O resultado saído das urnas no primeiro turno das eleições, no domingo, 4, revelou um Brasil inclinado à direita. A leitura que se faz é de um Congresso Nacional ganhando contorno mais conservador a partir de 2027. Na Câmara dos Deputados, o PL teve um aumento de 23% na sua bancada (para 121 parlamentares), enquanto o NOVO, que mudou o seu perfil (mais para a direita), saltou de 3 para 10 deputados – no total, são 131 deputados. Na outra ponta, o bloco da esquerda soma 88 deputados da Federação PT/PCdoB/PV; PSB (15) e PSOL/Rede (15), no total de 118 parlamentares.
O chamado centrão, que sempre pende para o governo de plantão de acordo com a conveniência, sofreu danos com o avanço da direita. A Federação União/PP totaliza 87 parlamentares, dos quais 46 do União Brasil (menos 13 em relação a 2023) e 41 do PP (menos 6). O PSD ganhou 1 deputado (passando para 43) e o Republicanos manteve a bancada (41 deputados).
Já MDB e PODEMOS somaram, respectivamente, 36 deputados (6 a menos) e 27 (9 a mais). E a Federação PSDB/Cidadania perdeu dois (caindo para 11 deputados).
Nestas eleições, verificou-se uma redução (para 20) no número de partidos em atividade, fenômeno que ocorre após mais de 20 anos, como observou o cientista político Renato Dolci (CNN Brasil, 07/10). É que a cláusula de barreira (combinação de votos ou de deputados com a presença mínima exigida no país) atingiu, nestas eleições, os partidos e federações PDT (6), Avante (5), Missão (1), PRD/Solidariedade (7) e PSOL/Rede. Haverá extinções ou fusões de partidos? Transferência de deputados para outros partidos? Continuará a tendência de redução de partidos?
Senado
No Senado, o resultado mais avassalador foi o aumento de 75% na bancada do PL (para 28 senadores). Já o NOVO ganhou três senadores e o Republicanos manteve 6.
No grupo que transita entre os governos, a Federação União/PP soma 10 mandatos (1 a menos do que em 2023); PSD tem 5 (perdeu 9 mandatos); e MDB, 8 parlamentares (perdeu 1).
No grupo mais à esquerda, o PT manteve 9 mandatos; o PSB perdeu 3 (caindo para 4); e o PDT perdeu 1 (de 2 anteriores). Já PODEMOS (2) e PSDB (2) perderam mandatos, enquanto a REDE ganhou o único.
Esgotamento
Nestas eleições, verifica-se o esgotamento do modelo político tradicional e a ascensão de um novo perfil de parlamentar (fortemente conectado às redes sociais e às suas bases ideológicas), de acordo com o cientista político Renato Dolci (CNN Brasil, 07/10). Além dos blocos dos políticos tradicionais (que mais sofreram) e dos “políticos influencers” (Nikolas Ferreira, por exemplo), ele acrescenta o bloco das “celebridades”, que possuem grande número de seguidores nas redes, mas não constroem comunidades políticas organizadas.
No grupo de políticos tradicionais, não conseguiram eleger-se senadores como Renan Calheiros (MDB-AL), Ciro Nogueira (PP-PI), Espiridião Amin (PP-SC) e Randolfe Rodrigues (PT-AP). Também ficaram fora deputados federais que tentaram vaga no Senado como Gleisi Hoffmann (PT-PR), Benedita da Silva (PT-RJ), Roseana Sarney (MDB-MA) e Aécio Neves (PSDB-MG). E não conseguiram retornar à Câmara dos Deputados nomes como os de Eduardo Cunha e José Dirceu.
Estamos finalmente diante de um movimento de renovação na política? O eleitor começou a substituir políticos tradicionais e de peso na política brasileira por neófitos ligados às tribos digitais? Com o tempo talvez tenhamos a resposta se se trata de um movimento de renovação consistente e de qualidade ou somente mais uma “onda” impulsionada pelas mídias digitais.
Assuntos polêmicos
O novo Congresso Nacional, pelo seu novo perfil, tenderá a priorizar temas como a abordagem do crime organizado como organizações terroristas (seguindo a tendências das Américas sob influência de Donald Trump); processos de impeachment de ministros do STF (ou uso deste recurso para pressionar o Supremo contra decisões monocráticas polêmicas); maior liberalidade no trato das questões ambientais (em favor de produtores rurais e dos combustíveis fósseis); e revisão da reforma tributária em fase de implantação (prioridade aos dois impostos básicos e redução da alíquota final do IVA-Imposto sobre Valor Agregado prevista em 28%).
Em um sistema disfuncional como o nosso, que ora tem uma presidência forte, ora um STF intervencionista, o Congresso Nacional tende a manter – e mesmo aumentar – o seu poder, podendo ocasionar um desquilíbrio de forças no sistema democrático. Ou seja, combater desequilíbrio com desequilíbrio! A captura de parte do orçamento deve continuar, ou mesmo avançar, principalmente na forma como os recursos são canalizados para as bases eleitorais (exemplo são as emendas parlamentares).
Porém, o mais difícil será desatar o nó das escandalosas taxas de juros na economia (entre as mais altas do mundo), consequência (e não causa) dos gastos elevados e do endividamento público. Não nos surpreenderia se houvesse uma forte recessão econômica no início do atual governo – aliás, o que já vem sendo alertado por inúmeros economistas independentes -, com aperto das contas públicas para trazer a inflação para dentro da meta e começar a criar as condições para reduzir juros e iniciar um novo ciclo de crescimento.
A questão é que, mesmo que haja austeridade no setor público, o orçamento engessado impede que sobre dinheiro para investimentos. De qualquer forma, é preciso que haja estabilidade econômica e jurídica para abrir espaço ao investimento privado em setores como saneamento básico, transportes (ferrovias, metrôs, veículos elétricos etc.), transição energética (prioridade às energias limpas), exploração de terras raras e formação profissional para a era da inteligência artificial. Estarão o novo Congresso e o governo a ser eleito no segundo turno preparados para este grande salto, em busca do desenvolvimento sustentável, que gere riqueza em benefício das famílias e dos cidadãos?
Investimentos
Recentemente, o economista e professor Roberto Macedo lembrou (em artigo no jornal o Estado de S. Paulo, 02/10/2026) que “o principal problema do País no período pós-1980 tem sido o baixo crescimento econômico. Se o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil crescesse bem mais, haveria mais renda, empregos e até mais impostos para o governo”. Simples assim.
Em atitude corajosa, ele enfatiza: “Em outras palavras, a concentração do governo em gastos sociais eleitorais difunde falsamente a visão de que está tudo bem, quando uma opção de mais gastos em infraestrutura e maior crescimento poderia até trazer mais recursos para os próprios gastos sociais”. Uma opção que foi feita, de maneira correta, pelos países hoje desenvolvidos; ou seja, “de ampliar gastos sociais paralelamente ou a reboque dos gastos em infraestrutura”.
Mas, para que haja crescimento econômico, é preciso “mais poupança e investimento e não gastos em consumo. Esses gastos têm de ser feitos com o que sobrar após a poupança e o investimento. As pessoas se iludem com o consumo, a ponto de se endividarem muito, e os políticos lhes dão aquilo de que gostam, o que no Brasil é evidente”.
No mesmo artigo, Macedo cita reportagem do jornal Folha de S. Paulo (20/09), segundo a qual oito leilões de ferrovias, seis de rodovias, cinco de hidrovias e quinze de portos e canais de acesso devem ficar para o próximo governo. “R$ 200 bilhões é muito dinheiro.”
Futuro
Outro questionamento que surge a partir do novo perfil predominantemente conservador do Congresso Nacional, saído das urnas no último dia 4, é se os desafios reais que afrontam o Brasil e os brasileiros realmente entrarão em pauta, como segurança pública, saúde, desenvolvimento econômico e educação. O período eleitoral lamentavelmente privou o eleitor de um debate profícuo de ideias e propostas. Numa campanha em que se priorizou engajamentos digitais, ataques e radicalização, os temas que verdadeiramente preocupam e impactam o brasileiro no seu dia a dia foram jogados para debaixo do tapete. Neste cenário de incertezas, o futuro da nação, como diz o adágio popular, “a Deus pertence”.
Este artigo foi fechado no dia 12/10/2026, antes do segundo turno das eleições.

