambiente musical, com papai que tocava bandolim, mamãe piano. Em casa, dois desse instrumento, que todos dedilhavam mais ou menos, mas com irmã mais velha, professora consagrada, e outras irmãs versáteis o suficiente para acompanhar qualquer execução musical de caráter popular. Todos os homens tocavam também algum instrumento.

Havia, então, uma novidade. No ano anterior à ida para Parati, os irmãos passamos a nos encontrar, semanalmente, para cantarmos polifonicamente, sob a regência competente do irmão, maestro de consagrado coral em BH. Pois, escolhêramos o encontro do final de ano para nossa primeira apresentação oficial. Ocorreu, numa tarde serena, em saleta singela da pousada em que estávamos. Todos vestidos a rigor, o maestro em fraque, elegantíssimo. Entrada solene na saleta da pousada. Na plateia, qualificado público composto por uma cunhada, um cunhado e uma irmã que, por morar em SP, não tinha tido a oportunidade de se compor conosco.

Apresentação solene. Aplausos a flux. Encantamento de todos pelo simples prazer de fazer boa música e cantar bem. Uma festa.

Seguiu-se o de todo dia: aquela cervejinha, caipirinha, ou outro destilado, no início da tarde e entrada da noite, sem definição de horas para o recolhimento.

Lá pelas tantas, João – que toda família grande tem um filho chamado João - o irmão do meio, tomado de certo recolhimento, deixou-se levar pelo silêncio. Cabisbaixo, contrariamente a seus hábitos, isolou-se do grupo, e até de sua esposa. José – que toda família grande tem um filho chamado José – deu-se conta, foi-lhe ao encontro e entabulou conversa. João, o que é que você tem? - Nada não, estou apenas um pouco preocupado. - Com quê? Acaso está doente? De câncer? - que essa é uma doença de família. - Não, não estou doente não. - Mas, então, que cara é essa, por que tanto silêncio? Vai se separar de sua mulher? - Não, nada disso; minha mulher até está comigo nisso. - Nisso, o quê? Fala, pô, fala logo ou então não fala; mas para com essa cara de quem precisa de algo. - Vou falar, mas por favor, me respeite, pois estou muito emocionado. - Emocionado com quê, João? Solta a franga. - Está bem, vou falar. – A essas alturas já o grupo dos irmãos tinha prestado atenção na conversa e ouviu João falar. - É o seguinte, começou João. Depois de rezar muito, de ter o de acordo de minha mulher – o que poderá lhe custar muito – de ouvir gente mais experiente, depois de pensar e ponderar bem as coisas, mais do que costumo, tomei a decisão de... (silêncio alto entre os irmãos), tomei a decisão de enterrar vocês todos... José, que tinha na mão meio copo de cerveja, não titubeou em lançá-la na cara de João. Os demais irmãos, tomados de todos os sentimentos possíveis, inclusive antagônicos, foram levados mais pela sensação de alívio que de qualquer outra coisa. Depois, é lógico, vieram disparatados comentários, proporcionais ao disparate do irmão.

Essa crônica quer relembrar a figura da irmã Teresinha, segunda na ordem cronológica dos irmãos, que faleceu no início deste ano. Entre todos nós, possuidores de ótimas vozes para o canto coral, só ela possuía voz lírica. E ficaremos eternamente saudosos de quando cantávamos Travessia e ela solava, independentemente da tonalidade em que se cantasse: “Solto a voz nas estradas já não quero parar...”

Tudo é possível

24 de Dezembro de 2025, por João Bosco Teixeira 0

Era a grande festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Padroeira maior da Ordem Terceira de São Francisco. Tudo concorria para a grandeza da Missa Solene, das nove horas e quinze minutos, conforme centenária tradição. Em São João del-Rei, mesmo quem não quer, vive até da tradição. Pela menos parte dos cidadãos, aqueles orientados e informados pelas dezenas de toques de sino.

Desde o alvorecer o dia era festivo. E quarenta minutos antes da celebração eucarística os sinos da igreja de São Francisco já convocavam os fiéis, muito embora a missa se devesse celebrar na igreja do Carmo.

Com receio de não obter lugar para a participação na celebração devidamente acomodado, antecipei minha hora de chegada à igreja. Sobravam muitíssimos lugares, então. Até o início da celebração, muitos espaços foram preenchidos, sem, todavia, ocupar cinquenta por cento de sua capacidade.  A festa da Imaculada não compete, popularmente, com aquelas do Carmo, Mercês e da Boa Morte de Maria.

A Orquestra tocou a ABERTURA, composição do são-joanense Geraldo Barbosa de Souza. Peça músico-operística a fazer inveja a muito compositor clássico. Era o prenúncio da Missa de Francisco Manoel da Silva, cujo ducentésimo trigésimo aniversário de morte se comemorava.

Francisco Manoel viveu trinta anos. O suficiente para compor uma missa de grande envergadura. E orquestra e coro, acompanhando o impulso e vitalidade de seu regente, interpretaram a partitura musical, colaborando para a grandeza da celebração. Só não obtiveram correspondência por parte do celebrante e mesmo por parte do proclamador do evangelho. Este, ao cantar, parecia sair de um tom menor e concluir num maior. Aquele, destituído de qualquer competência musical, sequer soube entoar o Glória e, menos ainda, o Credo.

Na assembleia, durante o longo canto do Glória, três cenas notáveis. Primeira delas desempenhada por um senhor, certamente nos seus mais de setenta nos. Entrou na igreja, já iniciada a celebração. De roupa destituída de qualquer relação com a solenidade do momento – uma bermuda branca, camisa de igual cor, trazia preso à cintura o enorme celular, fazendo lembrar as armas carregadas pelos justiceiros de tempos idos. O respeitável senhor, sem tomar conhecimento de quanto ocorria, andava pela nave central, cumprimentava aqui uma pessoa, ali outra; foi até a capela-mor de onde, em pose, fotografou o sr. Bispo e sua coorte composta de vários sacerdotes e coroinhas que circundavam o trono episcopal.

Outra figura dividia a atenção dos fiéis durante o canto do Glória que, na verdade, insistia em não terminar:  vinte e cinco, trinta minutos. Um pobre senhor, menor idade que a do anteriormente citado, subia e descia a nave central, suplicando uma esmola dos presentes. Ia e voltava, insistentemente. Seu entusiasmo competia com o da orquestra. Os resultados, no entanto, pareciam inferiores.

Ainda uma cena. Pela demora do canto do Glória, uma senhora, nada jovem sem aparentar velhice, deixou seu lugar e com gestos largos de impaciência justificava sua saída da igreja, ao se apontar para o coro da igreja.

Na paróquia de Nossa Senhora do Pilar, cujas longas celebrações lembram tempos em que o povo tinha na liturgia sua diversão, as confrarias, arquiconfrarias, ordens terceiras e quejandas, garantem público, tradicional. E tudo é possível.

Mais que recordação

25 de Novembro de 2025, por João Bosco Teixeira 0

Há certas horas, em nossas vidas, em que a gente se pega a recordar.  “Recordar é viver”, como dizia a velha marchinha carnavalesca. Mas, há recordações e recordações.

Há aquelas que surgem qual uma imposição. Uma necessidade. Para que a gente se recorde de que é preciso insistir no viver.

Há outras que emergem para que a gente se console com êxitos obtidos e, assim, não se deixe vencer por desânimos descabidos.

Há antigas que nos vêm para que a gente entenda que, por maior que seja o passado, seja nas suas alegrias seja nas suas tristezas, ele não pode determinar o presente.

Há, também, despretensiosas que trazem consigo alegrias iluminantes, que engordam emoções. Semana passada vivi uma dessas.

Impossibilitado de pegar meu carro e sair em direção de Oliveira, comprei passagem na São Cristóvão e lá fui eu. Sentado na poltrona três, era tomado de tanto desejo de usufruir da viagem que deixei o livro, em leitura, fechado dentro da bolsa. E prazerosa se tornou a viagem, com a visão solta para os campos, para as colinas verdejantes, caídas as primeiras chuvas. E gente, variada em tipo e cor, a entrar e sair do ônibus, com mais e menos sacolas, sob os braços e presas ao corpo, e até criança de colo, lindamente aconchegada pela jovem mãe, despedida já dada à avó que ficara pela calçada. Cenas de antanho, revividas em novas manifestações.

E lembrei-me de Vicente, o motorista que, durante trinta e mais anos, comandou aquela viagem no trecho São João-Divinópolis.

Dotado de humor inigualável, percorria ele a estrada de terra na maior alegria, divertindo seus passageiros com mil e uma estórias sobre acontecimentos nas viagens diárias que fazia. E mais, prestava enorme serviço aos moradores do trajeto, levando recados, cartas, objetos e até pequenas aves para entrega e, também, para resposta. A viagem com o Vicente, do ponto de vista da duração no tempo, não se podia prever, sobretudo sob chuva. No entanto, era fácil suportá-la pela invejável disposição e vivacidade com que ele enfeitava os feitos e desfeitos que protagonizava. Recordação muito viva.

A estrada hoje é tão diferente no seu aspecto físico. Toda asfaltada, passa por linda região montanhosa, ocupada já, em boa parte, por ricas plantações, parreirais em flor e fruto.

De particular detalhe se revestiu a passagem por Ritápolis, a antiga Santa Rita.  Abandonada a rodovia 494, em trevo ornamentado com a figura pétrea de Santa Rita, o ônibus seguiu caminho para o centro da cidade, já, então, começando a enfrentar os vinte e sete quebra-molas que ultrapassaria até chegar, lá no alto, para novamente pegar a rodovia. Esse percurso, que não sei se atinge três quilômetros, o ônibus o fazia como se fosse um ônibus urbano. Paradas e mais paradas, nove ao todo, acolhendo e deixando passageiros, agradecidos, pelas ruas que se sucediam, morro acima, ladeira abaixo, em curvas e retas.  Lentamente o ônibus percorria todo o centro da cidade; subia e subia. Nas ruas estreitas, era possível encontrar veículos estacionados nos dois lados da rua, dificultando a passagem do ônibus grandalhão. Havia esquinas que exigiam do motorista ou uma dupla manobra ou a subida na calçada para que pudesse alcançar a rua seguinte. Gente não faltava no curto e longo trajeto. As pessoas pareciam estar contemplando a vida a passar.  

São Tiago logo a seguir, Morro do Ferro um pouco depois, tudo compunha um itinerário lindo, carregado de recordações, que culminaria na simpática e cativante Oliveira.

Ritápolis, no entanto, foi mais que uma recordação.