Era a grande festa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Padroeira maior da Ordem Terceira de São Francisco. Tudo concorria para a grandeza da Missa Solene, das nove horas e quinze minutos, conforme centenária tradição. Em São João del-Rei, mesmo quem não quer, vive até da tradição. Pela menos parte dos cidadãos, aqueles orientados e informados pelas dezenas de toques de sino.
Desde o alvorecer o dia era festivo. E quarenta minutos antes da celebração eucarística os sinos da igreja de São Francisco já convocavam os fiéis, muito embora a missa se devesse celebrar na igreja do Carmo.
Com receio de não obter lugar para a participação na celebração devidamente acomodado, antecipei minha hora de chegada à igreja. Sobravam muitíssimos lugares, então. Até o início da celebração, muitos espaços foram preenchidos, sem, todavia, ocupar cinquenta por cento de sua capacidade. A festa da Imaculada não compete, popularmente, com aquelas do Carmo, Mercês e da Boa Morte de Maria.
A Orquestra tocou a ABERTURA, composição do são-joanense Geraldo Barbosa de Souza. Peça músico-operística a fazer inveja a muito compositor clássico. Era o prenúncio da Missa de Francisco Manoel da Silva, cujo ducentésimo trigésimo aniversário de morte se comemorava.
Francisco Manoel viveu trinta anos. O suficiente para compor uma missa de grande envergadura. E orquestra e coro, acompanhando o impulso e vitalidade de seu regente, interpretaram a partitura musical, colaborando para a grandeza da celebração. Só não obtiveram correspondência por parte do celebrante e mesmo por parte do proclamador do evangelho. Este, ao cantar, parecia sair de um tom menor e concluir num maior. Aquele, destituído de qualquer competência musical, sequer soube entoar o Glória e, menos ainda, o Credo.
Na assembleia, durante o longo canto do Glória, três cenas notáveis. Primeira delas desempenhada por um senhor, certamente nos seus mais de setenta nos. Entrou na igreja, já iniciada a celebração. De roupa destituída de qualquer relação com a solenidade do momento – uma bermuda branca, camisa de igual cor, trazia preso à cintura o enorme celular, fazendo lembrar as armas carregadas pelos justiceiros de tempos idos. O respeitável senhor, sem tomar conhecimento de quanto ocorria, andava pela nave central, cumprimentava aqui uma pessoa, ali outra; foi até a capela-mor de onde, em pose, fotografou o sr. Bispo e sua coorte composta de vários sacerdotes e coroinhas que circundavam o trono episcopal.
Outra figura dividia a atenção dos fiéis durante o canto do Glória que, na verdade, insistia em não terminar: vinte e cinco, trinta minutos. Um pobre senhor, menor idade que a do anteriormente citado, subia e descia a nave central, suplicando uma esmola dos presentes. Ia e voltava, insistentemente. Seu entusiasmo competia com o da orquestra. Os resultados, no entanto, pareciam inferiores.
Ainda uma cena. Pela demora do canto do Glória, uma senhora, nada jovem sem aparentar velhice, deixou seu lugar e com gestos largos de impaciência justificava sua saída da igreja, ao se apontar para o coro da igreja.
Na paróquia de Nossa Senhora do Pilar, cujas longas celebrações lembram tempos em que o povo tinha na liturgia sua diversão, as confrarias, arquiconfrarias, ordens terceiras e quejandas, garantem público, tradicional. E tudo é possível.