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Conversa com Doutor Tancredo

25 de Abril de 2015, por José Venâncio de Resende

Tiradentes (de costas) e Tancredo (ao fundo), no centro de São João del-Rei.

No centro da cidade de São João del-Rei, destacam-se duas estátuas - de Tiradentes e de Tancredo Neves -, uma de frente para a outra. Muito sugestivo! Ambos morreram no dia 21 de Abril.

Tiradentes foi enforcado, em 1792, na luta contra a opressão da coroa portuguesa, que queria arrancar mais impostos dos mineradores de ouro do Brasil, em especial de Minas Gerais, para encher seus cofres. Tancredo sacrificou sua vida, em 1985, na luta para garantir a transição da ditadura militar para a democracia, sem que houvesse retrocesso.

Se vivos estivessem, o que estariam fazendo? Uma coisa é certa: estariam lutando pelos ideais de liberdade e de justiça social, contra a corrupção (desvio do dinheiro público) e a “opressão” do Estado sobre os cidadãos (desequilíbrio entre gastos sem controle e pesada carga de impostos).

Neste artigo, publicamos uma simulação de conversa com o “Doutor Tancredo” sobre os dias tumultuados que vivemos. Para isso, contamos com a valiosa colaboração do médico Euclides Garcia de Lima Filho, o Doutor Tidinho, cuja amizade com Tancredo remonta ao convívio das famílias Garcia e Neves no início do século passado.

Preliminarmente, é preciso dizer que a juventude e ascensão profissional e política de Tancredo Neves foram alicerçadas em três pilares: família, escola e igreja. “Foi criado numa família sólida e fundamentada no amor e no respeito à autoridade”, lembra Doutor Tidinho. Frequentou o tradicional Grupo Escolar (atual Escola Estadual) João Santos e o outrora conceituado Colégio Santo Antônio, administrado pelos frades franciscanos, onde além da cultura adquirida fortaleceu sua fé e sua devoção por São Francisco de Assis. Tanto que Tancredo se tornou irmão e, posteriormente, ministro da Venerável Ordem Terceira de São Francisco.

Na sua longa e profícua carreira, foi advogado, promotor público, vereador, deputado, ministro de Estado, primeiro-ministro (parlamentarismo), senador, governador e presidente eleito. Era considerado um homem de posições firmes, mais pelo exemplo que pela palavra. Tinha a virtude mais importante da vida pública, a coragem. “Tancredo era um homem de coragem, sóbrio e discreto, porque bravura não é bravata.”*

Diante desse histórico, a uma indagação Tancredo responderia que a degradação política e social com que este País se defronta nos dias de hoje decorre da desestruturação dos três pilares de sustentação da sociedade – família, escola e religião. As pessoas que têm neste tripé o sustentáculo de sua conduta de vida seriam incapazes de se deixarem corromper pela vaidade, pelo orgulho, pela ambição e pela mercantilização das atividades profissional e comunitária, como por exemplo o exercício da política.

O momento – advertiria Tancredo - exige, mais do que nunca, simplicidade, honestidade, patriotismo e sobretudo disposição para o diálogo. E acrescentaria: é preciso ouvir a voz das ruas e praças, saber interpretar o que diz o povo; dar o exemplo, com austeridade e zelo pela coisa pública; descentralizar o poder, dando mais autonomia aos municípios (financeira e de representatividade política); resgatar a dignidade e a nobreza do exercício da política; cultivar o espírito de convivência e de tolerância.

É preciso – enfatizaria ainda Tancredo – extirpar da sociedade a mercantilização da política. Ele certamente condenaria a “prostituição” do sistema partidário e defenderia partidos políticos mais representativos das tendências ideológicas predominantes. Defenderia a redução de ministérios e cargos de confiança, bem como a profissionalização das empresas estatais. Apoiaria – por que não? – o voto distrital (que fortalece os laços entre eleitores e eleitos) e – quem sabe – o parlamentarismo (um amortecedor de crises políticas), como parte de uma reforma política dentro do espírito da Constituição de 1988.

Tancredo teve papel político decisivo em vários momentos da vida nacional – como ministro da Justiça do segundo governo (eleito) de Getúlio Vargas, primeiro-ministro no curto regime parlamentarista que viabilizou a posse de João Goulart na década de 1960 e como um dos líderes das “Diretas Já”.

Certamente, hoje, Tancredo estaria trabalhando na “construção de pontes de convergência” entre a classe política e as lideranças das manifestações de rua. Até mesmo para preparar alguma saída alternativa a um possível fracasso da campanha pelo “impeachment” da presidente Dilma. Aliás, como na campanha das Diretas Já, quando ficou de prontidão para ser o candidato das eleições indiretas (escolha pelo Congresso Nacional), enquanto Ulisses Guimarães era o candidato dos palanques (por votação popular).

Doutor Tancredo é a voz do líder autêntico, que falta neste momento crucial da vida nacional.

*TANCREDO NEVES. O Pensamento Político Brasileiro, Fundação Ulysses Guimarães, Vol. 1. Acesso em: http://www.fundacaoulysses.org.br/uploads/acervos/10/pdf/1397141567-vol-01-tancredo-neves.pdf

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