Metodologia de ensino
27 de Agosto de 2025, por João Bosco Teixeira 0
Volto a falar de ENSINO. Volto a carregar as tintas sobre a figura do professor.
Começo por declarar algo sobre o que não tenho dúvidas: não consigo nem sequer imaginar como seja possível um professor falar, durante cinquenta minutos, sobre qualquer matéria e pretender que adolescentes prestem atenção, calados. Um grupo de adolescentes silenciosos, ouvindo seja lá o que for, durante tanto tempo, não é possível. Nada na vida diária deles exige isso. Estão sempre a falar, a interagir, a discutir, a brigar, a gozar um do outro¸ em continuada e ruidosa convivência.
Batalho por uma metodologia de aprendizado em grupo, em que os alunos possam falar, devam falar e, o que é mais importante, aprendam uns com os outros. E parece-me possível organizar tal sistema de aprendizado.
Imagino um professor de português que tenha, durante a semana, quatro aulas de cinquenta minutos com seus vinte e cinco alunos. Tal professor teria à sua disposição duzentos minutos por semana; oito minutos para cada aluno. Se tal professor dividisse seus alunos em grupos de cinco, cada grupo teria com ele, por semana, quarenta minutos. Eis uma questão: será que 40 minutos por semana, com grupo de cinco, não seria melhor que 200 minutos com grupo de vinte e cinco?
Vamos em frente. Constituídos os grupos, heterogêneos do ponto de vista de capacitação para o aprendizado, as aulas se desenvolveriam com os grupos apresentando ao professor o resultado de seus estudos. As primeiras aulas seriam dedicadas a duas questões fundamentais: a apresentação da metodologia de trabalho e o conhecimento do texto utilizado para o aprendizado. Discutida a questão e a formação dos grupos, o trabalho teria início e possíveis dificuldades surgidas nos grupos seriam objeto de intervenção do professor ou de algum grupo que tivesse a solução para o problema (tudo centrado no aprendizado dos alunos, lembrados de que o aluno é quem aprende e o professor, possível facilitador do aprendizado).
Podem surgir dificuldades? Sem dúvida, de toda espécie. Dificuldades na formação dos grupos, na administração do tempo em sala de aula, pois, quando o professor está num grupo verificando o aprendizado, os outros grupos estarão se dedicando a resolver as propostas do livro-texto; dificuldades com certa “indisciplina”, absolutamente compatível com a idade dos alunos; dificuldades por parte de outros professores; dificuldades com as famílias dos alunos e daí para frente.
É evidente que, para se adotar tal metodologia, toda a escola precisa se envolver. Numa escola em que não se acredita que o aprendizado em grupo é muito mais possível que a passividade diante de uma pessoa que fica falando sem que haja possibilidade alguma de verificar se outros estão escutando, em tal escola não convém intervir. Numa escola em que não se acredita que o aluno é quem aprende e não o professor quem ensina; numa escola em que a disciplina, entendida como silêncio, seja a coisa mais importante, então é deixar o professor falar, os alunos em silêncio, mesmo que respeitoso, fingindo que aprendem.
Mil vezes alguns problemas com uma metodologia de ensino que preveja bons resultados, que nenhum problema com uma metodologia que se sabe ofensiva da constituição psíquica dos alunos.
Aqui mais uma vez: quase tudo depende do professor para que o aprendizado aconteça, sem que a escola impeça a seus alunos uma vida saudável.
Tecnologia de ensino/aprendizado na escola
04 de Agosto de 2025, por João Bosco Teixeira 0
Vamos vivendo dias de muita turbulência. Muitas dúvidas. Pouca esperança. Muitas interrogações. Poucas respostas. Rumos perdidos. Em todos os campos do conhecimento. Em todas as manifestações de vida.
Para onde vai a economia? Aonde andarão os costumes? Há ainda Políticos? A vida pode ser vivida com segurança? E Deus, onde está? E a educação, como processo de libertação e amadurecimento, assim como o ensino, como sistema de aquisição de conhecimento, não escapam de todas essas perplexidades.
Para exemplificar e simplificar: utilizar ou não as variadíssimas tecnologias, facilitadoras do ensino/aprendizado no período fundamental? Ainda mais especificamente: servir-se ou não do celular como instrumento de sistemática aquisição do conhecimento?
Para opiniões divergentes, e até contrastantes, não faltam fautores e fautrizes:
um absurdo celular na sala de aula - celular hoje é peça de roupa...
celular é fonte de conhecimento superficial - com o celular pode-se aprender qualquer coisa...
celular desliga as pessoas - celular conecta todo mundo...
celular afasta as pessoas de leituras sérias - celular proporciona leitura ao alcance das mãos...
celular é a razão do individualismo reinante - o celular socializa o mundo...
E então, servir-se ou não dessa tecnologia para o ensino/aprendizado dos vários campos de conhecimento?
Dito de maneira absoluta, não tenho a menor dúvida de que se trata de estupendo recurso tecnológico. No que tange à sua utilização dentro da sala de aula, na escola fundamental, a questão é complexa.
Há numerosas considerações a fazer, porque nenhuma tecnologia é isolada no complicado problema do aprendizado, mas também porque essa tecnologia exige uma série enorme de outras providências que vão desde uma boa internet na escola até a posse, por parte de todos os alunos, do aparelho celular.
Um fator primordial, todavia, identifica a maior dificuldade de se implantar um ensino com o uso do celular. Fator indispensável, sem o qual o aprendizado não se dá por parte da maioria esmagadora dos alunos: tal fator se chama “professor”.
A grande maioria dos professores de nossas escolas encontra-se em condições precárias relativamente à remuneração, à consideração e respeito e ao tempo de que dispõem nas escolas. Sou capaz de afirmar, entretanto, que no tocante às modernas tecnologias – o celular em especial – os professores não têm preparo para sua proveitosa utilização: falta-lhes experiência, fizeram-se professores sem as referidas tecnologias e não querem se arriscar em uma modalidade que lhes soa estranha e inalcançável.
O celular vai demorar a sentar praça na escola. Fale-se, imagine-se o que quiser, mas não se deveria deixar de utilizar tão excepcional recurso para o ensino/aprendizado. Dificuldades existem para serem superadas.
E assim, a despeito de tudo, a escola continua desempenhando seu papel de educadora melhor, muito melhor, que seu papel de transmissora e construtora do conhecimento. Neste particular, temo que muitas escolas continuem não trazendo para dentro de seus recintos a vida de seus alunos que têm, no celular, preciosa fonte de conhecimento, comunicação e vida.
Educação, cuidado
02 de Julho de 2025, por João Bosco Teixeira 0
Juliana Siqueira, na edição de O TEMPO do dia 5 de junho passado, expressou suas convicções educativas face aos comportamentos descabidos de adolescentes na internet.
São expressões ali encontradas: “punição e acolhimento são as palavras-chave”; “diálogo aberto e participação constante dos adultos no dia a dia....”; “adolescentes.... precisam ser monitorados’; “os pais devem exercer autoridade e impor limites, regras...”; “orientá-los (os adolescentes) a pedir desculpas para as vítimas e demais colegas”; “Tem que acolher, não xingar, nem culpar”. São todas expressões de quem, certamente, tem um longo caminho percorrido no exercício do processo de educação.
Andei também um longo caminho. Sempre na escola. E quando de lá me ausentei por pouco tempo, ainda assim estive envolvido com o processo de desenvolvimento dos recursos humanos. Isso me leva a concordar com a visão do processo educativo manifestado nas expressões acima expostas.
Há um particular no qual tenho posição muito clara e, talvez distinta, daquela manifestada pela autora do artigo. Refere-se ao assunto punição... castigo. Cresci, me desenvolvi e formei convicção de que punição, castigo que não tocam o coração do educando só satisfazem àquele que pune, que castiga. Neste caso, a ação pedagógica se transforma num instrumento estabelecido para ajustar a disciplina, rever situações e não para ajudar o educando a se posicionar devidamente frente à instituição e aos colegas. Estou convencido, se a motivação da ação educativa não for o bem do educador e do educando, de que então é preciso recorrer a meios que não satisfazem nem a um nem a outro porque a preocupação não é com esses agentes educativos, mas com a instituição em que o comportamento indesejado ocorreu.
No processo educativo o que realmente conta é a relação. E é nela que educando e educador manifestam o que os move. É na relação que o educador expressa seus interesses. Interesses que o educando percebe com extrema facilidade. O educando sabe bem se o educador está interessado nele ou noutros objetivos, quais a disciplina, a observância de preceitos e regras, o nome da escola e tanta coisa mais que nós, educadores, sabemos inventar, muitas vezes porque somos incapazes de nos interessar realmente pela pessoa do educando. Se o educando se percebe amado, respeitado, ele mesmo se punirá ao se dar conta de que ofendeu alguém que lhe quer bem, que o ama e está interessado, unicamente, no seu desenvolvimento e amadurecimento.
Se o educando se SENTE amado, os castigos não são necessários. Ou, os castigos serão outros: a retirada de uma manifestação de afeto, a ausência de um sorriso, um silêncio diante dele. O castigo se dá quando o foco do educador está fora do educando, está no erro. Daí uma quantidade enorme de castigos sem nenhuma convicção por parte de quem os aplica. E, nesse caso, castigos inúteis.
O processo educativo é “uma questão de coração”. Mais ainda: “Não basta amar, é preciso que o educando SINTA que é amado”. Expressões do grande educador do século XIX, São João Bosco. Formei-me nessa escola. A fiz minha. Convictamente. Fugi o tempo todo de qualquer castigo que não fosse expressão de amor, de consideração, de CUIDADO.
Enorme, possível e esperançada euforia
28 de Maio de 2025, por João Bosco Teixeira 0
A partir de 1º de janeiro de 2025, a população de São João del-Rei vive um momento de enorme euforia. Nesses quase cinco meses da nova administração municipal, o povo tem visto o que há muito não via: o Sr. Prefeito e Vice-prefeito circulando por toda parte, apresentando-se tranquilamente em meio à gente, como moradores de qualquer da cidade, numa clara demonstração de que a Prefeitura está trabalhando. E o povo está sentindo isso, o que é muito importante. A realização do Carnaval, a beleza da Semana Santa com as ruas enfeitadas, a rigor, e até do Festival da Serenata são uma demonstração de que se pode fazer algo para o povo e com o povo, com o dinheiro que também é do povo. Todos torcem para que o entusiasmo da administração não se arrefeça e que o povo possa continuar sonhando com dias mais venturosos para sua cidade que merece cuidado. Enorme euforia.
Outra realidade tem mexido com nossos sentimentos. Agora, entretanto, sentimentos de dor. E lágrimas, se possíveis, de amargura. É que há muito não se ouve uma música, não se escuta um canto, menos ainda um cantor, que se refiram aos dias da mais vergonhosa ditadura por que passa nossa gente, a ditadura do judiciário supremo do país. Não me lembro de, nos últimos quarenta anos, ter tido tão presentes, em minha mente, aqueles versos admiráveis: “Você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão, não”... “A minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão...” “Todo esse amor reprimido, este grito contido”.... “Você que inventou o pecado esqueceu-se de inventar o perdão”... “Você que inventou a tristeza”... Que retrato profético teve o autor dessa letra. Entre nós há gente que gostaria de ver implantado no país o regime imperialista, um rei, um soberano senhor. Desconfio, porém, que tais pessoas não se referissem ao tipo de governo imperialista que temos tido. Não se referiam ao tipo de imperador que temos. É muita tristeza, para quem nasceu antes da Segunda Guerra Mundial, ter de viver com esse sistema de governo, com esse tipinho de imperador. Resta-nos a esperança que nos leva a cantar: apesar de você... em possível euforia.
Terceira sorte de sentimentos: aqueles oriundos de uma enorme perda, seguida, entretanto, de uma grande conquista. Francisco faleceu. Leão XIV está presente. Com a morte, Francisco foi celebrado em todos os matizes de cores. Foi decantado nos mais variados ritmos musicais, desde o seu eternizado tango até naqueles garantidos por atabaques e afoxés. Por mais que poucos não queiram, Francisco será eternizado pela simplicidade e audácia com que levou seu pontificado, professando radical adesão ao Evangelho de Jesus. E agora Leão XIV, nome que retoma o compromisso da Igreja com a justiça social. Nome de quem, por ser forte, desdenha qualquer manifestação de força. Nome de quem, por ter uma linda história, sabe que o presente pode lhe ser fecundo. E dessa fecundidade poderemos participar se agirmos, lembrados das primeiras palavras do novo Papa, “de mãos dadas com Deus, e uns com os outros”, quais “seres ressuscitados”, conscientes de que nosso tempo já não é o mesmo “de dez, vinte anos atrás’. Esperançada euforia.
Marta e Maria
30 de Abril de 2025, por João Bosco Teixeira 0
“Estando em viagem, entrou numa aldeia e certa mulher, chamada Marta, recebeu-o em sua casa. Sua irmã, chamada Maria, ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra. Marta estava ocupada pelo muito serviço. Parando, por fim, disse: “Senhor, a ti não importa que minha irmã me deixe assim sozinha a fazer o serviço? Dize-lhe, pois, que me ajude. O Senhor, porém, respondeu: ‘Marta, Marta, tu te inquietas e te agitas por muitas coisas; no entanto, pouca coisa é necessária, até mesmo uma só. Maria, com efeito, escolheu a melhor parte que não lhe será tirada’”. (Lc 10, 38-42)
Que passagem desafiadora de nossa compreensão! Quanta gente teria vontade de falar com Jesus: mas se Marta não cuidasse das coisas, comida, hospedagem e tudo mais, o Senhor não teria nada disso de que necessitaria. Quem pensasse assim, teria uma multidão a seu lado, não? E, no entanto, “Maria escolheu a melhor parte que não lhe será tirada”.
A gente se põe a imaginar. Maria poderia estar buscando na contemplação uma fuga da realidade. Só que Jesus garante que ela escolhera a melhor parte, “... que não lhe será tirada”. Marta, atarefada com as coisas da casa, poderia estar buscando na inquietação uma fuga do verdadeiro foco de sua vida, que era Jesus, o único necessário.
Como ficamos? A solução nos vem se se considera que é preciso buscar, na vida, o verdadeiro e criterioso discernimento espiritual. Tarefa difícil, pois, mesmo com a melhor das intenções, a gente pode se enganar nessa busca. Imaginemos uma situação: em casa tudo preparado para se ir para uma celebração eucarística. De repente, chega uma visita amiga. Qual a melhor saída para tal situação? Onde estará “a melhor parte”? Qual será “a coisa necessária? ” Que decisão tomar sem que se fique com sentimento de culpa?
Entendo que numa situação, como a acima criada, é que a pessoa poderá dizer para si mesma se tem clareza sobre qual princípio unificador ela tem para sua vida espiritual. Se a sua preocupação for o seguimento de Jesus, ela tomará uma decisão. Se sua preocupação for a observância de um mandamento da sua Igreja, a decisão será outra. Falando como cristãos, tal pessoa deverá ter como princípio unificar o seguimento de Jesus. E, então, a solução é transparente: a celebração eucarística consistirá na acolhida ao irmão que veio visitar. Se tiver como princípio unificador a obediência a uma norma humana, talvez peça desculpa à visita dizendo que estava saindo para a missa.
As coisas não são assim matemáticas. Já se sabe. Mas também não se resolvem se não se busca, se não se tem clareza sobre com quais coisas a própria vida está de fato comprometida, qual o princípio unificador das próprias ações.
A verdade é que muitas vezes somos Maria, outras somos Marta. Não tem importância. Importante é conseguir encontrar a razão de ser Maria ou Marta. Importante é conseguir ordenar, definir princípios fundamentais orientadores de nossas ações.
Entendo que com o passar dos anos a gente vá caminhando para uma unidade maior, rica de coerências e consequências. Os anos nos dão a garantia de que na vida há não só momentos e momentos mais e menos importantes, como verdades e verdades maiores e mais definitivas. Por isso, as palavras de Jesus dirigidas a Marta não são uma censura pela censura. São uma amável advertência para que ela possa reconhecer qual o real rumo de sua opção. Ninguém imagina que Jesus não gostasse igualmente de Marta.