Para cada multa uma desculpa
17 de Marco de 2016, por Regina Coelho 0

Ilustração Lucas Lara.
Ninguém gosta de ser multado. Isso é certo, pois equivale a um castigo em forma de pagamento em dinheiro por um negócio que não foi honrado como o estabelecido ou por uma situação de desobediência legal. No direito do trânsito, considerando as autuações impostas aos infratores, a consequência é a aplicação de multas que se multiplicam por aí. Entram em cena, então, os recursos contra muitas delas. Alguns, cabíveis; outros, fruto do famigerado jeitinho do brasileiro em se dar bem a qualquer custo.
Na primeira categoria, por exemplo, encontra-se o caso recente de um empresário de Araraquara (SP) multado por excesso de velocidade. No documento da multa, há o registro de que o carro dele foi flagrado quando rodava a 72 km/h em uma via de 50 km/h. Detalhe fundamental: o carro estava parado, como prova a imagem do radar. “Por sorte, eu estou do lado do carro e até saí na foto. Por isso dá para ver que ele estava parado. Se eu não estivesse ali, seria difícil provar”, afirma o motorista. Vítima de um erro na triagem de multas, ele teve o trabalho de contestar a sua para vê-la cancelada. Relativamente comuns e igualmente justificáveis são os casos envolvendo carros multados em locais onde comprovadamente nunca estiveram, o que pode caracterizar clonagem desses veículos.
Excluídas essas e demais situações resultantes de anulação das infrações de trânsito, na hora de simplesmente escapar de uma multa, muita gente costuma apelar para tudo na tentativa de tirar a dívida do bolso e os pontos da carteira. Para tanto, as desculpas usadas por muitos variam de acordo com a situação. Para o caso da falta do cinto de segurança, a alegação mais frequente dada pelos motoristas é que estavam, sim, com o acessório, mas foram autuados por uma confusão, já que usavam roupa preta. Nesse caso, sobra até para a camisa do Vasco. O auditor de trânsito teria confundido o cinto com a faixa preta diagonal da roupa. Problemas de saúde também são usados como pretexto para a falta de uso do mesmo cinto. É conhecida a história de uma mulher que trafegava sem ele em Brasília. Percebendo que teve a placa de seu carro anotada e seria multada, justificou-se com o auditor dizendo que havia feito uma cirurgia na mama. E como achou que ele não estava acreditando naquela explicação, começou a tirar a roupa para provar que estava falando a verdade. Para o Detran, se a pessoa se mostra impossibilitada de usar o cinto de segurança, que é obrigatório, não deve estar na condução de um veículo.
Das desculpas mais esfarrapadas usadas pelos infratores de trânsito, algumas são clássicas. Segundo pesquisas feitas por estudiosos dessa área, em 1º lugar aparece esta: “eu fiquei aqui apenas cinco minutinhos”. A segunda frase mais ouvida é: “o senhor devia estar correndo atrás de bandido em vez de ficar multando pessoas trabalhadoras”. E tem aquela: “a culpa é do governo, que não faz estacionamento para a gente parar”. E mais: “o governo só quer é tirar dinheiro do povo com essa indústria de multas”. O que a maioria dessas frases e similares têm em comum é a atitude do infrator em responsabilizar outra pessoa pelo erro que ele cometeu.
Há situações que chegam a ser cômicas. É o caso de um senhor que foi abordado por três vezes em Brasília (de novo lá) dirigindo embriagado. Nas três vezes, ele alegou estar gripado e ter tomado conhaque para acabar com a gripe. Dá para acreditar nisso? Pelo menos sincero e “trêbado”, talvez por isso mesmo sem condições de negar o óbvio, numa das vezes em que foi preso em BH por dirigir alcoolizado, Elisson Miranda admitiu publicamente ter bebido muito. “Bebi, bebi, bebi, bebi, bebi”, afirmou ele jocosamente a jornalistas e cinegrafistas, tornando-se momentaneamente famoso como “o bêbado do pijama”.
Entre multas e desculpas, uma curiosidade final. O recado afixado em frente ao Cartório de Registro de Imóveis da vizinha São João, - “NEM POR 5 MINUTINHOS”- adianta-se ao pretexto da breve paradinha. Boa essa!
Nossa mãe
16 de Fevereiro de 2016, por Regina Coelho 0
O dia 14 de dezembro foi especialmente feliz na casa da dona Zezé e do Alcides Lara graças à chegada de Olga, filha do casal ansiosamente aguardada. Tendo já como irmãos Vera e José Alencar (Dezinho, falecido aos 12 anos em um acidente com arma de fogo), frutos do primeiro casamento do pai, vieram-lhe os outros irmãos: José, Otto, Ana, Custódia, Celso, Alcides, Paulo, Maria (Lilia) e João (falecido aos 13 anos vitimado pelo tétano). Sob o olhar atento e constante da mãe, foram crescendo juntos, desfrutando anos inesquecíveis de uma bonita convivência. Infância e adolescência vividas intensamente, o quintal da casa de número 21 da Praça Dr. Costa Pinto chegava até as Lajes “de baixo”, um extenso território a perder de vista aos olhos da criançada. Nele, pela fartura e gostosura dos frutos, destacavam-se entre as muitas árvores as jabuticabeiras, de que eram “donos” os filhos de dona Zezé, cada um com a sua escolhida e protegida. Aquilo era o próprio paraíso para eles, lugar de algazarras e traquinagens.
Já mocinha, ajudando a mãe no cuidado com os meninos mais novos, ora fazendo tricô, arte em que era exímia, ora cantando no Coro Paroquial, condição na qual, ensaiada pelo tio, padrinho e maestro Quinzinho, cantou o Pange língua e foi Verônica na Semana Santa; ora jogando vôlei como levantadora, Olga tinha uma tarefa que cumpria com grande prazer. Era dela a responsabilidade pela manutenção da biblioteca do pai, o que certamente acentuou seu gosto pela leitura.
Em fevereiro de 1946, casou-se com o jovem Adenor, que, ainda menino, das Lajes, já a observava transformada na artista Sudária em brincadeiras de circo com os irmãos em algum ponto daquele mesmo encantado quintal.
Vida nova, casa nova e nova família se formando. Magda, Marlene, Elmo, Amadeu, Fátima, Regina, José Celso, Olga e Maristela compunham com os pais um entrosado time que, por exemplo, cabia perfeitamente no carro da família (quase sempre uma Rural) para os inúmeros passeios feitos pelos onze. Coisa impensável nos dias de agora. Anos de muita alegria para todos e muito trabalho para os pais. Momentos difíceis também. E dona Olga, ao lado do marido, sempre forte, calma, equilibrada e religiosa. A devoção a Nossa Senhora presente até no nome das filhas, todas elas Maria. Disso ela fez absoluta questão.
Filhos criados e formados, a saudade dos que se foram é imensa, mesmo assim a família cresce, mantendo-se unida em torno daquela magnífica figura de mulher. Sem o nosso pai, nossos sobrinhos falecidos, sem a Magda e o Lúcio, dona Olga segue em frente, à frente de todos nós, impondo-se pela personalidade única, cuidando de sua prole. Até que, naturalmente, sem se fazer aperceber, foi chegando a hora de a gente tomar conta dela.
Na rotina diária de quase seis anos nos cuidados diretos com ela, nada de cama, a não ser nos períodos de alguns sobressaltos com a saúde. No mais, disposição total para o trabalho em forma de pequenos consertos de costura feitos à mão ou usando sua prestimosa máquina. Ou ainda tricotando sapatinhos de bebê para a Irmã Ernestina usar nos recém-nascidos da Santa Casa deles necessitados. Na cozinha, bolos feitos para o “batalhão”, lombos temperados com maestria, a couve picada bem fininha e os doces de figo de todo ano. Nos horários de descanso, os livros lidos e poupados só para a história não terminar logo, outros consultados com frequência como o da irmã Vera sobre a genealogia da família, o calhamaço de 498 folhas sobre as cidades mineiras, também procuradas por ela no grande mapa exposto na parede do escritório de nossa casa e os incontáveis livrinhos de caça-palavras. Nas sessões de casos engraçados, o talento incomparável da contadora mais experiente da turma. Em casa, comunhão aos domingos, missas e programas religiosos pela televisão e pelo rádio, os horários sagrados das orações diárias, o terço das quintas-feiras rezado com os presentes, a visita mensal da Mãe Rainha... Em tudo, alguém da família sempre por perto.
Como lembrou seu filho Zé, “nossa mãe rezava todos os dias para não perder a memória (e assim foi). Com ela aprendemos muito, rezamos muito, cantamos muito, nos divertimos muito... Deu tempo para cuidarmos dela e desfrutar todos os dias de sua companhia. Até que ela descansou. Como sempre, serena e bonita”.
Recomeçar
13 de Janeiro de 2016, por Regina Coelho 0

Ilustração: Lucas Lara
No ano passado,...
Já repararam como é bom dizer “o ano passado”? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem... Tudo sim, tudo mesmo! Porque, embora nesse “tudo” se incluam algumas ilusões, a alma está leve, livre, numa extraordinária sensação de alívio, como só poderiam sentir as almas desencarnadas. Mas, no ano passado, como eu ia dizendo, ou mais precisamente, no último dia do ano passado, deparei com um despacho da Associated Press em que, depois de anunciado como se comemoraria nos diversos países da Europa a chegada do Ano Novo, informava-se o seguinte, que bem merece um parágrafo à parte:
“Na Itália, quando soarem os sinos à meia-noite, todo mundo atirará pelas janelas as panelas velhas e os vasos rachados”.
Ótimo! O meu ímpeto, modesto mas sincero, foi atirar-me eu próprio pela janela, tendo apenas no bolso, à guisa de explicação para as autoridades, um recorte do referido despacho. Mas seria levar muito longe uma simples metáfora, aliás, praticamente irrealizável, porque resido num andar térreo. E, por outro lado, metáforas a gente não faz para a Polícia, que só quer saber de coisas concretas. Metáforas são para aproveitar em versos...
Atirei-me, pois, metaforicamente, pela janela do tricentésimo sexagésimo quinto andar do ano passado.
Morri? Não. Ressuscitei. Que isto da passagem de um ano para outro é um corriqueiro fenômeno de morte e ressurreição – morte do ano velho e sua ressurreição como ano novo, morte da nossa vida velha para uma vida nova. (...) Texto extraído da obra Porta Giratória (1988), de Mário Quintana.
Pode-se concordar ou não com a visão do saudoso Quintana sobre a passagem de um ano para o seguinte. É fato, porém, que, pelo menos hoje é ainda novo este bissexto 2016. Aliás, essa característica tem uma explicação interessante. Vamos a ela. O ano é medido pelo tempo que a Terra leva para dar uma volta em torno do Sol. Esse período tem duração de 365 dias e 6 horas, aproximadamente. Um ano se encerra com 365 dias e deixa de lado essas 6 horas. Em quatro anos, temos 24 horas de sobra, ou seja, 1 dia. Assim, 29 de fevereiro é inserido no calendário para que o movimento da Terra possa ser ajustado.
Ainda sobre a magia da virada do calendário, Drummond escreveu: “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial./ Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão./ Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos./ Aí, entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número/ e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente”.
Pode ser psicológico, mas pelo sim ou pelo não, o desejo de conquistar uma nova vida deve ser um bom começo para este começo de ano. O que vem depois daí já é outra história, ou melhor, são outros projetos. Cuidar mais da saúde, encarar aquele check-up tão adiado, estudar muito para o Enem e garantir uma vaga na faculdade, preparar-se para o primeiro emprego, conseguir um outro emprego, ter coragem de mudar de emprego, construir a casa própria, reformar a casa, voltar para Resende Costa, mudar-se de Resende Costa, arrumar namorado(a), viajar por aí e para longe, ter um pedacinho de chão para chamar de seu, parar de fumar, começar a malhar, comprar um carro, trocar de carro, pescar no Pantanal, ler mais, voltar a frequentar o Mirante das Lajes e se deixar levar por sua beleza inspiradora e acolhedora, tornar-se voluntário(a) de uma causa social, dedicar mais tempo à família...
Coletivamente falando, que haja entre nós e para nós mais saúde, menos sofrimento; mais educação, menos corrupção; mais civilidade, menos impunidade; mais justiça, menos desigualdade; mais decência, menos violência. Eleições municipais e Olimpíadas batendo à porta, que seja ganhador nas urnas o Brasil, do qual se espera, como anfitrião e competidor, correto desempenho. Que assim seja. Feliz 2016.
1- Natal
17 de Dezembro de 2015, por Regina Coelho 0
A palavra presépio, na língua portuguesa, designa o local onde se recolhe o gado, curral e estábulo. Na tradição do Natal, presépio é a representação da estrebaria de Belém e das figuras que, segundo o Evangelho, participaram do nascimento de Jesus e das cenas que a ele se seguiram. Segundo consta, essa reconstituição simbólica se deve a São Francisco de Assis, que, em 1223, teria sido responsável pela montagem do primeiro presépio do mundo usando representativas peças de argila. Desde então, esse ritual vem se repetindo através dos anos como preparação de grande parte da humanidade para a celebração natalina. Montados no aconchego das casas, no silêncio reverente das igrejas ou na amplidão dos espaços públicos, os presépios se destacam entre os símbolos dessa data pelo fascínio que exercem nas pessoas em razão da boniteza de tão inspirador cenário e da lembrança de outros tempos evocada por eles.
Particularmente, carrego comigo imagens familiares de muitos presépios montados em casa. Tudo começava com as folhas de papel preparadas com grude para servir de gruta. Sobre elas eram jogados o carvão (ou a borra de café) e a malacacheta moídos, fazendo faiscarem as supostas pedras que, depois da secagem dessa mistura, iam sendo modeladas de modo a compor a base daquele trabalho artesanal. Com os protagonistas, coadjuvantes e figurantes colocados em cena, havia espaço até para uma banda de música e um laguinho feito de espelho sobre o qual se postavam alguns patinhos. Naqueles momentos, história e imaginação eram uma só coisa.
Também guardado na memória, o presépio montado no centro da Praça Dr. Costa Pinto era puro encantamento para os apreciadores daquela bonita forma de caracterização do Natal. Evidentemente proporcionais às dimensões do local, as peças chamavam a atenção pelo tamanho, destacando-se as da Sagrada Família (Jesus, Maria e José), belo conjunto cênico instalado no coração da cidade, quando Resende Costa respirava ares bem mais inocentes.
2 - A caminho da utopia
“Aqui na esquina acaba de morrer um humanista (Mello Cançado, professor de generosidade). Na televisão e nos jornais o mestre Alceu dá um banho de vida e lucidez. Meu pai, menino de 70 anos, me dá lições diárias de sabedoria e esperança. E o que dizer do Drummond? Estão velhos ou mortos os homens que acreditam nos homens? Os justos estarão no fim? Não e não. Assim como a injustiça, a violência e o ódio se espalham e deixam seu rastro de miséria por onde passam, a semente de amor, dignidade e justiça que recebemos frutifica e também estende seus braços. Está plantada no coração dos jovens. Esteve e está em todos os nossos discos. Como sempre, continuamos a repetir palavras essenciais: justiça, crença, esperança, alegria. Brasil (povo e país, nação que faremos). Debaixo de nosso abençoado sol tropical, junto com nossos maiores e nossa juventude (mãos dadas com nossa infância) apostamos tudo na utopia”.
Texto extraído do encarte que acompanha o LP Caçador de mim (1981), de Milton Nascimento. Escrito há 34 anos, na essência, ele continua atual. As pessoas nele citadas são o professor mineiro Antônio Augusto Mello Cançado; Alceu Amoroso Lima, crítico literário, professor, pensador e escritor carioca; o desembargador mineiro Dr. Moacyr Brant; e o poeta Carlos Drummond de Andrade, os três últimos também falecidos. Homenagem ao cronista e compositor Fernando Brant (1946-2015), autor dessas e outras belas palavras:
Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre. (Maria, Maria)
Amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração. (Canção da América)
Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração. (Bola de meia, bola de gude)
P.S.: De um outro Fernando, o Pessoa (1888 - 1935), fui buscar as palavras para lembrar a Sônia e a Aleluia e dedicar a elas (in memoriam) este último Contemplando as palavras de 2015:
A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser mais visto.
Três Marias
19 de Novembro de 2015, por Regina Coelho 0
“Aprendi com minha mãe, que faleceu com apenas 57 anos. Eu tinha 20 anos e assumi a responsabilidade da casa, pois minhas irmãs já eram casadas. Fiquei com meu pai, quatro irmãos (homens) e minha irmã mais velha, que tinha problemas de saúde. Com isso fui praticando mais. Trabalhei na Panificadora Sobrado e na Padaria Casa Nova por bons anos. Com a experiência, passei a fazer em casa bolos, biscoitos e salgados. Isso há 18 anos.” – Maria da Penha Resende
“Minha mãe gostava de costurar para nós. Eu ficava perto dela, encantada ao ver a transformação dos panos em lindos vestidos e blusas. Então, meu pai me deu de presente uma máquina manual. Aí comecei a praticar, fazendo as primeiras peças de roupa. Nessa época, eu tinha 16 anos. Com a Elisa, filha da Adelaide, aprendi o corte centesimal.” – Maria Helena de Resende Vale
“Comecei a trabalhar com bordado bem nova, mais ou menos com 12 anos. Via minha mãe bordar. Praticamente, ela não ensinava. A gente ficava junto com ela e aprendia. Bordo mais coisas de igreja – roupas das imagens, toalhas de batizado – e roupinhas de bebê. Isso é o meu forte. O dom que Deus me deu é tudo na minha vida”. – Maria Imaculada Conceição
As responsáveis pelos depoimentos acima são conhecidas popularmente pelos respectivos apelidos de Peninha, Lena (da Zilá) e Titinha (do Miro), e suas respectivas atividades de confeiteira, costureira e bordadeira.
A boa freguesia e o contato com as pessoas que vão à sua casa comprar seus produtos são motivo de alegria para Peninha. E não pode faltar também a hora de bater um papo com os fregueses, o que lhe faz muito bem, já que mora sozinha desde que perdeu a Floripes, irmã de quem cuidava. Dizendo-se atingida pela crise econômica atual, com menos encomendas, ela entende que temos de economizar. E só fica triste quando o que faz não fica como ela quer.
Quanto à Lena, fazer para as freguesas o que elas pedem é sentir-se feliz, realizada. Chateada ela fica com a falta de compromisso de uma ou outra freguesa, ou quando nota a insatisfação de alguém com seu trabalho. E mesmo com a facilidade de hoje na compra de roupas prontas, serviço não lhe falta. Segundo ela, muitas pessoas gostam da peça exclusiva, feita sob medida, porque não encontram o modelo e/ou o tamanho desejados.
Titinha garante que sua maior satisfação é lembrar que está trabalhando para Deus e pede ao Coração de Jesus que a ilumine, agradecendo-Lhe quando termina um trabalho. Sincera, ela explica que não gosta que deem opinião no que está bordando, por isso prefere trabalhar sozinha, trancada em casa. Sobre a valorização de seu delicado ofício, enfatiza que, de um modo geral, as pessoas acham bonitas as peças bordadas, querem vê-las, mas não entendem o trabalhão que dá o bordado. E costumam achar caro o que cobra.
Aposentadas formalmente, as três continuam atuantes. Peninha, para complementar a renda da aposentadoria e pelo prazer de trabalhar, mesmo considerando que não é fácil o seu serviço, um trabalho bastante pesado. Lena, por ser a costura agora para ela um passatempo, portanto também um prazer. E Titinha, da mesma forma, pelo prazer. No seu caso, de ver surgir de suas mãos uma peça única, de ver nos lugares aonde vai uma obra sua e ser parabenizada por isso. O gosto pelo que fazem – eis aí parte do segredo, ou melhor, da razão pela qual elas e tantos outros se realizam profissionalmente. A persistência lembrada pela Peninha, associada à dedicação citada pela Lena e à paciência e responsabilidade apontadas pela Titinha são fatores primordiais para se manterem firmes em suas atividades.
E na alquimia dos ingredientes da cozinha, na precisão do corte e do feitio da costura e na criatividade das linhas coloridas do bordado, nossas três Marias se impõem como dignas representantes da força do trabalho feminino. Em comum no aprendizado do ofício de cada uma, revela-se a determinante presença materna em simples e cotidianas histórias de vida.