Contemplando as Palavras

Coisas de turistas

17 de Agosto de 2022, por Regina Coelho 0

os muitos milhões de indivíduos que vivenciam a condição de turistas, assim viajando internamente pelo seu país ou indo para mais longe e conhecendo o mundo, apresentam algumas características comuns que os distinguem no meio de todos. Ainda que guardadas as devidas diferenças culturais presentes em cada região e com base em mim mesma e nas observações que faço em minhas viagens de turismo, chego a dizer que somos muito parecidos.

Para começo de conversa, vale destacar o visual da pessoa. Já em plena atividade turística, ela se denuncia pelos vistosos e caprichados trajes e pelos apetrechos que carrega. Sobre esses últimos, não pode faltar o onipresente celular, praticamente um substituto das nossas outrora indispensáveis máquinas fotográficas. Nesse kit vão ainda a garrafinha com água e o protetor solar. Agora, junto aos mais precavidos, o álcool em gel. Os calçados, em sua maioria, são confortáveis. Para essas ocasiões, o tênis é a opção mundial para homens e mulheres. Salto alto, melhor não, pois turista que é turista de verdade anda muito, a pé mesmo, passando por caminhos íngremes e inimagináveis, subindo degraus a perder de vista só para ter das alturas uma vista espetacular. Compondo o look, os óculos de sol são imbatíveis. Igualmente, os chapéus e bonés ao gosto (e à falta dele) das cabeças coroadas por eles numa mistura de cuidados com a saúde e de estilo pessoal. Dependendo da estação, luvas, gorros, boinas, echarpes e cachecóis são apostas certas.

No quesito comportamento, algumas atitudes são bem típicas. Fazer pequenos vídeos de tudo é uma delas. Tirar fotos, muitas fotos, quase uma obrigação. Há quem colecione centenas delas por viagem, quase sempre esquecidas depois ou nem reveladas atualmente. Há aqueles que se arriscam tanto em busca de uma imagem a ponto de cair, por exemplo, na cratera do Monte Vesúvio, em Nápoles (Itália), como aconteceu recentemente com um turista norte-americano ao tentar recuperar seu celular, que havia caído no buraco, após ele ter feito uma selfie. Um sem noção esse cara, sem ingresso para estar naquele passeio e em local sinalizado como não permitido. Fazer isso, ainda bem, não é a regra.

Outra coisa da qual quase ninguém escapa é a compulsão pela compra de certos objetos dados depois da volta ao lar a amigos, colegas e familiares merecedores dessas tais lembrancinhas. Marinheira de muitas viagens, essa situação não vivo mais, também deixando de comprar inutilidades, que abandono logo depois pela casa. Uma recaída de vez em quando, no entanto, quem não tem?

Tendo o aeroporto como cenário, espaço por si só provocador de certas inquietações, são comuns também a tantos viajantes, turistas ou não, dois momentos especiais de tensão. O primeiro ocorre na passagem pelo Raio X. A gente sabe que quem não deve não teme, mas vai que ficou esquecido na bagagem de mão algum artigo proibido de estar lá (uma singela tesourinha ou minúscula pinça), e o aparelho acusa a presença dele. E temos então a malinha ou a mochila aberta ali, e nossas coisas, reviradas publicamente. Guardamos ainda uma apreensão coletiva diante da esteira rolante. Aí torcemos ardentemente para que nossa mala apareça logo. O medo de que ela tenha se extraviado é real, pois, se isso acontece, é “dor de cabeça” na certa. Esse tipo de dissabor, felizmente, nunca tive.

E por falar nisso, ainda que esteja tudo planejado para que aqueles dias maravilhosos sejam de fato maravilhosos e se tornem inesquecíveis, ninguém está livre de passar por alguns perrengues: cadeados quebrados ou perdidos, chaves deles trancadas por distração nas malas, taxista explorador ou grosseiro, certa dificuldade com o idioma do lugar, estranhamento com a comida e aquele desarranjo intestinal, entre outros.

Excetuando os anos críticos da pandemia, nada é capaz de abalar os propósitos dessa gente que ama viajar e retoma agora essa sua vida de turistas por vocação. Sempre tão semelhantes, cada um sendo feliz à sua maneira.

Triste é o preconceito

21 de Julho de 2022, por Regina Coelho 0

Baianos arretados, os escritores Jorge Amado (1912-2001) e João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), num misto de humor e sinceridade, assim se manifestaram um dia sobre o processo de envelhecimento humano: “Já ouvi falar muito das delícias da velhice, mas até agora nunca fui apresentado a nenhuma delas”, ironizou o autor de Gabriela, cravo e canela. Seu colega, também criador de grandes sucessos literários, e ambos ganhadores do Prêmio Camões de Literatura, foi categórico ao afirmar que “a velhice não está na mente, está nas juntas”.

Estão certos os dois. Levar tão a sério a chegada dessa fase da vida não ajuda em nada. Entrar em desespero é bobagem. Conhece aquela frase “aceita, que dói menos”? É um pouco por aí. É relaxar, brincar até sobre as delícias (não apresentadas a Jorge) e as dores (sentidas em sentido duplo) típicas do prenúncio da nossa finitude neste mundo.

Inaceitável, porém, é a discriminação contra os mais velhos. Desde sempre esse comportamento vem atingindo os bem mais velhos, o que já é péssimo. Mas hoje, quando se vive mais e vive-se bem, observa-se paradoxalmente como quase uma imposição em algumas culturas a busca pela juventude eterna, uma utopia, vamos combinar. E por que essa obsessão desvairada pelo impossível? Por que essa pressão desmedida pela aparência? Por que essa distinção negativa pela idade? Deveriam bastar as limitações e dificuldades naturalmente impostas pelo avanço dos anos, não obstante o aumento na expectativa de vida entre nós.

Estamos vivendo tempos de ageísmo, etarismo ou idadismo, como se queira nomear o preconceito baseado em estereótipos associados à idade das pessoas, certamente aquelas consideradas velhas pela sociedade ou assim autoproclamadas. Nesse cenário já desfavorável, as mulheres aparecem como as maiores vítimas, alvo preferencial de cobranças cruéis: pelo rosto e pelo corpo que não são mais os mesmos, pela pele e pelos cabelos que não são os de antes, por tudo o que nelas se modificou.

A apresentadora Xuxa sabe bem o que é isso. Por sua livre opção em não se submeter a procedimentos estéticos radicais, preferindo envelhecer naturalmente, é julgada negativamente por muitos. Uma situação pontual dessa natureza envolveu no começo deste ano a modelo Cássia Ávila, uma das mais bem-sucedidas tops do país. Ao postar uma selfie nos Stories do Instagram, ela foi criticada por um desconhecido com a seguinte mensagem privada: “Envelhecer é triste”. Com classe, Cássia rebateu o infeliz comentário dele ao dizer, entre outras coisas: “Que tolice, né? Envelhecer é natural e um privilégio. Quem não envelhece, morre. Eu amo a vida. Envelhecer é a escolha certa. Afirmo isto com segurança em dia e colágeno em decréscimo, do alto (1,77m) dos meus 48 anos. Viva!”.

Há poucos dias, atualizando a leitura de notícias pela internet, dei de cara com uma matéria (vemos muitas) sobre frases etaristas, portanto, no mínimo, questionadas hoje. Vamos a elas: 1- Você não tem mais idade para usar isso. 2- Você deve ter sido muito bonita quando jovem. 3- Você nem aparenta a idade que tem. 4- Você tem idade para ser a mãe dele. 5- Me desculpe, mas qual a sua idade? 6- Você tem alma de jovem. 7- Tá querendo parecer uma gatinha, né? 8- Esqueceu? É a idade. 9- Não gosto de tal lugar, é balada de velho. 10- Você não entende, pois já está velha.

Contra ideias aí subentendidas, é preciso reafirmar, só dizendo o essencial, que o mais importante é a pessoa ser/estar feliz em qualquer idade; que a beleza física pode ser possível em todas as etapas da vida, sim; e que, claro, ter alma de jovem não é condição para alguém se sentir pleno, realizado, muito pelo contrário.

Bem a propósito dessa relação entre juventude e maturidade, o sábio e saudoso jornalista e humorista Millôr Fernandes (1923-2012) cravou uma definição perfeita: “qualquer idiota pode ser jovem. É preciso ter muito talento para envelhecer”.

Somente para finalizar, é bom lembrar que a vida pode nos guardar também boas surpresas até o fim.

A felicidade em terras resende-costenses

22 de Junho de 2022, por Regina Coelho 0

Em meados de 1946 chegava a Resende Costa um casal oriundo de povoados distintos da cidade de Bom Sucesso (MG). Ele nasceu no Bananal e ela, na Boa Vista. Sô Nanias, assim carinhosamente chamado, era um jovem policial e veio transferido de Barbacena. Em sua companhia e de sua também jovem esposa, dona Antônia, vieram os três filhos, os primeiros, aos quais foram se juntando os que aqui nasceram. Nas malas acanhadas, os inúmeros sonhos, a esperança de uma vida nova e uma bagagem que continha o estritamente necessário para a sobrevivência imediata.

Bem acolhidos pelos resende-costenses, em pouco tempo já se sentiam em casa. E sô Nanias foi ganhando o carinho e o respeito das pessoas por sua conduta profissional irrepreensível, sempre zeloso no cumprimento de sua missão e, acima de tudo, por ser uma pessoa do bem. Com o passar dos anos, os filhos crescendo, dona Antônia e o marido foram se tornando cada vez mais apegados a Resende Costa, conquistando afilhados, comadres e compadres e inúmeros amigos. De soldado, ele passou a cabo, a sargento e chegou ao comando do Destacamento Policial da cidade, uma honra que carregava com naturalidade. E usava essa prerrogativa de forma conciliadora, sem deixar de impor sua autoridade quando preciso, mas tudo de forma comedida.

Fazendo o mesmo caminho, 24 anos depois, Inácia e Oscar, procedentes de Emboabas, distrito de São João del-Rei, escolheram viver em nossa terra. Então jovens recém-casados, aqui chegaram em 2 de novembro de 1970, onde ele, ainda solteiro, já trabalhava como motorista de ônibus da Empresa Nossa Senhora do Pilar. Naquela época, chegou a morar num quarto da agência de passagens da empresa nos Quatro Cantos, depois, por curto tempo, na Pensão do “Buquerão” e mais tarde, na pensão da Elzi Lara. Estando entre nós e indicada pelo Padre Nélson, Inácia começou a lecionar no antigo Colégio Nossa Senhora da Penha, com aulas de OSPB (Organização Social e Política Brasileira), Geografia e Ensino Religioso, entre outras disciplinas. E teve ainda uma passagem como secretária da Câmara Municipal local.

Sentindo-se também muito bem acolhidos por todos daqui, fazendo amigos e formando a família, os dois passaram, sim, por dificuldades e atuaram em outras frentes. Oscar foi ainda dono de um bar na Rua Gonçalves Pinto e trabalhou com linha de leite. Buscava esse produto (leite) na zona rural e levava-o para uma cooperativa (o antigo Bezerrão) em São João. Enquanto isso, ela se formou em Pedagogia (Orientação Educacional) pela Faculdade Dom Bosco (atual UFSJ) e fez carreira no Magistério por longos anos na Escola Conjurados e ainda na E.E. Assis Resende. Foi Secretária Municipal de Educação (1997-2000), Presidente e Diretora da APAE, nessa associação com a prestação de serviço totalmente voluntário.

Acolhidos – essa é a palavra que, coincidentemente, minhas amigas Moreira (filha do sô Nanias e da dona Antônia) e Inácia usaram para destacar a forma como esses dois casais foram se incorporando à vida e aos costumes de uma outra comunidade. E mais, nessas paragens estabeleceram suas bases, fincaram raízes e constituíram cada qual uma bonita e grande descendência de cidadãos, em grande parte formada pelos nascidos na “Laje”, os lagartixas, com muito prazer.

“Meus pais (falecidos) sempre honraram com orgulho o povo e a cidade de Resende Costa, que, como uma Pátria-Mãe, tão bem os receberam”, afirma minha comadre Moreira.

“Resende Costa para nós é um cantinho do céu. Somos felizes aqui e agradecemos a todos que nos deram a oportunidade de viver e construir nossa família nesse Mirante maravilhoso”, testemunham Inácia e Oscar, parabenizando o município pelos seus 110 anos de emancipação política completados neste 2 de junho.

Deixar a terra natal não é abandono, pode ser o destino, o bom destino, um sentir-se em casa também em outro lugar. Para os nossos retratados – Joaquim Ananias dos Santos e Antônia Maria da Conceição, Inácia Maria de Resende Moreira e José Oscar Moreira –, uma existência venturosa em terras de Resende Costa.

Inocência perdida

18 de Maio de 2022, por Regina Coelho 0

Segunda Guerra Mundial, Itália. Guido Orefice, judeu dono de uma singela livraria judaica, e o filho Giosué, de pouco mais de 4 anos, são levados a um campo de concentração em Berlim. Afastado da mulher, tem que usar a imaginação para fazer o menino acreditar que os dois estão participando de uma brincadeira, com o intuito de protegê-lo do terror e da violência que os cercam. Essa é a sinopse de “A vida é bela” (La vita è bella), aclamado e premiado filme italiano dirigido e estrelado por Roberto Benigni, e ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1998.

12 de junho de 1942. Ao completar 13 anos, a alemã filha de judeus Anne ganhou um diário e no mesmo dia começou a escrever nele sobre o seu cotidiano. Vivendo na Holanda, para onde sua família havia se mudado para fugir da perseguição de Hitler, ela, a irmã e os pais, com a invasão dos alemães ao território holandês, passaram a morar num esconderijo montado sobre a casa comercial dos Franks. Dois anos depois desse período de vida clandestina, descoberto o anexo que lhes servia de abrigo, todos (incluindo algumas pessoas fora da família vivendo naquele lugar a mesma situação) foram presos e levados separadamente a diferentes campos de concentração em regiões europeias próximas. Único sobrevivente da família, o pai, Otto, por ter recebido de uma amiga deles o diário de Anne Frank, que ela encontrara, foi o responsável pela publicação das anotações da filha, transformadas ao longo dos anos em impressionante sucesso editorial mundo afora até os dias de hoje.

Uma foto, em especial, marca a Guerra do Vietnã. Com os braços abertos, o corpo nu queimado e a expressão de terror no rosto, Kim Phoc, atingida por uma bomba química e fotografada em fuga desesperada com outras crianças, tornou-se o símbolo de um pesadelo que é uma guerra. À época desse registro, junho de 1972, tinha 9 anos.

Aylan Kurdi, 3 anos, morreu afogado em setembro de 2015 junto com o irmão Ghaleb e a mãe (apenas o pai se salvou) no naufrágio de uma embarcação síria no Mediterrâneo, quando a família tentava fugir mais uma vez dos sangrentos combates na Síria. As imagens do pequeno Aylan, encontrado morto na costa turca, causaram intensa comoção por toda parte e suscitaram debates em torno da política para refugiados da Europa e outras partes.

Anne, Kim e Aylan são nomes que entraram para a história como vítimas de distintos e trágicos períodos vividos por significativa parcela da humanidade. Na condição de crianças, são a prova, infelizmente permanente, do quanto as guerras não poupam ninguém. Kim, a menina da icônica fotografia sobre as atrocidades cometidas no Vietnã, sobreviveu a elas, sem deixar de passar por anos terríveis de muito sofrimento provocado por traumas e longos tratamentos médicos. Vive hoje no Canadá e atua em programas de auxílio a crianças atingidas por lutas armadas.

Quanto a Giosué, ele é a representação de tantos meninos de verdade, fora das telas do cinema, vivendo, sobrevivendo ou morrendo realmente em zonas de conflito, sem que a proteção necessária os alcance. Que o digam as cenas chocantes a que assistimos atualmente sobre essa insana guerra na Ucrânia.

Carregados nos braços que tentam acolhê-los ou levados por mãos adultas e apressadas, não se sabe bem para onde, rostinhos chorosos e assustados, os pequenos fogem. De um jeito ou de outro, como fez Hassan al-Khalaf, o garoto ucraniano de 11 anos. Mandado pela mãe em um trem com destino à Eslováquia e carregando uma sacola de plástico, o passaporte e o número do telefone de um irmão escrito na mão, Hassan atravessou sozinho a fronteira do seu país, viajando mais de mil quilômetros para encontrar os irmãos mais velhos. Pelos corredores nada humanitários, levas de civis ucranianos configuram a triste diáspora de hoje: crianças, jovens, idosos, doentes, e a terra querida deixada para trás. Nas pequenas bagagens arrastadas pelos caminhos do desconhecido cabe apenas o que permite o senso prático e desesperado do momento.

“A guerra é nojenta, e o que ela nos tira, quando não nos tira a vida, nunca mais devolve”, Joel Silveira (1918-2007), correspondente de guerra na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

Companheira de aprazíveis horas

20 de Abril de 2022, por Regina Coelho 0

dizem que os chineses atribuem ao compatriota Lu Ban (507-444 a.C.) a invenção da bicicleta. Sabe-se ainda que as primeiras informações sobre a existência desse invento como modelo próximo do que se tem hoje remontariam a um projeto do genial italiano Leonardo da Vinci, por volta de 1490, afirmação essa contestada atualmente. De fato mesmo, considera-se como pioneira a criação do alemão Karl von Drais em 1817. Batizada pelo barão Karl de “máquina corredora” (“Laufmaschine”, em alemão), era feita de madeira e funcionava com o impulso dos pés. Uma adaptação com pedais surgiu em 1839, advindo daí sucessivos processos de evolução desse simpático e repaginado veículo de locomoção.

A bicicleta chegou ao Brasil no final do século XIX. Os primeiros relatos de seu uso no país destacam São Paulo (capital), onde foi fundado em 1892 um clube amador de corridas e passeios ciclísticos; o Rio de Janeiro (então capital do país) e Curitiba (PR), onde já existia um clube de ciclismo organizado por imigrantes da colônia alemã local desde 1895. Como até meados de 1940 as bicicletas e suas peças eram importadas, o custo delas era elevado devido às dificuldades de importação da época. A partir de 1950, algumas marcas começaram a ser produzidas integralmente por aqui, sinalizando a aceitação do produto “duas rodas” pelos brasileiros e comprovando ao longo do tempo que ele veio para ficar.

Como sonho de consumo alimentado na infância e adolescência de quase todo mundo, a bicicleta é personagem na história de vida de muita gente. Em Resende Costa (certamente em outros lugares também), quando o mais comum era a pessoa não ter em casa esse veículo, que é de transporte e principalmente de diversão para tantos, o jeito era apelar para o serviço de aluguel de uma bike. Tínhamos por aqui o Afonso do Zé Henrique, com quem os meninos (clientela básica do Afonso), naqueles anos mais machistas, só garotos mesmo, alugavam por hora pedaladas inesquecíveis pela cidade.

Naquela época, tendo dois adolescentes em casa já se aventurando em suas investidas ciclísticas por algumas de nossas ruas, meu pai resolveu comprar para eles em Belo Horizonte uma bicicleta. Dessa forma, o Elmo e o Amadeu passaram a ser donos de uma Mercswiss de cor vinho, novinha em folha e usada irmãmente (nos dois sentidos) por ambos. Um dia para um, um dia para o outro. E assim sucessivamente. Mais tarde, “seu” Adenor passou a vender bicicletas em sua loja.

Quando chegou a minha vez de aprender a pedalar, como muitos faziam, fui viver essa experiência incrível no campo do Expedicionário. Momento mágico aquele da descoberta, parece que de repente, sem alguém na retaguarda como apoio: você seguindo só, equilibrando-se sobre aquelas duas rodas sem saber direito como. Agora, fazer valer a velha máxima segundo a qual certas coisas na vida são como andar de bicicleta, a gente nunca esquece, isso já é outra história.

Li certo dia uma explicação interessante para uma outra frase famosa ligada ao mundo das bikes: “Não sei se caso ou se compro uma bicicleta”. Assim, estariam implícitas nesse suposto dilema duas ideias ligadas (ou separadas) pela alternativa “ou”. Como casar significa o início de uma vida a dois, casar representa o abandono dos sonhos individuais. Por sua vez, a bicicleta representa o individualismo, a independência, a liberdade. Faz um certo sentido pensar desse modo, mas, necessariamente, uma opção não exclui a outra.

Vivendo num país sem tradição e condições de ter a bicicleta como um meio de transporte seguro (também econômico e não poluente) nos grandes centros, opto por trazer aqui a bonita e recorrente imagem do menino livre do interior montado em sua magrela, com ela estabelecendo uma cumplicidade diária, ambos inseparáveis, indo e voltando em manobras divertidas, às vezes arriscadas, de ingênuo exibicionismo.

Em qualquer idade, eis aí uma boa parceria, em momentos de prazer em que pedalar é poder sentir a bicicleta como uma extensão do próprio corpo.