Há certas horas, em nossas vidas, em que a gente se pega a recordar. “Recordar é viver”, como dizia a velha marchinha carnavalesca. Mas, há recordações e recordações.
Há aquelas que surgem qual uma imposição. Uma necessidade. Para que a gente se recorde de que é preciso insistir no viver.
Há outras que emergem para que a gente se console com êxitos obtidos e, assim, não se deixe vencer por desânimos descabidos.
Há antigas que nos vêm para que a gente entenda que, por maior que seja o passado, seja nas suas alegrias seja nas suas tristezas, ele não pode determinar o presente.
Há, também, despretensiosas que trazem consigo alegrias iluminantes, que engordam emoções. Semana passada vivi uma dessas.
Impossibilitado de pegar meu carro e sair em direção de Oliveira, comprei passagem na São Cristóvão e lá fui eu. Sentado na poltrona três, era tomado de tanto desejo de usufruir da viagem que deixei o livro, em leitura, fechado dentro da bolsa. E prazerosa se tornou a viagem, com a visão solta para os campos, para as colinas verdejantes, caídas as primeiras chuvas. E gente, variada em tipo e cor, a entrar e sair do ônibus, com mais e menos sacolas, sob os braços e presas ao corpo, e até criança de colo, lindamente aconchegada pela jovem mãe, despedida já dada à avó que ficara pela calçada. Cenas de antanho, revividas em novas manifestações.
E lembrei-me de Vicente, o motorista que, durante trinta e mais anos, comandou aquela viagem no trecho São João-Divinópolis.
Dotado de humor inigualável, percorria ele a estrada de terra na maior alegria, divertindo seus passageiros com mil e uma estórias sobre acontecimentos nas viagens diárias que fazia. E mais, prestava enorme serviço aos moradores do trajeto, levando recados, cartas, objetos e até pequenas aves para entrega e, também, para resposta. A viagem com o Vicente, do ponto de vista da duração no tempo, não se podia prever, sobretudo sob chuva. No entanto, era fácil suportá-la pela invejável disposição e vivacidade com que ele enfeitava os feitos e desfeitos que protagonizava. Recordação muito viva.
A estrada hoje é tão diferente no seu aspecto físico. Toda asfaltada, passa por linda região montanhosa, ocupada já, em boa parte, por ricas plantações, parreirais em flor e fruto.
De particular detalhe se revestiu a passagem por Ritápolis, a antiga Santa Rita. Abandonada a rodovia 494, em trevo ornamentado com a figura pétrea de Santa Rita, o ônibus seguiu caminho para o centro da cidade, já, então, começando a enfrentar os vinte e sete quebra-molas que ultrapassaria até chegar, lá no alto, para novamente pegar a rodovia. Esse percurso, que não sei se atinge três quilômetros, o ônibus o fazia como se fosse um ônibus urbano. Paradas e mais paradas, nove ao todo, acolhendo e deixando passageiros, agradecidos, pelas ruas que se sucediam, morro acima, ladeira abaixo, em curvas e retas. Lentamente o ônibus percorria todo o centro da cidade; subia e subia. Nas ruas estreitas, era possível encontrar veículos estacionados nos dois lados da rua, dificultando a passagem do ônibus grandalhão. Havia esquinas que exigiam do motorista ou uma dupla manobra ou a subida na calçada para que pudesse alcançar a rua seguinte. Gente não faltava no curto e longo trajeto. As pessoas pareciam estar contemplando a vida a passar.
São Tiago logo a seguir, Morro do Ferro um pouco depois, tudo compunha um itinerário lindo, carregado de recordações, que culminaria na simpática e cativante Oliveira.
Ritápolis, no entanto, foi mais que uma recordação.