Existem aquelas pessoas que são prejudicadas e vivem alegres, achando que estão bem. É o caso de Dom Quixote, por exemplo: racha o crânio contra moinhos de vento pensando que são gigantes, é ridicularizado por aldeãs que ele julga serem elegantes damas, perde alguns dentes achando que rebanhos são exércitos e até vê formosura em quem ele escolheu para Dulcineia. Apesar disso, ele se sentia adequado ao seu viver.
Por outro lado, há aquelas pessoas que são felizes, mas não sabem que são. E vivem reclamando da sorte. É o caso dos feios. Na verdade, o feio é feliz. E vou além: o feio é mais feliz do que o bonito.
O bonito não tem paz, pois é cheio de inimigos: o tempo, a idade, os invejosos, o outro bonito... Já o feio não tem essas preocupações. Se o tempo passa, se ele fica mais velho... que diferença faz?
O feio não tem nada a perder. Quanto aos invejosos, quem tem inveja de feio? Além disso, um feio jamais é inimigo de outro feio; são até solidários, como se fossem os únicos que falassem o mesmo idioma numa nação estrangeira.
O bonito sempre se artificializa. Quando vai tirar retrato, estufa-se como um pavão, pois tem que sustentar a beleza. O feio não. Quando tira retrato, ele se naturaliza, isto é, apenas olha para a câmera e espera o click. Enquanto o bonito corre ansioso para ver a foto, e muitas vezes se frustra com o resultado dela, o feio nem olha para o que está lá. Suas expectativas são sempre tranquilas.
Para o bonito, o espelho é sempre uma ameaça; para o feio, o espelho ou é confirmação ou é esperança. Enquanto que, para o bonito, o elogio é uma cobrança de sempre estar belo, para o feio o elogio é um alerta de sempre ser humilde. Se ninguém nota o bonito, suas angústias o devoram; se o feio não é notado, ele até agradece.
Até mesmo no campo econômico o bonito sai prejudicado: cabeleireiros, manicures, shampoos, cremes, pastas e demais produtos de beleza. Por sua vez, a feiura é econômica: não existem produtos de feiura e nem é preciso gastar com profissionais pagos para tornarem feia uma pessoa.
Ai dos bonitos!... Estão condenados a uma tarefa de Sísifo: não podem jamais parar de rolar sua beleza; caso contrário, a beleza os esmaga.
Felizes os feios, pois cada dia lhes basta.
Bem que Mateus, ao escrever o quinto capítulo de seu evangelho, enquanto Cristo pregava o Sermão da Montanha, poderia ter dado ouvidos ao cochicho daquele feio agachadinho e atento ao seu lado, ouvindo o Divino Mestre:
– Bem-aventurados os que nada esperam, pois jamais serão decepcionados!