Voltar a todos os posts

C Á L I C E

30 de Setembro de 2026, por João Bosco Teixeira

Chico Buarque

 

A vergonha que tenho sentido nestes dias é tamanha que quase gera em mim descrer da humanidade. Não posso, entretanto, confundir a humanidade com o grupelho de “intocáveis”. Em homenagem a estes, hoje vou de Chico Buarque, dada a impossibilidade de produzir algo mais rico e mais fiel ao momento. Não pedi licença ao Chico, temendo que a negasse.

 

PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE DE VINHO TINTO DE SANGUE

 

Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor engolir a labuta.

Mesmo calada a boca, resta o peito. Silêncio na cidade não se escuta.

De que me vale ser filho da santa, melhor seria ser filho da outra.

Outra realidade menos morta, tanta mentira, tanta força bruta.

 

PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE

 

Como é difícil acordar calado se na calada da noite eu me dano.

Quero lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado.

Esse silêncio todo me atordoa. Atordoado eu permaneço atento

Na arquibancada pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa.

 

DE VINHO TINTO DE SANGUE

 

De muito gorda a porca já não anda. De muito usada a faca já não corta.

Como é difícil, pai, abrir a porta, essa palavra presa na garganta.

Esse pileque homérico no mundo. De que adianta ter boa vontade

Mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade.

 

PAI, AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE

 

Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado.

Quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno.

Quero perder de vez tua cabeça, minha cabeça perder teu juízo

Quero cheirar fumaça de óleo diesel. Me embriagar até que alguém me esqueça.

 

DE VINHO TINTO DE SANGUE

Deixe um comentário

Faça o login e deixe seu comentário