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Uma campanha eleitoral movida por excesso de paixões

22 de Outubro de 2026, por André Eustáquio

Não há dúvidas sobre o poder e a influência das paixões nas decisões e nos costumes dos indivíduos. Somos animais racionais, mas vez ou outra nos surpreendemos com os efeitos e as artimanhas das paixões em nossas vidas. Não que as paixões sejam ruins ou totalmente prejudiciais, o que preocupa, no entanto, é quando nos excedemos e deixamos que elas governem nossas ações e decisões.

É demasiadamente humano sentir o emocional - o que vem dos fluidos corporais e das sensações, como teorizou o filósofo francês René Descartes (1596-1650) - vencer a previsibilidade da razão. Os apaixonados por futebol certamente já experimentaram reações eufóricas ao torcer pelo seu time de coração. Quando o jogo acaba e a adrenalina normaliza o nível, vem logo o questionamento: foi eu mesmo que xinguei aqueles palavrões todos? Mas o papo agora é sobre as paixões na política. Aliás, quem disse que futebol e política não se discute? Se ambos possuem algo em comum, esse algo se chama PAIXÃO.

Assistindo aos últimos capítulos da campanha eleitoral do segundo turno das eleições, é nítido constatar o quanto as paixões dominam o eleitor, influenciando o seu dia a dia, a sua convivência pessoal com familiares e amigos, mas, especialmente, a militância nas redes sociais. Num cenário de total polarização entre duas forças políticas lideradas por figuras messiânicas, o eleitor, sobretudo o mais politicamente partidarizado, é movido menos pela razão e mais pela paixão.

Se considerarmos a paixão como uma “doença da alma”, tal como problematizou historicamente a filosofia ocidental, atribuiremos a ela os excessos e o estreitamento da nossa capacidade de avaliar, de perceber e decidir com equilíbrio e sabedoria. Não é o que estamos vendo na política? Excesso de paixões e dificuldade de manter o equilíbrio racional para bem avaliar projetos importantes para o país?

Vemos também as paixões, com seus excessos e cegueira, disseminarem ódio e desrespeito por quem pensa diferente. É a política se assemelhando cada vez mais às fanáticas torcidas organizadas nos estádios de futebol. Num contexto político onde a intolerância supera o diálogo, o que se vê é uma campanha eleitoral barulhenta, incômoda. Gritos histéricos, acusações raivosas e dedos em riste para o adversário sobrepõem-se ao debate propositivo de ideias e de propostas e à tolerância para com o pensamento distinto.

Nestas eleições, as paixões exacerbadas, de candidatos e apoiadores/torcedores cegamente apaixonados, inviabilizaram a discussão de projetos para o país, lamentavelmente. Lulismo e bolsonarismo entraram no ringue da disputa eleitoral movidos pelo ódio mútuo e alimentados pela cega paixão dos seus apoiadores. No ocaso da campanha, perdeu o eleitor que esperava por debates minimamente realistas, sensatos, inteligentes e equilibrados. A paixão, com seus atributos idólatras, venceu a razoabilidade que se espera de um bom debate político.

Seria por demais utópico ansiar pelo equilíbrio nestes últimos dias que antecedem a votação do segundo turno? Falo principalmente para o eleitor que ainda não se contaminou pela retórica cega e apaixonada dos dois extremos que disputam o poder. Àqueles que escolheram unicamente o lado emocional da política, não é demais pedir que respeitem as opiniões contrárias? Afinal, o que é a democracia se não o respeito pelo contraditório, a garantia do livre pensar e agir com responsabilidade? Se defendemos apaixonadamente a democracia, comecemos por respeitar opiniões e escolhas diferentes das nossas.

Se soubermos, enfim, usar as paixões que habitam em nós como força inspiradora e motivadora e não como arroubos de ódio e de desrespeito a quem pensa diferente, quem sabe conseguiremos, no crepúsculo deste conturbado período eleitoral, resgatar o que há de mais caro e gentil na democracia: garantia das liberdades e prevalência do respeito pelas diferenças.

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