O dito popular do título, mais que um simples dito, talvez seja um “aforismo”: expressão que significa e resume condutas e vivências de uma pessoa ou de uma sociedade. Um povo sem identidade baseada na sua história, sem respeito ao seu passado, às suas raízes e ao seu meio ambiente é povo que não tem alma.
Neste texto vamos tecer algumas considerações sobre o comportamento do nosso povo resende-costense, partindo da hipótese de que, no século passado, vimos perdendo gradativamente nossa história e o acervo de nossos bens culturais. Felizmente, também gradativamente, começamos a reverter esse quadro. Os movimentos culturais, o empenho da educação escolar, a preocupação com a preservação do nosso acervo cultural e ambiental e a participação da mídia nesse processo são a garantia de que estamos caminhando, devagar, mas corretamente.
Um olhar sobre o nosso passado nos estimula a prosseguir nessa difícil tarefa: nossa principal avenida descaracterizou-se quase totalmente, tornando-se a parte mais feia de nossas ruas e de seu casario; na década de 70 perdemos, calados, a metade de uma das duas maiores e mais bonitas praças da cidade; nosso Teatro Municipal perdeu, misteriosamente, a faixa de terreno de acesso às três portas da sua lateral, à esquerda; antigas e belas fazendas ou se desmoronaram (Fazenda dos Campos Gerais e Fazenda da Laje, ambas do século 18) ou foram demolidas para se vender suas portas, janelas e seu madeirame (Fazenda Palmital) ou estão em péssimas condições de conservação (Fazenda das Éguas), para citar apenas alguns casos; nossos cruzeiros ou simplesmente desapareceram ou estão em péssimo estado de conservação; a capoeira de Nossa Senhora da Penha continua gritando desesperadamente por uma recuperação e fechamento e... a ladainha de perdas e problemas parece não ter fim.
O pior é que todas essas perdas são irreparáveis. Para tentar estancar feridas abertas que vêm sangrando há anos, têm aparecido órgãos, grupos, associações, movimentos: o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural, a ONG IRIS, a AMIRCO e o MAC. São entidades oriundas da comunidade. Precisamos urgentemente erradicar o mau costume de esperar que o poder público tenha que resolver todos os nossos problemas. É bom lembrar que nos falta ainda um severo código de posturas municipais para disciplinar o grande crescimento da cidade.
Há algum tempo atrás falávamos com orgulho: “nossa cidade é a cidade do artesanato”, com o atrativo dos preços baixos; hoje, vai desaparecendo a figura dos artesãos, substituída pelo comércio atacadista de artigos dos artesãos de outras cidades, estados e países... e os preços... bem, naturalmente vão subindo e afastando os turistas, que procuram o artigo artesanal mais barato. Uma forma de se incentivar o artesanato seria investir na formação de artesãos.
Muitos de nossos conterrâneos, à vista dessa reviravolta, que passa a ser lucrativa para uma minoria, sugerem que deveríamos investir no desenvolvimento do turismo, que é a marca principal da nossa região. Boa ideia. Mas é preciso agilizar esse sonho, antes que desapareçam os poucos pontos turísticos existentes.
Vou apontar aqui um ponto importante, que envolve turismo e história: a recuperação dos “restos mortais” das ruínas da fazenda dos Campos Gerais. O JL visitou recentemente o local. Trata-se de um dos pontos mais importantes de nossa história: ali viveu o inconfidente (e seus descendentes) que deixou seu nome ao nosso antigo arraial. O complexo das ruínas está bem perto da cidade: exatos 8 km. O acesso está bem conservado. A paróquia está de parabéns pelo cuidado com a capelinha de Nossa Senhora do Carmo: o espaço da paróquia está limpo, a capelinha pintada de novo. Mas há um monstrengo quase encostando-se na capela. As ruínas estão cobertas por um enorme matagal. Que tal o Poder Público, de comum acordo com o proprietário do terreno, não recuperasse aquelas ruínas? Trata-se simplesmente de mão-de-obra de limpeza e recuperação de alguns trechos dos alicerces. E, por fim, uma bela placa indicativa, na entrada no bairro Palmares...
Sonhar não é pecado: continuamos sonhando com três pontos que poderiam atrair o turista: as ruínas da Fazenda dos Campos Gerais, a capoeira de Nossa Senhora da Penha e, talvez o mais interessante, nossas lajes. Quanto à Laje de Cima, não se esqueçam os resende-costenses que continuaremos batalhando para a retirada da malfadada caixa d’água da COPASA. Ah, ia me esquecendo: que tal um belo portal de entrada da cidade, lá no trevo?
No próximo artigo, uma boa notícia: vou mostrar como estamos investindo a largos passos na área cultural de recuperação de nossa história. Aguardem.
