O Brasil que eu quero
17 de Outubro de 2018, por Edésio Lara 0

Alunas da E. M. Conjurados, na Praça Dr. Costa Pinto, centro de Resende Costa (Fotos Edésio Lara)
No último mês de setembro, dois atos de violência contra professores tomaram conta do noticiário e, rapidamente, circularam pelas redes sociais. Camanducaia/MG e Rio das Ostras/RJ tornaram-se centro das atenções devido às cenas grotescas e desrespeitosas cometidas por alunos contra dois professores de escolas públicas das cidades citadas. Agressões físicas, verbais, más condições de trabalho, salários ruins, mensagens preconceituosas e racistas formam um conjunto negativo de ações às quais se submetem muitos professores brasileiros.
Também, no mês passado, a TV Globo deu por encerrado o projeto lançado no início do ano, denominado “O Brasil que eu quero”. O projeto permitiu que brasileiros, em curto espaço de tempo, pudessem expressar suas opiniões e desejos para um país melhor. Corrupção, violência, educação e respeito às diferenças de raça e cor foram temas muito abordados pelos brasileiros que enviaram seus vídeos para serem exibidos durante os telejornais da emissora. Todos os participantes encaminharam recados diretos, duros para os políticos brasileiros que elegemos, pedindo o fim da corrupção, punição para os políticos e agentes públicos desonestos, saúde e educação de qualidade para o povo. Aproveito o momento e as duas situações citadas acima para dizer, aqui nesta coluna, do Brasil que eu quero.
Moro ao lado da Escola Municipal Conjurados Resende Costa, que, a meu ver, pode servir de modelo para outras instituições de ensino brasileiras. Construída em 1963 e municipalizada em 1998, ela é espaçosa, limpa, bem conservada, oferece merenda escolar e transporte escolar gratuito para os alunos. Tem laboratório de informática, corpo docente qualificado e área de lazer de dar inveja. Na porta da escola, todos os dias, lá estão policiais militares para organizar o trânsito de veículos e dar segurança às crianças que chegam à escola ou saem dela.
Nessa escola, no último dia 28, anotei um bom exemplo. Para ilustrar um trabalho sobre folclore, a família de uma aluna convidou o Grupo de Congada Nossa Senhora do Rosário / São Cosme e Damião para uma apresentação. Fui até lá e vi toda a escola cheia de alegria assistindo ao grupo de congada.
Aqui reproduzo fotos que fiz. Uma foi na Escola Municipal Marcos de Oliveira Braga, do Distrito de Jacarandira, e a outra na sede do município. Em Jacarandira, os alunos, encantados e muito receptivos, receberam livros doados pela Associação dos Amigos da Cultura de Resende Costa/Amirco para a biblioteca da instituição. Na Praça Dr. Costa Pinto, no centro de Resende Costa, encontro-me sempre com um grupo de alunas da EM Conjurados Resende Costa. Semanalmente, elas se reúnem para conversar e ir a uma lanchonete. Semanas atrás minhas queridas vizinhas Lívia e Millena pediram-me que eu publicasse nessa coluna uma foto que tirei do grupo.
Pois, a partir de situações singelas como essas, o que eu desejo para todos nesse mês em que festejamos o dia dos professores e das crianças é o direito de ir e vir com segurança, saúde, educação de qualidade e respeito.
Tchau, Bananera!
15 de Agosto de 2018, por Edésio Lara 0

Camilo Bananera (Foto redes sociais)
No penúltimo domingo de julho, perdemos um amigo. Camilo Lelis da Silva completaria 64 anos em 3 de agosto. Passou mal num dia, morreu no outro. Foi tudo tão rápido que muitos só tiveram notícia da sua morte depois do seu sepultamento. Camilo foi um dos sete filhos de Tomé e Eleonilda, a Nilda do Tomé. Era chamado por todos de Camilo do “Tumé” ou “Bananera” (bananeira). O apelido de “Bananera”, segundo o Lúcio (Fumega) foi-lhe dado em virtude da banana de São Tomé. A banana, associada ao nome do seu pai, lhe rendeu esse apelido, do qual o povo acabou retirando a letra “i”, ficando “Bananera”.
Figura simples e de memória privilegiada, apreciava música erudita (clássica) e poesia. Não por acaso, gostava de assoviar trechos de obras importantes, como a 9ª Sinfonia de Beethoven ou uma das Ave Marias que ouvimos todos os dias através dos alto-falantes da igreja Matriz: a de Arcadelt, Zimmerman ou Schubert. De vez em quando, lá vinha ele recitando, e de cor, trechos dos Lusíadas de Camões. Todos os dias, às 6h, saía de casa assoviando uma das músicas prediletas. Era como um sinal de vida; todos sabiam que ele estava por perto. Poucos anos atrás, aventurou-se na atividade de compositor e ganhou o primeiro lugar em concurso de marchinha carnavalesca promovido pela Amirco (Associação de Amigos da Cultura de Resende Costa).
Vestindo calção, camiseta e chinelos, de preferência, circulava pelo comércio da cidade prestando pequenos serviços a várias pessoas. Sair para fazer uma fezinha no jogo do bicho, pagar contas na casa lotérica, levar documentos de um lugar a outro, buscar ervas que considerava medicinais e doá-las aos conhecidos, catar minhoca para os amigos pescadores ou capinar uma horta de couve, eram ações corriqueiras desse resende-costense bem-humorado e prestativo. Era, também, considerado um homem de confiança, honesto.
De vez em quando, tomava umas e outras. Mas era disciplinado, costumava anunciar quando ia começar e parar de beber e quanto tempo seria seu período de abstinência. Eram dois ou três meses sem colocar uma gota de bebida alcoólica na boca para, depois, atravessar uma semana inteira “invernado na manguaça”, como é de costume dizer. Aos familiares que insistiam para que ele parasse de beber, ele respondia: Amanhã tô bão, amanhã eu paro.
Certa vez, o Pepe (da gráfica) o chamou para pescar umas piabas. Fazia muito frio, portanto resolveram levar uma garrafa de cachaça e outra de conhaque para tomarem uma dose quando tivessem de descer rio abaixo para pescar. Chegando ao pesqueiro, resolveram cada um tomar um rumo diferente. Passados alguns instantes, Pepe ouviu ao longe o Camilo cantando e assobiando. Logo “caiu a ficha” do Pepe, que voltou ao ponto onde haviam deixado a bebida e um tira-gosto. Bananera havia consumido quase tudo o que levaram e já estava pronto para retornar a Resende Costa. Queria dar continuidade em algum boteco ao que havia iniciado na pescaria.
Camilo me disse que tinha por prazer chupar balas deitado enquanto assistia televisão. Nesse mesmo dia, me prometeu uma muda de gabiroba. Não teve tempo para isso. Segundo sua irmã Fátima, no hospital pediu água mineral sem gás e sopa de fubá, para o dia seguinte. Trouxeram-lhe a água na caneca, mas recusou. Tem de ser na garrafinha, disse ele ao seu sobrinho Jardel. Água com gás ele tomava quando estava decidido a encerrar o período de bebedeira.
O pequeno João Pedro, filho da Zana cabeleireira, era mais um dos seus amigos. Ao ouvir o assobio, João Pedro corria para a porta de casa para receber uma bala de presente. Faz pouco tempo, o garoto, além da bala, resolveu pedir ao amigo uns trocados. Bananera caiu na gargalhada e disse: Que isso, João Pode (como ele o chamava), quem precisa de dinheiro aqui sou eu.
João Pedro, após a morte do amigo, na sua pura inocência e com o olhar fixo no quadro da Divina Providência afixado na parede da sua casa, perguntou à sua mãe se tinha um “jeito de ir lá no Céu para se encontrar com o amigo e matar a saudade”.
O último dinheiro que o Camilo recebeu por um serviço prestado, ele resolveu distribuir para os amigos no bar do Dão. Sua irmã Fátima disse que a Rosa da Cezinha recusou os cinquenta reais que ele lhe ofereceu. Ele era assim: simples, alegre e desapegado de bens materiais. Quem não se lembra dele nos carnavais, fantasiado de palhaço e girando um prato esmaltado na ponta de uma vara?
Ações do Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura de Resende Costa
18 de Julho de 2018, por Edésio Lara 0
O Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura de Resende Costa, que ora presido, reúne-se periodicamente e tem realizado trabalho de importância para o município. Neste espaço, gostaria de destacar três ações relevantes que estão em curso. Em reunião realizada em maio último e em resposta ao Ministério Público Estadual, o Conselho mostrou-se empenhado em providenciar a limpeza e a sinalização adequadas das já tombadas ruínas históricas da Fazenda dos Campos Gerais e da Fazenda da Laje. Ante o compromisso do senhor prefeito municipal de disponibilizar os recursos necessários que chegam ao município através do ICMS Patrimônio Cultural, os trabalhos devem ser iniciados. Antes, porém, é preciso encontrar equipe capaz, treinada para trabalho que demanda cuidado específico na sua condução. Os locais onde foram erigidas as fazendas deverão receber cerca, limpeza total da área e placas de identificação. Terminados os serviços, o que se espera é que os interessados tenham acesso facilitado às mesmas. As ruínas são testemunho das origens do nosso município. Por isso mesmo é que foram tombadas e devem ser preservadas pelo município.
Outra ação que está em curso é o restauro de um crucifixo e dos altares laterais da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha de França. As intervenções, que vimos acompanhando in loco, podem ser visualizadas por todos. Para o trabalho minucioso, o pároco de Resende Costa, padre Fábio Rômulo Reis, se incumbiu de levantar os recursos necessários para a sua concretização. Os trabalhos vêm sendo realizados pelo Rogério, do Ateliê de Restauração Nossa Senhora Aparecida, de São João del-Rei.
Por fim, os seis Livros de Tombo da Paróquia de Nossa Senhora da Penha de França que, por insistência nossa, recentemente foram devolvidos à paróquia, deverão ser tombados pelo Conselho de Patrimônio após apreciação dos pareceres que justificam a decisão e que ficaram a cargo da jovem historiadora resende-costense e membro do CMPC, Ana Luíza Coelho Andrade. Após apreciação dos pareceres, o tombamento desses documentos importantes entra em pauta da reunião do Conselho nesse mês de julho. A partir de então, eles estarão disponíveis para consulta, não podendo ser retirados ou emprestados a quem quer que seja. O Conselho de Patrimônio sugere a digitalização dos documentos para que possam ser disponibilizados na Internet.
Ultimamente, o Conselho Municipal de Patrimônio e Cultura tem sido consultado por moradores e proprietários de imóveis antigos da cidade quando pretendem realizar algum serviço de reforma nos mesmos. Isso demonstra uma consciência que vem sendo construída pelas pessoas que reconhecem e veem a importância da preservação de imóveis, a começar, principalmente, por aqueles que se encontram no entorno da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Penha e do Teatro Municipal, por exemplo – ambos os imóveis tombados pelo município.
A Tixa e as crianças
12 de Junho de 2018, por Edésio Lara 0
No último mês de maio, iniciamos o que foi combinado com as diretoras das escolas do município de Resende Costa: a apresentação da Tixa para os estudantes da pré-escola ao ensino médio. A Tixa, definitivamente, tornou-se a mascote da cidade. Ao lado das esculturas da Tixa, todas caracterizadas e de autoria do escultor Leci Silva, muitas pessoas têm se deixado fotografar. As esculturas colocadas em diversos locais chamam a atenção de crianças, jovens e adultos. Seu sucesso tornou-se incontestável, desde o seu lançamento oficial, ocorrido em 8 de dezembro de 2017. Desde então, muitos tiveram acesso à Revista da Tixa. A revista, que tem texto de José Antônio Oliveira de Resende e ilustração de Pablo Quaglia Rodrigues, conta de maneira inteligente e bem-humorada a história da cidade, desde o seu nascimento, em 1749, aos dias atuais.
As crianças ficaram encantadas com a escultura da Tixa que nos acompanhou nas sedes das escolas municipais do Curralinho, Ribeirão e Jacarandira, bem como na Cmei Aquarela, esta na sede do município. Compareceram às escolas citadas alunos de outros povoados. Os do Cajuru, por exemplo, foram direcionados para Jacarandira, o que ocasionou momentos de confraternização e de troca de experiências entre professores e alunos. Os professores e funcionários prepararam bem os estudantes para o evento. Houve momento cívico com o canto dos hinos nacional e de Resende Costa no Ribeirão. Lá, cuidaram de produzir uma Revista da Tixa, que ficou exposta em um varal. Nos textos, alunos da 9ª série abordaram aspectos históricos, do cotidiano, dos trabalhos no campo, de afazeres domésticos e de belezas naturais. Houve, também, quem aproveitou o momento para nos alertar contra o preconceito, como manifestado pela pequena Emilly: “…Moramos numa comunidade / considerada quilombola/ que por esta questão / sofremos preconceito sobre cores e valores. // O desafio é grande / precisamos de fé e consideração / respeito à nossa cidadania / valorizando a nossa nação.”
Houve paródia apresentada em Jacarandira pelos alunos do lugar. Lá, ao escutar nosso carro chegando com a escultura da Tixa, ouvimos de uma voz vinda do interior da escola: “Ôba, a Tixa chegou!” Assim foi, também, que os pequeninos da Cmei Aquarela nos receberam. Com os olhos brilhando de alegria e curiosidade, todos tocaram a escultura com ar de encantamento. E, como não podia deixar de ser, fizeram questão de serem fotografados, depois de apresentarem trabalhos realizados em sala: recortes de desenhos da Tixa vestindo roupas coloridas.
Pois foi nesse ambiente festivo e de muita criatividade que eu, Lucas Lara e Fagner Oliveira, ambos da Secretaria de Artesanato, Turismo e Cultura de Resende Costa, fomos acolhidos. A Tixa, definitivamente, é uma realidade.
O centenário da Biblioteca Municipal Antônio Gonçalves Pinto, de Resende Costa
15 de Maio de 2018, por Edésio Lara 0
Em junho de 2017, dediquei atenção especial à biblioteca municipal nesta coluna. Naquela época, além de enaltecer as conquistas conseguidas com a edificação do prédio, apontei o que considerava importante a ser feito para tornar ainda mais qualificado os serviços prestados por ela. Hoje vejo que uma das questões levantadas foi contemplada: a sala de informática, o Telecentro. Decorridos 10 anos de inauguração do edifício, finalmente, ela foi instalada. Atualmente, a biblioteca abriga a Secretaria de Turismo, Artesanato e Cultura (SETAC), a sede da Amirco, o telecentro, uma sala de multiuso para pequenas reuniões ou minicursos, sala de leitura e um espaço em que estão guardadas obras raras. O que temos de fazer é explorar ao máximo tudo o que este espaço de cultura nos oferece.
Nesta edição, antes de comentar o evento promovido para festejar seu centenário, faço uma pergunta: para que serve uma biblioteca? A biblioteca pública, aberta à comunidade, segundo a cientista social Christine Castilho Fontelles, é o lugar por excelência para termos acesso gratuito aos recursos e atendimento, para que possamos fazer nossas consultas, empréstimos, pesquisas e nos tornarmos leitores. Mas, não basta o espaço e o acervo se não temos os interessados em leitura. E para que surjam novos e bons leitores, é preciso que, desde cedo, as crianças sejam educadas para esse fim. Segundo ela, educar para ler é uma missão que requer esforço, concentração e criatividade, principalmente em uma época com excesso de informações midiáticas e escassez de tempo, como a nossa. Ao que parece, nossa biblioteca tem contribuído para a formação de leitores em nossa cidade.
No último dia 28 de abril, a Secretaria de Turismo, Artesanato e Cultura promoveu um evento para celebrar os 100 anos de vida deste importante espaço sociocultural. Foram realizadas leituras de poesias, exposição e venda de livros, relato histórico da biblioteca, obliteração de selo realizado pelos Correios, homenagens a ex-servidores que prestaram e ainda atuam na biblioteca e, principalmente, aos leitores - por faixa etária - que se destacam como os que mais frequentam e tomam livros de empréstimo na biblioteca. Não há como não realçar os leitores homenageados: Alícia Maria Daher Oliveira, Petúlia Vitória Resende, Paulo Eduardo de Andrade e Elódia Rita de Resende Paiva. O prêmio dado aos quatro foi o ponto alto da cerimônia. E como não poderia deixar de ser, aplausos calorosos recebeu a pequena Alícia Maria que, como foi dito pela Cláudia Lúcia Pinto Resende, atual funcionária que responde pelo espaço, “parece ter nascido na biblioteca; frequenta-a desde que nasceu”.
Por fim, gostaria de fazer um registro para este momento de festa. Não podemos nos esquecer da figura de Gilberto José Pinto (1948-2015), ex-prefeito da cidade que, durante seu terceiro e último mandato, acolheu dos mais próximos a recomendação de que a cidade necessitava de um espaço mais amplo, confortável e moderno para abrigar a biblioteca. Fez coro junto aos correligionários o Jornal das Lajes. Desde a fundação do jornal, que acabou de completar 15 anos de atividade, questões relevantes relacionadas à cultura e às artes tem sido abordadas pelos seus colaboradores. A biblioteca sempre esteve entre os tantos assuntos de interesse da comunidade versados pelo periódico.
A biblioteca pública, que desperta a atenção de turistas e os cuidados dos resende-costenses, ainda tem muito a oferecer. Nós que a frequentamos, precisamos nos unir para ajudá-la a ampliar seu acervo e propor ações que possam tornar o espaço mais atraente e qualificado. Os serviços precisam ser informatizados para facilitar o acesso ao acervo e controle sobre empréstimos de livros. Podemos acrescentar ainda a ampliação do horário de atendimento ao leitor e a imediata contratação de profissional especializado em biblioteconomia já aprovado em concurso público. Cabem ainda duas questões que julgo importantes: facilitar o empréstimo de livros para os que moram nos povoados da cidade e uma pesquisa sobre o perfil e as demandas dos leitores que possa ajudar a apontar ações positivas de aperfeiçoamento do atendimento ao público.