Entre colunas então alusivas ao Natal e outros textos sobre essa época tão propícia a movimentações e comemorações sociais, familiares e religiosas, a edição de dezembro último do JL publicou uma breve nota acompanhada de duas significativas fotografias. O título da matéria, como síntese, já esclarece as imagens em questão: “Turma da Escola Estadual Assis Resende refaz foto de 47 anos atrás”.
Muito boa a iniciativa dessa turma, por sinal, uma tendência atual, ou seja, a recriação de fotos antigas, com a repetição do mesmo cenário e, quando possível, com as mesmas pessoas e seus respectivos lugares, poses e trajes copiados do modelo original. Como nessa linha do tempo dos alunos da Graça Vale (de 1977) e em todas as outras, história é o que não falta, por trás das fotos inclusive ou principalmente, indo muito além da mera constatação, pela aparência mais atualizada dos fotografados, da passagem inexorável dos anos. Natural e democraticamente para todos.
Compondo ou não uma sequência cronológica, verdade é que nem toda fotografia é somente aquilo que se vê e muitas vezes nem é o que julgamos ver. Tenho um daqueles retratos (adoro esta palavra: “retrato”) típicos dos tempos do curso primário tirados por um profissional contratado pela escola e vindo de fora para fazer o registro fotográfico de nossa passagem por lá. Olhando-o agora, faço dele a seguinte descrição: como pano de fundo, à minha direita, há uma ilustração de um grupo de crianças uniformizados, ao ar livre, e uma delas aparece hasteando a bandeira nacional; à minha esquerda, é possível ver a paisagem urbana de uma rua com um bonde vermelho despontando. No centro, em posição de destaque, sentada numa cadeira escura estou eu, com os braços apoiados sobre uma mesa. Do meu lado esquerdo ainda, um globo terrestre e uma bandeirinha do Brasil colocada sobre um livro. Do direito, dois livros sustentam outra bandeirinha de mesa, dessa vez, a de Minas. E à minha frente, destacada, a famosa plaquinha de recordação do G. E. Conjurados Rezende Costa (assim, com Z), hoje E. M. Conjurados.
E o que vejo mais? Vejo que a maneira como fui retratada não condiz comigo nem com a ocasião. Talvez por sugestão (ou seria imposição?) do retratista, faço pose segurando uma caneta com a mão direita, e sempre fui canhota. Outra coisa: provavelmente sem o aviso aos pais a respeito daquele dia diferente na escola, excepcionalmente, para lamentação posterior de minha mãe, a vida toda tão zelosa com os filhos, com nossas roupas também, eu não estava de uniforme, como deveria estar em momento tão único.
Atualmente, únicos ou corriqueiros, momentos vividos por todos nós não escapam das câmeras possantes dos nossos celulares, que, desbancando as máquinas fotográficas amadoras, decretaram praticamente a aposentadoria desses aparelhos, hoje repousando em alguma gaveta em casa. Muda a ferramenta, mas a fotografia não perde seu espaço. Outrora coisa rara, restrita a grupos e ambientes seletos e/ou a ocasiões especiais, com o passar dos anos popularizando-se, a imagem congelada e captada de um exato instante, não por acaso é chamada também de um instantâneo, no entanto se eterniza no papel e nos arquivos digitais.
Como lugares de registros e lembranças, fotografias contam histórias e documentam fatos, assim preservando a memória e a cultura de épocas diversas. Muitas se tornam famosas pelo que traduzem da realidade e da arte, provocando em nós emoções felizes, perturbadoras ou indignantes.
Para o escritor francês Roland Barthes (1915-1980), “o que a fotografia reproduz ao infinito só ocorre uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente”.
Assim e restringindo-me a um passado mais recente (5/8/2024), lembro aqui a imagem icônica de Rebeca Andrade, maior medalhista brasileira em Olimpíadas (seis medalhas), ouro no pescoço, reverenciada pela campeoníssima Simone Biles (prata) e por Jordan Chiles (bronze) e destacada em cliques que correram mundo e entraram para a história. Aquele dia, não mais! A figura de Rebeca no alto do pódio, para sempre.