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Nos corredores do consumo

17 de Setembro de 2014, por Regina Coelho

   Ir com frequência a supermercados é uma tarefa a que se entrega muita gente. Faço parte desse grupo. E da mesma forma que tenho a ginástica e a caminhada como atividades externas de rotina, pratico também compras para o lar. Longe de ser uma inveterada consumista, não me livro, no entanto, de ter sempre de comprar alguma coisa nesses mais do que nunca verdadeiros templos do consumo. É que, além do que é comprado regularmente, a gente não consegue escapar de ir atrás daquele item que faltou na lista ou que já foi consumido e deixamos de repor e que pode nos fazer falta a qualquer hora. Afinal, prevenir é melhor. O problema é que ter a despensa totalmente abastecida pode exigir idas e mais idas ao supermercado.

   Ser frequentador desse tipo de espaço envolve algumas vantagens. Pra começar, a intimidade física com o lugar encurta caminhos entre os corredores, já que a pessoa sabe exatamente onde fica o que vai comprar, fator que propicia ganho de tempo. Outro ponto a destacar nessa busca quase diária por alguns poucos produtos é que é possível, ou melhor, é certo encontrar novidades e promoções. Aí, fica difícil resistir à tentação de comprá-las e quase sempre a gente sai carregando mais coisas do que o pretendido inicialmente. Há ainda uma situação bastante interessante nisso tudo, principalmente em se tratando de compras de muitos artigos, o que requer mais tempo, favorecendo assim a conversa com os outros que estão próximos de nós, sejam eles também clientes ou funcionários da casa. Nessa hora inevitável de empurrar o carrinho e escolher os produtos que serão comprados, muita prosa boa acontece, sem necessariamente envolver conhecidos entre si.

   Assunto, aliás, é o que não falta nesses momentos vividos entre bancas e mais bancas de frutas, verduras e legumes; entre gôndolas e mais gôndolas confundindo às vezes os olhos pela variedade de mercadorias com seus preços, rótulos e formatos igualmente variados. Na pauta do que é conversado, não faltam comentários sobre os preços e as altas de certos produtos bem como as qualidades de determinadas marcas. Sobre esse último aspecto, é curioso observar como as pessoas propagam suas marcas preferidas. Trata-se da famosa e eficiente propaganda de boca, ela sim, nada enganosa, pois é resultado do que já foi testado e aprovado. Além de tudo, é gratuita. Para o fabricante, é claro. Dependendo da prosa, muitas vezes influenciada pela proximidade com os produtos expostos, surge a oportunidade de alguém ao lado da gente sugerir ou receber uma receita de bolo, doce ou pão de queijo, por exemplo. Dicas ligadas à saúde podem significar a compra imediata de certos itens apregoados como excelentes para combater isso ou aquilo. Afinal, não nos custa nada levá-los para casa e experimentá-los.

   Saindo do âmbito das compras propriamente ditas e das conversas que elas sugerem, pode-se dizer que o supermercado é lugar certo para os encontros casuais porque, além das pessoas que a gente encontra constantemente, há aquelas com quem surpreendentemente nos deparamos e não víamos há tempos. Sendo alguém ligado a nós, pronto! É papo na certa, com casos e mais casos contados de lado a lado. Na distração ou no entusiasmo do momento, vale até esquecer por um instante o principal motivo da nossa presença naquele lugar para encontrar pessoas queridas, entre as muitas que circulam pelas dependências do estabelecimento.

   E onde grupos se formam, notícias frescas se espalham com rapidez. Não faz muito tempo, ocupada com a escolha de determinado produto, fui surpreendida por alguém ao me tocar o ombro para sussurrar em primeiríssima mão que Fulana de tal havia acabado de morrer. Levei um susto daqueles não exatamente pela notícia recebida que, de certa forma e infelizmente, já era esperada. Estranhei o jeito como fui abordada, quase como uma necessidade dos que não conseguem deixar de passar pra frente qualquer informação que seja.

   Pensando bem, os supermercados atuais representam muito mais do que simples centros de abastecimento. De uns tempos para cá, fortalecidas com a prestação de variados serviços de atendimento ao consumidor em suas áreas de cobertura, essas casas de comércio pouco lembram os antigos armazéns (ou os quase saudosos secos e molhados) com seus fregueses atendidos exclusivamente no balcão. A propósito, independência, por exemplo, é a palavra-chave ligada à clientela de hoje, que se movimenta enquanto faz suas compras e imprime seu próprio ritmo nessa tarefa, com liberdade para checar os objetos de seu desejo e decidir, sem a influência de terceiros, pelo que será levado para casa. Nesse mexe e remexe de mãos consumistas, muita mercadoria muda de prateleira, eufemismo para bagunça provocada por clientes em certas partes do supermercado. E quem é que, diante de tanta movimentação, não se viu em apuros com a perda (momentânea, quase sempre) de objetos pessoais como óculos, celular, chaves e até carteiras?

   Tudo tão prático, tão rápido hoje! E muito consumismo na ordem do dia.

 

   Em festa - Líder de um clube de meninas, Luluzinha é uma personagem de histórias em quadrinhos e desenhos animados criada nos EUA em 1935. Ao longo dos anos, seu nome saltou da ficção para virar sinônimo de tudo o que se relaciona ao mundo feminino. Surgiu daí a inspiração para ser batizado de “Turma das Luluzinhas” um grupo de amigas que passou a se encontrar em alegres e festivas ocasiões em que se celebra a oportunidade feliz de estar bem entre pessoas queridas. Passados exatos 10 anos da criação da turma, não pode faltar comemoração.

   Vivas a nós, mulheres de histórias tão diversas, pelo afeto que nos une. Diferentemente da Little Lulu (Luluzinha) – criação de Marge Buell – sempre em guerra com o Bolinha, seu contraponto masculino, não queremos disputar com os homens o que pode ser parceria entre pessoas. Só queremos seguir Vinícius de Moraes, para quem “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. É isso aí, Poetinha! Parabéns, Luluzinhas! E que haja pela vida muitos outros bons encontros entre nós.

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