Volto a falar de ENSINO. Volto a carregar as tintas sobre a figura do professor.
Começo por declarar algo sobre o que não tenho dúvidas: não consigo nem sequer imaginar como seja possível um professor falar, durante cinquenta minutos, sobre qualquer matéria e pretender que adolescentes prestem atenção, calados. Um grupo de adolescentes silenciosos, ouvindo seja lá o que for, durante tanto tempo, não é possível. Nada na vida diária deles exige isso. Estão sempre a falar, a interagir, a discutir, a brigar, a gozar um do outro¸ em continuada e ruidosa convivência.
Batalho por uma metodologia de aprendizado em grupo, em que os alunos possam falar, devam falar e, o que é mais importante, aprendam uns com os outros. E parece-me possível organizar tal sistema de aprendizado.
Imagino um professor de português que tenha, durante a semana, quatro aulas de cinquenta minutos com seus vinte e cinco alunos. Tal professor teria à sua disposição duzentos minutos por semana; oito minutos para cada aluno. Se tal professor dividisse seus alunos em grupos de cinco, cada grupo teria com ele, por semana, quarenta minutos. Eis uma questão: será que 40 minutos por semana, com grupo de cinco, não seria melhor que 200 minutos com grupo de vinte e cinco?
Vamos em frente. Constituídos os grupos, heterogêneos do ponto de vista de capacitação para o aprendizado, as aulas se desenvolveriam com os grupos apresentando ao professor o resultado de seus estudos. As primeiras aulas seriam dedicadas a duas questões fundamentais: a apresentação da metodologia de trabalho e o conhecimento do texto utilizado para o aprendizado. Discutida a questão e a formação dos grupos, o trabalho teria início e possíveis dificuldades surgidas nos grupos seriam objeto de intervenção do professor ou de algum grupo que tivesse a solução para o problema (tudo centrado no aprendizado dos alunos, lembrados de que o aluno é quem aprende e o professor, possível facilitador do aprendizado).
Podem surgir dificuldades? Sem dúvida, de toda espécie. Dificuldades na formação dos grupos, na administração do tempo em sala de aula, pois, quando o professor está num grupo verificando o aprendizado, os outros grupos estarão se dedicando a resolver as propostas do livro-texto; dificuldades com certa “indisciplina”, absolutamente compatível com a idade dos alunos; dificuldades por parte de outros professores; dificuldades com as famílias dos alunos e daí para frente.
É evidente que, para se adotar tal metodologia, toda a escola precisa se envolver. Numa escola em que não se acredita que o aprendizado em grupo é muito mais possível que a passividade diante de uma pessoa que fica falando sem que haja possibilidade alguma de verificar se outros estão escutando, em tal escola não convém intervir. Numa escola em que não se acredita que o aluno é quem aprende e não o professor quem ensina; numa escola em que a disciplina, entendida como silêncio, seja a coisa mais importante, então é deixar o professor falar, os alunos em silêncio, mesmo que respeitoso, fingindo que aprendem.
Mil vezes alguns problemas com uma metodologia de ensino que preveja bons resultados, que nenhum problema com uma metodologia que se sabe ofensiva da constituição psíquica dos alunos.
Aqui mais uma vez: quase tudo depende do professor para que o aprendizado aconteça, sem que a escola impeça a seus alunos uma vida saudável.