Dialeto do Timor
27 de Maio de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Pobre Gilmar Mendes, infeliz Gilmar Mendes, xenofóbico e racista Gilmar Mendes. Além de preconceituoso e adepto do perfilamento linguístico, manifestou-se invejoso do mineiro de estirpe que dá um boi para não entrar na briga, mas uma boiada para dela não sair. Ah! Gilmar, você foi desastroso. Não sei se se deu conta. Melhor teria sido manter a boca fechada que ridicularizar lídima manifestação da diversidade regional que faz grande este país.
Sabe, “intocável” Ministro, nossa “Aparente docilidade esconde reservas de insubordinação, às vezes convertida em ironia, e, de algum modo, chocada na pachorra de esperar, que tanto ilude o observador apressado, incapaz de perceber a chama latente do borralho” (CDA).
Nosso jeito de falar “Não é caricatura. Não é piada fácil em torno do “uai”, do “trem”, do “sô”. Não é sotaque reduzido a ornamento turístico. É forma de expressão das mineiridades: um modo de falar, silenciar, acolher, desconfiar, contar causos, convidar para o café e organizar a convivência”. (Leônidas Oliveira).
Nós mineiros, do centro e das beiradas, das alterosas e das planícies, das riquezas e das pobrezas, nos orgulhamos de significar o que é este maravilhoso país. Sr. Ministro, Minas é síntese. Minas é caminho para o norte e para o Sul, para o leste e para o oeste. Minas é o caminho por excelência da POLÍTICA. E, por isso, nosso jeito maior, nossa cara mais autêntica, V. Exª bem o sabe, é a encarnação e proclamação da liberdade.
Posso lhe recordar? “O segundo nome de Minas é Liberdade” (TN). “Se Ouro Preto é repositório de arte, fé e tradição, mais se distingue pela vocação da Liberdade” (JK). “Sem liberdade, cairemos na opressão política... a democracia falhará em sua missão” (MC). E não se trata de liberdade abstrata. Não. É a liberdade que nos leva a tratar a todos com sumo respeito, nas muitas maneiras do falar, do sentir e do se emocionar. Liberdade, qual único caminho para a justiça, geradora da paz. Liberdade, qual maior dom que dos deuses os humanos receberam e pelo qual vale perder a honra e até a vida. E nós, mineiros, somos uma gente tão comprometida com a liberdade que o que nos faz feliz não é o que possuímos, mas a liberdade diante daquilo que nos falta. NU!!!, fui longe, não, Ministro?
Pense, tão falado senhor, na imensa riqueza cultural deste país, em que nada há a se desprezar, nada há a se excluir, nada há a esquecer. Tudo feito para enriquecer.
Ah! Sr. Gilmar Mendes, ocorre-me que possa lhe faltar grandeza para entender o que seja Minas Gerais, o que sejam os mineiros. Falamos, sim, um dialeto. Mas olhe: haja dialetos a exprimir a riqueza deste país! Haja dialetos, sem os quais não há brasilidade, sem os quais não se tem o Brasil que queremos. Haja uma multivariada raça, em cores, costumes e procedimentos, vez que somos capazes de conviver com as diferenças. E cale-se qualquer voz dissonante com a grandeza do país.
Vivam mil dialetos! Viva o Dialeto do Timor!
João, cidadão
29 de Abril de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Cidadão: habitante da cidade, preocupado com a cidade, identificado com a cidade, disposto a servir à cidade. Cidadão também da grande cidade, da cidade maior, da cidade-país. E, então, sofrendo e padecendo com este país-cidade.
Para ainda sobreviver, veem-me à mente lembranças, vividas e não, objetivas e menos, válidas e cridas, presentes como nunca.
Como me doeu um dia: O que será que será?...
O que não tem certeza, nem nunca terá.
O que não tem conserto, nem nunca terá.
O que não tem decência nem nunca terá.
O que não tem censura nem nunca terá.
O que não tem governo, nem nunca terá.
O que não tem vergonha nem nunca terá.
Como me dói ainda hoje! É que a saudade dói. Mas, não é a saudade; é a realidade.
Há momentos em que o presente muito lucraria se os governantes conhecessem e se dispusessem a aprender lições nunca esquecíveis. Eis uma de tantas protagonizada pelo rei Assuero que escreveu carta aos governadores das cento e vinte e sete províncias e aos chefes de distrito, seus subordinados, carta na qual dizia: “Colocado na chefia de inúmeros povos e como senhor de toda a terra, eu me propus não me deixar embriagar pelo orgulho do poder e sempre governar com grande espírito de moderação e benevolência, a fim de outorgar a meus subordinados o perfeito gozo de uma existência sem sobressaltos e, já que meu reino oferece os benefícios da civilização e a livre circulação entre as suas fronteiras, nele instaurar o objeto do desejo universal, que é a paz”. (Est 3,13)
Assuero viveu no século V a.C., mas suas palavras ressoariam, validamente, no Congresso Nacional, se este não houvesse perdido a legitimidade. E perdeu, pois, diante de um Supremo judiciário que legisla, ele se cala empobrecidamente, ou quem sabe, covardemente, ou, pior ainda, interesseiramente, dado que não convém rebelar-se contra quem tem a espada de Dâmocles sobre o próprio pescoço.
Sei não. Princípios morais raramente são universais, pois são ajustes de uma sociedade, num tempo determinado. Mas há conceitos insubstituíveis, há valores intocáveis, pelo menos na civilização iluminada pelo cristianismo. Numa reunião de condomínio, depois de acelerada discussão – e é uma pena que tais discussões sejam sempre “aceleradas” - um ex-síndico disse: “não se pode pensar e agir assim: para mim está bom, o resto que se dane. O bem do grupo precisa anteceder, precisa ser mais considerado que o meu bem-estar pessoal”. Corajoso síndico, possuidor de pura cidadania, seria condenado em várias instâncias superiores de nossa administração pública.
Li em O TEMPO de 11 de abril passado: “O verdadeiro desenvolvimento precisa começar pelo básico: ouvir a população, respeitar os territórios e garantir condições dignas de vida para todos e todas” (Andreia de Jesus, Dep. Estadual PT-MG), É verdade, pois “se eu não te ouvir como é que posso cuidar de você?”, dizemos nós, os psicólogos clínicos. Se o partido da Deputada seguisse o preceito que ela apregoa, não teríamos um número de bolsas maior que o número de carteiras assinadas de trabalhador.
João, cidadão. Da cidade terrena. À luz do tempo pascal celebrado, cidadão também da cidade eterna, pois “Semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscita reluzente de glória; semeado na fraqueza, ressuscita cheio de força; semeado corpo psíquico, ressuscita corpo espiritual (1Cor 15,42).
Não é fuga. É convicção capaz de justificar e iluminar a cidadania de quem habita, qual cuidador, este mínimo espaço cósmico.
Morro de vergonha
25 de Marco de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Ando morrendo de vergonha perante a sequência de fatos que vão se sucedendo no país. Nosso céu já anda até desestrelando, com receio de ver suas luzes empanadas por tanto caráter a faltar e desfaçatez a sobrar.
Não consigo ver nada sobrando no SUPREMO do país. Se algo sobra, não dá para ver, pois o que “pobreja” é demasiado maior. Lá se vive o “colapso moral”, pois se praticam os mais “ignóbeis atos de canalhice”. Considere-se: “Se um ministro sabe que é impedido e continua na relatoria da causa, isso seria um ato gravíssimo, motivo mais que suficiente para impeachment”. Um juiz ou está impedido ou não está. “Magistrado não escolhe processo nem entra e sai da relatoria conforme a conveniência institucional”. Fazer-se juiz de um processo em que se está metido é “aceitar a falência da civilização”. É podridão no que já apodrecido está, sem se notar.
É admirável: “um banqueiro esperto contrata um ex-ministro da fazenda por R$1 milhão por mês; contrata um ex-ministro do Supremo, depois ministro da Justiça, por R$ 5 milhões. A família de outro ministro tem o inédito contrato de advocacia de valor gigantesco: R$ 129 milhões”.
O Supremo tem se comportado como cego, fingindo que está vigiando os que enxergam. Às vezes me assalta a dúvida: certos ministros já sabem qual o significado da posição que ocupam? Têm sobrado respostas erradas e inadequadas para tantas questões da vida. Têm-se comportado como nenhum juiz de instâncias inferiores pode se comportar.
Quem tem um mínimo contato com a Constituição Brasileira sabe que a mais alta corte do país precisa ser ocupada por pessoas com “notório saber jurídico”. Quem tem um mínimo de contato com as notícias relativas aos ministros do Supremo sabe que, lá, há ministros sem tal mínima exigência legal. Exigência técnica, digamos. Para mim, porém, não é o pior. Descabida é a imaturidade. Não consigo não pensar: pode a SUPREMA CORTE de um país ser ocupada por gente imatura, gente que não tem condição de suportar as mais variadas pressões, gente que não vence a tentação de fugir de sua função, agindo como advogado e não como juiz?
Serei eu um tolo ao imaginar que merecemos mais? Que o Brasil não é pequeno e pobre, a ponto de ter que aceitar tal inversão de valores nas mais altas autoridades do país? Serão os senhores ministros tão mal remunerados, que lhes seja autorizado buscar outras fontes de recursos, fontes discutíveis, compensatórios de sua pobreza?
O Supremo tem nos levado a viver a incerteza na certeza de nada. Estamos sendo obrigados a comer um mexido que não fizemos. Tudo no Supremo hoje é débito para com as pessoas e para com o país. E falta-lhe crédito. Chega-se a sonhar com a morte na esperança de que ela possa significar um despertar.
Em 1964 já eu estava nos meus vinte e seis anos. Não era criança e sabia bastante do quanto se estava vivendo no Brasil. Pois bem. Se naqueles idos, Forças Armadas e Governadores se uniram para derrubar um governo, dito comunista, hoje a situação me parece muito mais alarmante sob os mesmos pontos de vista. E onde, onde Forças Armadas e Governadores?
A situação é por demais vergonhosa para quem se dedicou integralmente à educação, entendida como fundamento para uma República decente.
APESAR DE VOCÊ
25 de Fevereiro de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Um vento varre o mundo. Varre a vida.
Leva o que ela contém.
Não me quer mais. Pois já não há o quê.
Lealdade. Sensibilidade. Justiça.
É passado.
Presente?
Apenas o desejo, de incrível qualidade:
comprometido com a mentira e desfaçatez.
Onde os xicos? Onde os baianos?
Covardes? Não sei.
Sei que não cantam o que cantavam.
Não falam o que diziam.
Mas vivem o que queriam.
A vida alheia, entretanto, é a mesma:
feita de esperança fina, sem longemirança.
Utópica.
Vislumbre que se sucede, indefinidamente, no horizonte.
Carrega tudo consigo: a própria vaidade da grandeza inexistente.
No entanto,
está passando na avenida um samba impopular.
O pecado sem perdão é inventado para não ter que perdoar
.
Manhã?
Sem jeito, pois a noite é sem lua.
Nela só se enxerga com óculos escuros.
Vistas míopes. Olhos odiosos na luz.
Amanhã?
APESAR DE VOCÊ.
Solto a voz nas estradas
27 de Janeiro de 2026, por João Bosco Teixeira 0
Estávamos em Parati: catorze irmãos que, todo ano, gostávamos de passar juntos uns três dias.
Daquela vez, havia uma grande novidade.
Somos uma família que canta desde que nasceu. Ambiente musical, com papai que tocava bandolim, mamãe piano. Em casa, dois desse instrumento, que todos dedilhavam mais ou menos, mas com irmã mais velha, professora consagrada, e outras irmãs versáteis o suficiente para acompanhar qualquer execução musical de caráter popular. Todos os homens tocavam também algum instrumento.
Havia, então, uma novidade. No ano anterior à ida para Parati, os irmãos passamos a nos encontrar, semanalmente, para cantarmos polifonicamente, sob a regência competente do irmão, maestro de consagrado coral em BH. Pois, escolhêramos o encontro do final de ano para nossa primeira apresentação oficial. Ocorreu, numa tarde serena, em saleta singela da pousada em que estávamos. Todos vestidos a rigor, o maestro em fraque, elegantíssimo. Entrada solene na saleta da pousada. Na plateia, qualificado público composto por uma cunhada, um cunhado e uma irmã que, por morar em SP, não tinha tido a oportunidade de se compor conosco.
Apresentação solene. Aplausos a flux. Encantamento de todos pelo simples prazer de fazer boa música e cantar bem. Uma festa.
Seguiu-se o de todo dia: aquela cervejinha, caipirinha, ou outro destilado, no início da tarde e entrada da noite, sem definição de horas para o recolhimento.
Lá pelas tantas, João – que toda família grande tem um filho chamado João - o irmão do meio, tomado de certo recolhimento, deixou-se levar pelo silêncio. Cabisbaixo, contrariamente a seus hábitos, isolou-se do grupo, e até de sua esposa. José – que toda família grande tem um filho chamado José – deu-se conta, foi-lhe ao encontro e entabulou conversa. João, o que é que você tem? - Nada não, estou apenas um pouco preocupado. - Com quê? Acaso está doente? De câncer? - que essa é uma doença de família. - Não, não estou doente não. - Mas, então, que cara é essa, por que tanto silêncio? Vai se separar de sua mulher? - Não, nada disso; minha mulher até está comigo nisso. - Nisso, o quê? Fala, pô, fala logo ou então não fala; mas para com essa cara de quem precisa de algo. - Vou falar, mas por favor, me respeite, pois estou muito emocionado. - Emocionado com quê, João? Solta a franga. - Está bem, vou falar. – A essas alturas já o grupo dos irmãos tinha prestado atenção na conversa e ouviu João falar. - É o seguinte, começou João. Depois de rezar muito, de ter o de acordo de minha mulher – o que poderá lhe custar muito – de ouvir gente mais experiente, depois de pensar e ponderar bem as coisas, mais do que costumo, tomei a decisão de... (silêncio alto entre os irmãos), tomei a decisão de enterrar vocês todos... José, que tinha na mão meio copo de cerveja, não titubeou em lançá-la na cara de João. Os demais irmãos, tomados de todos os sentimentos possíveis, inclusive antagônicos, foram levados mais pela sensação de alívio que de qualquer outra coisa. Depois, é lógico, vieram disparatados comentários, proporcionais ao disparate do irmão.
Essa crônica quer relembrar a figura da irmã Teresinha, segunda na ordem cronológica dos irmãos, que faleceu no início deste ano. Entre todos nós, possuidores de ótimas vozes para o canto coral, só ela possuía voz lírica. E ficaremos eternamente saudosos de quando cantávamos Travessia e ela solava, independentemente da tonalidade em que se cantasse: “Solto a voz nas estradas já não quero parar...”