Terceirização de serviços e obras públicas em Resende Costa
19 de Maio de 2021, por Edésio Lara 0
A terceirização de serviços foi uma estratégia utilizada pela indústria bélica norte-americana durante a Segunda Guerra Mundial, a fim de se dedicar, exclusivamente, à produção de armas e munições. Cuidar da limpeza, restaurantes e da manutenção de prédios, por exemplo, consideradas atividades secundárias, deixaram de ser realizadas por empregados próprios. Esses serviços passaram a ser feitos por empresas especializadas, contratadas para esses fins. Vejamos um exemplo muito próximo da nossa realidade. Uma agência bancária tem seus funcionários para tratarem especificamente dos serviços de atendimento aos clientes, de tesouraria, caixa. Por outro lado, as responsabilidades pela segurança interna das agências, transporte de valores, manutenção de máquinas, caixas eletrônicos e da faxina são transferidas para empresas especializadas. Assim, a contratante cuida, especificamente, do seu negócio principal.
Na década de 1980, a terceirização de serviços se intensificou e passou a ser empregada, com destaque, pela indústria automobilística. Foi quando surgiram pequenas empresas próximas às grandes montadoras de automóveis para lhes fornecerem, em tempo hábil, com qualidade e bom preço, as peças necessárias para a montagem final do veículo. Certo é que uma fábrica de automóveis não fabrica, não produz peças automobilísticas: somente reúne aquilo que encomendou a seus parceiros para comporem o veículo que vai ser colocado à venda nas concessionárias.
Posteriormente, na década de 1990, a prática de terceirizar serviços chegou, e de forma intensa, ao serviço público, seja ele federal, estadual ou municipal. Uma escola pública, por exemplo, que antes tinha todos os trabalhadores como efetivos, começou a terceirizar aqueles serviços que não tinham ligação direta com a tarefa de ensinar. Faxineiras, cantineiras, porteiros e seguranças passaram a figurar na lista daqueles que poderiam ser contratados de empresas parceiras, sendo exigido desses empregados o empenho e o comprometimento com a razão de ser do educandário.
Atualmente, presenciamos um típico sistema de terceirização de serviços, os quais estão à mostra nas ruas de Resende Costa. Recentemente, os trabalhos de ampliação da rede de esgoto na cidade, paralisados há muito tempo, foram retomados. Incumbem-se da tarefa trabalhadores de empresa contratada para esse fim. Eles não são do quadro de efetivos da Prefeitura Municipal, muito menos da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), que identificamos através dos uniformes e veículos que usam para fazer instalação e reparos nas redes de água e esgoto, leitura de hidrômetros e atendimento ao público, tendo sua sede localizada na Praça Mendes de Resende. Dedicam-se, pois, e fundamentalmente, às tarefas principais da companhia de saneamento, que é de atendimento ao público.
Não por culpa dos trabalhadores das empresas terceirizadas, mas, talvez por questões relacionadas ao gerenciamento das obras, muitas pessoas andam contrariadas. Feitas parceladamente, a sua descontinuidade tem deixado ruas esburacadas e extremamente empoeiradas.
Diariamente, muitas mulheres são vistas jogando água sobre a terra solta, com o intuito de evitar que o movimento de carros ou o vento lancem para o interior de casas e de lojas o indesejado pó. São roupas do corpo, de cama, mesa e banho, automóveis, livros, eletrodomésticos, gêneros alimentícios e os próprios imóveis que estão numa imundície. Além disso, e agravado pelo clima seco do outono, há o desconforto aos que sofrem com as crises alérgicas, com os males do sistema respiratório provocados pela poeira.
O que se ouve continuamente nas ruas é: Meu Deus, até quando isso vai durar? Eles, os trabalhadores, vêm, fazem uma parte do serviço e depois somem. Muito tempo depois retornam, fazem mais alguma coisa e desaparecem de novo. Por que não fazem tudo de uma vez?
Certo que isso não é culpa de quem está na linha de frente do canteiro de obras, contudo na gerência geral desses serviços. Como se vê, nem tudo são flores quando nos referimos à terceirização de serviços.
El sol de Sevilla
14 de Abril de 2021, por Edésio Lara 0

Partitura de El sol de Sevilla (arquivo Edésio de Lara Melo)
No último mês de março, o historiador Olinto Rodrigues dos Santos Filho publicou um texto no Facebook da paróquia de Nossa Senhora da Penha de França, da nossa cidade. Nele, Olinto destaca os trabalhos de restauro do retábulo do altar-mor da matriz, que vem sendo realizados desde 3 de novembro do ano passado. A obra fundamental, devido ao estado crítico de conservação em que o retábulo se encontrava, custeada pela prefeitura municipal em parceria com a paróquia, foi aprovada pelo Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura. Apoiado em pesquisa realizada, basicamente nos livros de tombo da paróquia, o historiador relaciona uma série de eventos ocorridos desde meados do século XVIII até o momento. Lá estão, bem delineadas, ações promovidas por religiosos e parte significante da sociedade local que se empenharam na construção da igreja, aquisição de bens materiais, tais como imagens de santos, pinturas e objetos diversos de grande valor e de uso contínuo do sacerdote e de seus auxiliares.
Algumas informações chamaram a minha atenção: são as que destacam a atuação de sacerdotes e de músicos quando do estabelecimento da paróquia no Distrito da Lage, ocorrida em 1840. Naquela época, o distrito, instalado em 1836, pertencia à Vila de São José do Rio das Mortes (Tiradentes). E era de lá que vinham os padres e os músicos para atuarem em cerimônias tão apreciadas pelos católicos e realizadas ao longo de cada ano.
Santos Filho aponta que, em 1848, Francisco de Souza foi contratado para organizar a música para a Festa de Passos e José Joaquim do Nascimento, em 1852, para exercer a mesma função na Celebração de Passos. Somente na segunda metade do século XIX, de acordo com os documentos de que dispomos, é que começaram a surgir os músicos nascidos na Lage capazes de atuar como maestros, compositores, instrumentistas e cantores e também de atender às demandas surgidas no lugar, tais como as cerimônias promovidas pelas irmandades no âmbito da Igreja Católica ou em festas populares.
É importante dizer que não só da música sacra se incumbiram os artistas naquela época. Os mesmos músicos que cantavam e tocavam na igreja eram os que saíam pela vila a fazer serenatas, participar de saraus, tocar em bailes realizados em ambiente familiar, quando as moças dançavam sob olhares atentos dos pais, principalmente. Parte significativa de material musical impresso, como valsas, tangos, boleros, maxixes, vinha de fora, era produzida no exterior. Quase sempre, sua circulação se dava por meio de cópias feitas por copistas.
Querem um exemplo? Há no arquivo deixado pelo maestro Joaquim Pinto Lara uma das partituras de música mais antigas que temos na cidade. Trata-se de El sol de Sevilla, obra composta para canto e piano, manuscrito assinado por Neto em trabalho realizado na Lage no dia 13 de outubro de 1875. A música é do espanhol Sebastián Iradier Salaverri (1809-1865), que se tornou conhecido pelas suas habaneras. A habanera, uma dança canção cubana, é assim conhecida em virtude da sua associação ao nome da capital de Cuba. Esse gênero, de andamento moderado, mais lento, conquistou o gosto de espanhóis e franceses ao longo do século XIX. Pelo visto, dos brasileiros também.
Observando as datas, o trabalho do copista na Lage se deu exatamente dez anos após a morte do compositor. O manuscrito, com medidas 34 x 32 centímetros, escrito a tinta, apresenta desgaste natural do papel, merecendo tratamento adequado e guarda permanente. Ele é testemunho claro de que no Distrito da Lage, além da música para o cerimonial litúrgico ou paralitúrgico, praticava-se também a boa música profana da época.
Por fim, ficam perguntas no ar: quem foi o copista Neto? Qual casa, ou fazenda da Lage possuía um piano para que a música pudesse ser interpretada? E mais: Quem cantou e quem se ocupou de tocá-la no piano? Teria sido o copista Neto o cantor ou o pianista? Historiadores, musicólogos ou outros pesquisadores podem, em algum momento, responder essas perguntas. Se nos dedicarmos ao estudo do que nos resta de documentos antigos, passaremos a conhecer mais e melhor sobre as nossas origens.
Água tratada e estrada asfaltada: fatos marcantes para Resende Costa acontecidos na década de 1980
17 de Marco de 2021, por Edésio Lara 0

Faixa em homenagem à família Penido estendida na praça Cônego Cardoso que recebeu centenas de pessoas para a inauguração da rodovia (foto arquivo Toninho Melo)
No início da década de 1960, não tínhamos água tratada nem energia elétrica de qualidade em Resende Costa. Contar com a “luz da Azevedo”,que mal dava conta de fazer funcionar rádios e acender lâmpadas em certos momentos do dia, não era para todos. Tudo começou a melhorar quando a antiga distribuidora de energia deu lugar à Cemig, em 1962. Somente 20 anos mais tarde é que a questão do abastecimento de água começou a melhorar com a instalação dos serviços da Copasa na cidade, três anos depois de contrato assinado entre a Prefeitura Municipal e a empresa, o que ocorreu em 1977, quando Ocacyr Alves de Andrade (Cici da Candinha) tomou posse como prefeito municipal.
Conquistar obra de envergadura como essa, para uma cidade tão pequena, foi uma tarefa que exigiu habilidade dos eleitos para ocupar cargos no Executivo e no Legislativo municipais a partir da data citada. Empenharam-se, além do prefeito, todos os vereadores, com destaque para Antônio Pedro da Silva Melo (Toninho Melo, presidente da Câmara Municipal) e José Carlos de Souza Vale (Carlos da Santa). Mas,como não podia ser diferente, o estimado Padre Nelson Rodrigues Ferreira também entrou em cena. Esse quarteto foi atrás daqueles que poderiam abraçar a ideia de resolver o problema do abastecimento de água na cidade, abrir nova estrada e asfaltá-la em direção a São João del-Rei: os irmãos Penido, donos da Construtora Serveng-Civilsan, políticos influentes da família de Bonifácio Andrada, da cidade de Barbacena, e Francelino Pereira, governador do estado.
Para a questão da água tratada, um fator contribuiu para que o projeto desse certo. O presidente da Copasa naquela época era William Sebastião Penido Vale, primo do Carlos da Santa.Sendo membro da família Penido, ele concordou, prontamente, em receber os três políticos de Resende Costa na sede da Copasa, localizada na Praça da Liberdade em Belo Horizonte, sem que soubesse o motivo da visita. No dia combinado, os resende-costenses fizeram uma jogada de mestre: passaram pela residência do Sr. Elviro – tio do Carlos da Santa e pai do presidente da Copasa – localizada no bairro Santo Antônio, e pediram que ele os acompanhasse.No belo prédio da estatal, quando William Penido se deparou com o grupo, foi logo dizendo: “Uai, pai, o que o senhor está fazendo aqui?”. O pai respondeu: “Meu sobrinho passou lá em casa e me convidou”. Teve início, naquele momento, o processo de implantação dos serviços de captação, tratamento e distribuição de água em Resende Costa.
Paralelamente à questão da implantação dos serviços da Copasa, havia outra demanda do grupo: a abertura e o asfaltamento de uma nova estrada. A via que usávamos continuamente é a que sai da Rua São João del-Rei, no Pau de Canela, passa pela cidade de Coronel Xavier Chaves até chegar ao trevo e tomar destino para centros maiores, como Belo Horizonte, por exemplo. Não era uma viagem segura e confortável, visto que, durante o verão e com chuvas intensas, era difícil vencer aclives acentuados com os ônibus e automóveis precários daquela época.Por vezes, amarravam-se correntes nos pneus dos veículos na tentativa de superar os deslises deles quando em contato com o solo barrento e escorregadio. Isso nem sempre dava certo. Era preciso lançar mão das famosas baldeações ou desistir da viagem.
Muitos vão se lembrar da famosa cava amarela que se transformava em barreira quase intransponível quando chovia muito. Todo ano, gastava-se dinheiro para jogar cascalho, consertar mata-burros, refazer pontes de madeira e dar uma “patrolada” na estrada de chão. Mais ainda, quando não era chuva, o desgaste vinha com o excesso de poeira em tempos de seca.Para termos estrada asfaltada, os Penido foram decisivos quando abordaram o governador Francelino Pereira, que autorizou a realização dos serviços. Assim sendo, em 20 de março de 1981, os jornais da região noticiaram a inauguração dos 14 km da nova estrada que ligava nossa Resende Costa à MG383.Ao cortar a fita de inauguração da obra, Francelino Pereira e Ocacyr Alves de Andrade sinalizaram a chegada de novos tempos para a cidade.
Estrada asfaltada e o desenvolvimento da cidade
18 de Fevereiro de 2021, por Edésio Lara 0

Entrada da cidade com a avenida Alfredo Penido, a conhecida Avenida do Artesanato, asfaltada, no início da década de 1980 (Foto: arquivo Toninho Melo)
Em 1981, Resende Costa estava em festa, não sem razão. Enfim, uma nova estrada asfaltada havia sido construída para benefício dos que sofriam com a precária estrada de terra que nos ligava a Coronel Xavier Chaves e São João del-Rei. As más condições da estrada, até aquele ano, eram como uma barreira para o pleno desenvolvimento do nosso município. A estrada asfaltada tornou-se, portanto, uma necessidade. Para resolver o problema, sentaram-se à mesa o prefeito municipal, o pároco, o presidente da Câmara Municipal e, posteriormente, o governador do estado e os irmãos da família Penido, daqui de Resende Costa, proprietários da empresa de construção civil Serveng Civilsan. Inaugurada a estrada, o ir e vir se tornou mais seguro, rápido e confortável para os viajantes. Aquela foi uma obra que não contrariou nem foi tida como desnecessária por ninguém. Não houve protestos, só elogios.
Bem construída, com pista mais larga e com traçado bom, a estrada fez com que o número de visitantes crescesse. E foi nessa época que os olhares se voltaram para uma atividade que envolvia muitos resende-costenses: o artesanato em tear. Os trabalhos bem feitos começaram a ser mais bem apreciados pelos que aqui vinham a passeio ou a negócio. E, aos poucos, muitas pessoas começaram a se interessar por aprender a tecer colchas, jogos americanos, caminhos de mesa, tapetes e toalhinhas, principalmente. A arte de tecer foi sendo passada de pais para filhos, ou mesmo entre amigos ou de uma vizinha para outra, de forma a atender a demanda crescente pelo artesanato local. Os relatos dos atuais artesãos comprovam isso. Por isso mesmo, muitas casas, além do mobiliário básico de uma moradia, passaram a ter pelo menos um tear. É certo que em muitas delas há dois ou mais teares que servem aos seus moradores. Aquela atividade pequena, que envolvia poucas pessoas, tornou-se grande tanto em volume de produtos artesanais quanto em pessoas envolvidas na sua produção e comercialização.
Ao longo desses anos, nós nos acostumamos a ver pessoas sentadas do lado de fora de suas casas, conversando animadamente e enrolando novelos de retalhos. Enquanto isso, outros estão nos seus teares, tecendo ou dando o acabamento final aos produtos antes de serem colocados à venda. Por fim, vemos pessoas de todas as idades carregando o resultado do trabalho para entregá-lo a lojistas ou a viajantes que aqui vêm em busca desses produtos artesanais para vendê-los noutros locais. E há ainda quem se dedica em enviá-los pelos Correios a outras cidades do Brasil, e até do exterior, devido às vendas feitas pela internet.
Muita coisa mudou nesses quarenta anos. A cidade cresceu, está diferente daquela da década de 1980. A pequena Resende Costa, cujos limites não ultrapassavam o campo de futebol dos Expedicionários e dos cruzeiros do Tijuco e do Pau de Canela, no fim da Rua São João del-Rei, ficou para trás. Surgiram novos bairros com construções que trazem a assinatura de arquitetos e engenheiros civis, o que era raro. Ampliaram-se, também, em virtude desse crescimento, serviços de saúde, restaurantes, pousadas, entre tantas outras atividades comerciais. A estrada asfaltada e a melhoria do poder aquisitivo da população refletiram-se até na qualidade da educação de estudantes universitários, que saem todos os dias para estudar na UFSJ ou no Uniptan, em São João del-Rei.
É comum ouvirmos dizer que em Resende Costa só não trabalha quem não quer. E isso é bem verdade. Todos trabalham. É comum ouvirmos ruídos vindos dos teares ainda de madrugada. Uns precisam produzir muito para atender à demanda, outros é porque têm, além da atividade com o artesanato, que assumir funções em demais serviços. Não é à toa que há pessoas que possuem até três frentes de trabalho, incluindo, evidentemente, a do artesanato. Enfim, em Resende Costa, as pessoas trabalham muito.
A demolição do casarão e a memória perdida
20 de Janeiro de 2021, por Edésio Lara 0

Antigo sobrado sendo demolido na rua Gonçalves Pinto, centro de Resende Costa (foto André Eustáquio)
No primeiro domingo deste ano, fui me encontrar com a Filomena. Ela completará 91 anos de idade no próximo dia 5 de fevereiro. Cheguei no horário marcado. Ela já me aguardava do lado de fora da casa, com um sorriso próprio dos que adoram a vida. Não por acaso, ela já planeja uma grande festa para o dia 5 de fevereiro de 2030, para celebrar seu aniversário de 100 anos de idade. Viúva e mãe de seis filhos, ela nasceu em Resende Costa. Filomena Andrade Lourdes Resende, porém, anda um tanto inquieta devido à pandemia do coronavírus que a impede de andar pela cidade, visitar amigos, ir à missa e cantar no coral do qual participa há mais de 70 anos.
Filha de José Luís de Lourdes (1882) – o Zequinha de Lourdes –, natural de Carmo da Mata (MG), e de Isbela Andrade Lourdes (1896), do Morro do Ferro, próximo de Oliveira (MG), teve oito irmãos, sendo seis mulheres do primeiro casamento do pai e dois homens do segundo casamento. Empreendedor, pelo que parece – ele era celeiro, mestre de obras e proprietário de uma jardineira que ligava nossa cidade a São João del-Rei –, construiu na cidade uma casa para cada uma das seis filhas do primeiro casamento. Entre elas, estão a da Pensão do Boqueirão, como é conhecida, e a do senhor Barbosinha, o farmacêutico. Ambas as casas localizadas na rua principal da cidade, a Gonçalves Pinto.
O imóvel que construiu para a família na década de 1920, localizada na Rua Gonçalves Pinto, número 114, está sendo demolido. Nessa casa, Filomena morou até os quinze anos de idade. Em 1945, seu pai a vendeu para o senhor Sylla Reis e quem nasceu nela foi o padre Fábio Rômulo Reis. Daquele tempo ela se recorda dos bons vizinhos: “Dona Maria Joaquina, biscoiteira, dos meus avós Quinzinho e Nhazinha e da enorme jabuticabeira que tinha no quintal.” Na fonte da chácara ela buscava água para beber, enquanto seus dois irmãos, João Batista e José Maria, ajudavam a mãe a cuidar das galinhas. Outra boa lembrança são os jogos de vôlei nas lajes de cima, quando os meninos ficavam à distância, deitados no chão apreciando-as, e ao jogo também, prontos para buscar a bola quando esta descia laje abaixo, principalmente em direção ao Buraco do Inferno.
Outra lembrança são as cenas das boiadas que passavam pela rua, sendo conduzidas em direção a César de Pina para, de lá, seguirem de trem de ferro em direção aos matadouros dos centros de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Os últimos moradores da casa de nº 114, na rua Gonçalves Pinto, centro de Resende Costa, foram o casal Aires Reis (Neném do bar) e Altair e seus filhos. Abandonada há alguns anos, os novos proprietários solicitaram autorização para promover a sua demolição. Isso agradou alguns e desagradou a outros. Os descontentes acham que o imóvel deveria ter sido tombado pelo Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura. Mas isso não foi possível. Outros não veem motivo para mantê-lo de pé, ante o estado precário de conservação em que se encontra.
Eu conheci bem esse casarão de cinco janelas e cinco portas de madeira na parte de baixo, onde funcionava a selaria. Quando menino, por vezes lá me encontrei com o Nenzito para formarmos um duo – eu na requinta, ele na clarineta – e tocar parte do repertório da Banda de Música Santa Cecília, da qual participávamos, ou os boleros, polcas e valsas como “Branca”, “Saudade de Matão” ou “Saudade de Ouro Preto”, de que gostávamos muito.
De décadas atrás, do lindo casario da Rua Gonçalves Pinto – que chamamos de avenida– não temos mais nada. Os que querem saber como era a rua e suas as casas devem recorrer aos relatos dos mais velhos ou às fotografias. Os mais velhos, também, da forma como recordou Filomena, lembram-se, saudosos, do footing – o andar para lá e para cá dos jovens –, momento precioso para o flerte. Sábados e domingos à noite, enquanto os rapazes caminhavam em uma direção, podiam cortejar as moças que vinham no sentido contrário.
Infelizmente, o casario que mereceria tombamento foi sendo substituído pelos atuais imóveis. O que havia de harmonia nas construções, com seus telhados característicos de quatro águas, janelas e portas de madeira, se foi. As ruas, avenidas e praças lindamente calçadas de paralelepípedos estão, a contragosto, sendo descalçadas ou cobertas por massa asfáltica. Quanto aos imóveis, algumas perdas são irreversíveis, como é o caso do casarão da Rua Gonçalves Pinto, 114.