A crítica contemplação
17 de Setembro de 2014, por Evaldo Balbino 0
Depois de ter lido minha crônica “Nós e os folhetins”, publicada nesta coluna em novembro de 2012, um amigo, o André Eustáquio, mandou-me comentários em tom de cumprimento. E neles ele me dizia que também assistia a novelas já havia bastante tempo e que estava numa fase de escolha das melhores. Disse também que não tinha muita paciência para acompanhá-las desde o início; que às vezes até o fazia, como em Gabriela, que terminara havia pouco. Defendeu que devemos, de fato, criticar a hipocrisia radical, fundada entre alguns intelectuais, segundo a qual a Rede Globo não presta e é absurdo assistir a novelas. Mesmo reconhecendo que, na televisão brasileira, há muito preconceito infundado, hipocrisia e bobagem mesmo, ele afirmou existirem muitas programações, além de jornalismo, no campo da arte e do entretenimento, que nos edificam. E foi argumentando que necessitamos da arte, do lúdico e da estética, como seres contemplativos que somos. E citou grandes atores, como Ney Latorraca, Antônio Fagundes, Glória Pires e Fernanda Montenegro. Atores que estão nos palcos do teatro e nas telenovelas. “Será que se tornam atores menores quando trocam o teatro pela TV?” – perguntou o meu amigo, e foi ele mesmo respondendo que acreditava que não. “Existem músicas boas e ruins, peças teatrais boas e ruins, óperas boas e ruins e também novelas. O importante é termos opções e, principalmente, discernimento para escolher o que mais nos agrada e edifica”.
Devemos sim criticar a referida hipocrisia radical. Hipocrisia, digo, porque muitos criticam o gosto da maioria e não admitem que, em alguns momentos, também “degustam” alguns programas da tela e até mesmo da referida rede tão difamada.
Se juntamente com a hipocrisia há muito preconceito infundado, também há bobagens o tempo todo na tela de uma TV. Fala-se mal o tempo todo da televisão brasileira e se faz isso na perspectiva de que no Brasil tudo é ruim, nada presta. Ora, muitas vezes nos faltam parâmetros para fazer tal julgamento. Lembro-me de quando morei em Madri, quando pude verificar que a televisão aberta na Espanha oferece basicamente o que eles chamam por lá de basura, ou seja, de lixo. Nas manhãs, tardes e noites frias espanholas, o que eu via na TV eram programas de fofoca, de bate-boca, de baixaria, de reality shows de nos fazerem sentir náuseas. No Brasil é diferente? Não. Mas temos aqui canais televisivos abertos com programas que valem a pena, que nos edificam. Tanto aqui quanto na Espanha, é claro.
Não tomo o verbo “edificar” apenas no sentido de “conduzir ou ser conduzido à virtude, pelo exemplo ou pela palavra”. Principalmente quando se fala de arte, e aí me refiro a uma telenovela como, por exemplo, Gabriela. Já ouvi muitas pessoas gabaritadas, numa preocupação feminista, abominando o machismo predominante na obra de Jorge Amado, na medida em que o escritor contribui para o fetichismo do corpo feminino. Isso nos demonstra que, em termos de arte, o que é e o que não é virtude, o que é e o que não é exemplo, são na verdade demarcações de difícil mensura. Ética e estética não caminham necessariamente juntas, infelizmente. Podemos ler um texto excelente do ponto de vista artístico, e que, no entanto, apresenta sérios preconceitos como o racismo. A obra de Monteiro Lobato, em alguns pontos, fica aqui de exemplo. Há racismo na obra de Lobato? Há. Mas isso não diminui a grandeza de seus escritos. Cabe a todos nós lermos criticamente. E, é lógico, se o que guia a minha leitura for um critério apenas ético, terei que abominar certas obras.
O que me edifica, então, é o que me ajuda a construir-me como sujeito crítico. Assim como se edifica uma construção, também nós somos construídos e nos construímos. Desse modo, por exemplo, podemos reconhecer numa boa telenovela o que há de ruim em termos éticos, mas também o que há de bom em termos estéticos.
Falar de arte é falar de contemplação. Contemplar é fixar o olhar em (alguém, algo ou si mesmo), com encantamento, com admiração; é observar atentamente, analisar, levar em consideração, aprofundar-se em reflexões, meditar, fazer suposições sobre, imaginar; enfim, contemplar é olhar com minúcia, é namorar, é estar enamorado. E quando namoramos a arte, não devemos, apaixonados, nos entregar completamente.
Grandes atores estão na televisão. E os que realmente são grandes dão perfeitamente conta de um palco de teatro, onde o improviso e o estar diante de um público e ao vivo são fatores que de fato colocam à prova qualquer talento na arte da interpretação.
Tudo na vida é uma questão de garimpos, onde trigo e joio convivem e muitas vezes se imiscuem. E nós com a necessidade de separar um do outro, como se isso fosse sempre possível. Se nossa construção se fizer valer, se formos nos tornando cada vez mais críticos, aí sim poderemos fazer garimpagem sem radicalismos, fazer explorações com mais desenvolturas, e poderemos abrir mão de posturas previamente estabelecidas e infundadas.
O tecelão se (nos) tecendo
13 de Agosto de 2014, por Evaldo Balbino 0
Meu aniversário é no dia 24 de maio, mês das noivas, do casamento. Acho que é por isso que escrevo tanto sobre amor, erotismo e Deus. Afinal tudo isso tem ares de eternidade, de algo perene, de união. Nascer em maio é desmaiar-se de amores, é ouvir rumores, cânticos de Maria, novenas de maio. Em maio eu desmaio sempre, de amor.
Deus é erótico. E nós, à sua imagem e semelhança, também o somos. Ele é tão erótico que deseja sempre nos desposar no deserto. E tem ciúmes de nós. Não aceita de jeito nenhum que busquemos outro que não ele. É exclusivista e passional. É amante possessivo. Aliás, todos os deuses são assim, proprietários. Não conheço um sequer, nas grandes religiões monoteístas e também nas politeístas, que não seja nem um pouco ciumento. Todo senhor, mesmo aceitando compartilhar seu servo com outros senhores, faz isso meio desgostoso. Por isso nos damos tão bem com ele, o nosso Deus. Numa relação tensa e agradável, nos sentimos também seus proprietários. No espelho de Narciso nos contemplamos, possuidor e possuídos, e nos misturamos. Nascemos para Deus porque almejamos a eternidade.
Também escrevo sobre a morte o tempo todo. Não há como não pensar nela. E ela, certamente, sempre está pensando em nós, amando-nos de soslaio com seus olhos escuros de um brilho sem luz. Ela fica nos espreitando e desejando nossos corpos. Quer-nos inteiros no seu seio de amante fácil, mesmo que atomizados na terra. Ela nos ama tanto que quer nos destruir e fazer com que sejamos simplesmente nada. Seu mais íntimo desejo é nos confundir consigo.
Falar de Deus e da morte é uma coisa só – é falar de amor. Um ato contínuo de contrição, um olhar pasmado sobre o que não entendemos. E não entender é tudo o que nos resta, com espasmos de espera e adoração. Não há teologia que nos salve com sua ciência, mas o sentir da fé nos consola, nos faz ovelhas tresmalhadas se reencontrando e se enroscando em apriscos terrenos.
Além de ter nascido em maio, nasci também na zona das Vertentes. Mas já me disseram que "zona" é uma palavra muito feia. Para mim, nenhuma palavra é feia. Inclusive adoro os execráveis “palavrões”! Os abomináveis e forçadamente exilados de nossa língua, mas que no seio dela mesmo existem. Matreiros, com olhos de gula e fome, os ditos palavrões acenam para mim, piscam os olhos, me seduzem. Podem me dizer “Região das Vertentes”, “Campo das vertentes”, e tudo sempre será a zona mesma da nossa vida e não outra.
Nesta zona nascemos, a da vida. Nela também crescemos e morremos. Neste mundo múltiplo e maravilhoso. E quando nos sentimos perdidos perante a reverberação dos estilhaços de tudo, basta pensarmos na beleza da existência. Na engrenagem que nos leva não sabemos para onde, mas que é puro movimento. É vida pura.
Sempre é difícil a gente se definir, como aparentemente estou tentando fazer nesta crônica. Aliás, qualquer definição é impraticável. Posso apenas dizer que sou um ser que tenta compreender a si mesmo e aos outros, que busca entender o mundo e tudo o que nele existe, a vida existente e suposta. E que tenta fazer isso através das palavras, do revolvimento delas. Por isso escrevo, por isso dispo o que quer que seja e me dispo. O mundo despido se nos entrega em plena nudez. E escrevendo eu vou lutando, sempre e cada vez mais.
É como se escrever fosse um modo de lutar contra a morte. E lutar contra a morte, neste caso, não é apenas sonhar com a eternidade, o que já é muito. Lutar contra a morte, escrevendo, é também lutar contra o silêncio do não entendimento, da planura vaga e vã. Escrever, então, é produzir rumores, é exorcizar ausências, para fugir da solidão e do silêncio. Escrever é fugir do nada.
E fugindo do nada, vou narrando vidas (a minha própria também), sempre reinventadas. Vou tecendo colchas de palavras, para com elas esconder-me do frio do esquecimento. Pois esquecer desaquece. E o calor da memória se faz necessário para corpos tão sequiosos de pulsação e vigor como os nossos. Nascemos para ser eternos. E para não morrer, vou traçando biografias, desdobrando-me em várias faces, umas bonitas e outras feias, e por isso sempre humanas e divinas. Feitos à imagem e semelhança de Deus, como ele somos terríveis e belos. Toda representação carrega isso, essas dubiedades. Nossos discursos padecem do contraditório. Dou graças a Deus por tanta imperfeição, pois assim nos movemos, aos trancos e barrancos, para a plenitude. Movemos-nos enquanto existe vida.
Não me defino, eu sei; mas me escrevo. Vou gerando no útero das palavras a mim mesmo. E o meu retrato, com traços de fingimento e verdade, é o retrato de todos nós, os que sobrevivemos dia após dia. Grávido de tudo e de mim mesmo, portanto prenho sempre de indagações, eu me crio e me destruo constantemente. Sou Penélope. A antiga e sempre Penélope com sua tessitura.
A cidade (des)ordenada
16 de Julho de 2014, por Evaldo Balbino 0
Copa do Mundo 2014. Direi aqui o óbvio, mas não falarei mal da Copa. Direi de algo que me incomoda há 19 anos aqui em Belo Horizonte. Enfrentam-se agora, no estádio do Mineirão, os times da Colômbia e da Grécia. E neste exato momento, depois de ter chegado das ruas, escrevo este texto.
Nunca se viu tanto policiamento pelas ruas de BH, como hoje está se vendo. As estações de metrô, as de ônibus, principalmente as do “moderníssimo” MOVE que acabou de ser inaugurado aos trancos e barrancos, a rodoviária, e também o Aeroporto de Confins. Tudo cheio de policial, de fardas bélicas oferecendo-nos segurança. No meio das pessoas, indo e vindo como formigas desordenadas, não há como não perceber, destacando-se entre todas, os corpos dos policiais, seus coletes à prova de bala, seus cassetetes, suas armas potentes, os cães que lhes dão apoio, cavalos sobre os quais se põem mais fortes e audaciosos. BH está hoje segura. Andar pelas ruas é como estar numa redoma, protegido.
Porém não é assim que se anda nesta capital nos dias comuns, no cotidiano mesmo, fora da Copa do Mundo. Constantemente somos abordados pela pobreza, pela marginalidade, pelos roubos, pelos assaltos, pelos sequestros. Constantemente, dependendo dos trechos pelos quais passamos, ouvem-se tiroteios, veem-se brigas, desordens de todo tipo. Como se já não bastasse um trânsito caótico, confuso, mal-educado.
As ruas de BH, por estes dias, estão mais limpas, pelo menos as vias principais da cidade. As faixas de pedestre ganharam tinta nova, as placas melhoraram em termos de visibilidade, a sinalização foi otimizada, as obras públicas aceleraram-se. Mesmo assim, alguns trechos da urbe foram flagrados sem preparo pela Copa. A Avenida Pedro I, por exemplo, que é uma das vias de acesso ao Aeroporto de Confins, está um caos. Quase tudo nela inacabado. Eu mesmo acompanhei o drama de uma família que foi desalojada dessa avenida. Foi tirada de uma casinha simples, mas digna, construída há décadas à margem do logradouro. A família até hoje está vivendo de aluguel, pois o dinheiro da desapropriação ainda não foi liberado. Famílias inteiras foram expulsas da avenida para que se abrissem alas para a Copa. Alas mal abertas, diga-se.
Moro há 19 anos em BH e venho acompanhando as lutas de associações de bairros, de comunidades inteiras, de alguns políticos (poucos) e de organizações sérias por reformas urbanas, por melhorias de transporte, por alargamento de avenidas, pela reformulação da nossa rede de metrô que é vergonhosa. E tudo, tudo sempre veio caminhando a passos lentos, num “devagar quase parando”, como dizem muitos. Obras feitas e refeitas, prazos estendendo-se indefinidamente, licitações e mais licitações a perderem-se de vista, viadutos já prontos há alguns meses e novamente desfeitos e outra vez construídos. E os nossos impostos pagando essa festa de gastos sem eira nem beira.
Ao lado da morosidade das obras, as filas também são morosas. Nos supermercados, nos hospitais públicos, no INSS, nos bancos, até mesmo nas clínicas de atendimento médico àqueles que têm um plano particular de saúde. Fico horrorizado toda vez que passo pela região hospitalar e vejo pessoas novas e idosas, muito enfermas, mal conseguindo caminhar, compondo uma fila infindável. E falo de tudo isso não apenas como espectador, uma vez que já senti na pele a precariedade de tal atendimento.
Em 2006, meu cunhado veio com leucemia para BH e foi atendido rapidamente, porque estava nos seus últimos estertores. Foi uma luta constante o dia-a-dia na Santa Casa. O oncologista estressado (respondendo-me mal pelo corredor, negando-se a me dar esclarecimento), as enfermeiras superocupadas com tanto doente para atender, as dores do meu cunhado aumentando, as enfermeiras dizendo que não tinham analgésico, e eu insistindo, então, que compraria um remédio numa farmácia, e elas me dizendo que isso não seria possível, e eu educadamente exigindo uma receita, o médico (irritado) me passando a prescrição, as dores do meu cunhado sendo apaziguadas para voltarem em seguida, suas hemorragias aumentando, a ida dele para o CTI. E a morte. A definitiva morte. Do mesmo modo, mais recentemente, minha mãe precisou usar o mesmo atendimento público de saúde aqui, e foi passando por sucessivas triagens que não nos levavam a nada. Meus pais acabaram por pagar uma cirurgia urgente, na rede particular mesmo, em São João del-Rei. Ainda bem que deu tudo certo no caso dela.
Mas hoje é um sábado de jogo. Belo Horizonte parece tranquila. Está eufórica, feliz. Estamos seguros, com saúde, com organização. Estamos na Copa do Mundo. E todo o óbvio que aqui digo é necessário. Às vezes faz falta ouvir o óbvio, para não esquecermos a dura realidade.
Um cartão e seus desdobramentos
13 de Junho de 2014, por Evaldo Balbino 0
Recebi outro dia um cartão diferente. Não um cartão-postal, mas um cartão de felicitações feito com esmero e carinho. Um presente artesanal. Era um cartão cheio de flores, de fundo todo azul, numa mistura de céu e mar, mar e céu. E na lateral do fundo azul, profundo e suave, destacando-se com brilho, havia um golfinho.
Artesanatos me consomem de tanto admirá-los. Vejo-os e vejo mãos trabalhando numa deliciosa faina de criação. Vendo-os, vejo os seus criadores, deuses quase perfeitos nesta face de terra.
No cartão me vieram flores. Num tom roxo, cor da paixão. Com suas ramas em riste, aquelas flores me florearam todo, me arrebanharam como um pastor faz com as ovelhas perdidas no campo. Elas eram cores no papel, mas me vieram perfumadas, exalando vida que não termina nunca. E por não terminar, por ser eterna enquanto eu olhava para o cartão, a vida minha agradeceu aquela oferta. Uma bandeja se me deu com flores. E o tom roxo das pétalas sobre ramas verdes de esperança me fez rememorar o eterno Cristo, o deus feito homem, a concretude pura da vida vencendo a morte. E ele também, o Cristo poético, é roxo em minha memória. Roxo de feridas, de dores, de amores por todos nós, que não somos deuses. Quando vejo flores, não tem jeito: meus desejos são florais também. Olhando para o cartão, pus a amar-me como nunca. Vi-me bonito, pronto para passear em praça pública, para dar e receber olhares. Pronto para ser feliz.
O fundo azul do cartão, numa mistura de água e céu, levou-me a paragens profundas, a sensações líquidas e gasosas. Senti-me ao mesmo tempo nas profundezas dos mares e nas alturas do espaço. Nadando nos ares e voando em oceanos de vida, eu me tornei argonauta sem peias. Erguido nas nuvens como balão espaçoso, nadei na líquida existência em que nos afogamos todos. Com ousadia de nadador infrene, lancei meus tentáculos de amor pela vida.
E que calma, que tranquilidade aquele fundo azul me concedeu! Vendo-me água e ar, pude sentir a leveza da vida. Não a leveza do que se esvai, do que fenece. Mas a leveza que nos transporta sem gravidade, para além mesmo das coisas graves da vida. Levitei, olhando para o cartão de fundo azul.
E que beleza de brilho o do golfinho! Um golfinho no fundo azul. Se realmente brilham os golfinhos, não sei. Talvez com a água escorrendo-lhes pelos corpos, com a luz do sol atravessando tudo, eles sejam assim mesmo: brilhantes. Cintilantes como a vida. E digo isso, porque precisamos de qualquer coisa que brilhe. Sem brilho, tudo é tisnado pelas tristezas que nos olham sempre. E uma vida completamente maculada não nos consola. Talvez os golfinhos brilhem mesmo. Com seus olhos espertos, com seus corpos ágeis. O que importa é que o meu golfinho, o que me veio vivo no cartão, brilhava. E ainda brilha se de novo eu olhar para ele.
Ah, devo dizer que amo os golfinhos! Seus saltos me engolfam, me colocam em transe. Seus saltos me tomam e me tornam um saltador. Sinto-me, com eles, um equilibrista das águas. Sinto-me o próprio Pedro, naquele episódio de Mateus. Ouço a voz roxa de Jesus, completamente apaixonada, me chamando: “Vem!”. E eu ando sobre as águas para ir ter com ele, o deus humanizado. O que chorou também, o que teve dores. O que também morreu. E vendo o golfinho, seus nados velozes, sou um Pedro corajoso. Não há vento forte, não há medo em mim. Não vou ao fundo, pois antes mesmo de clamar “Senhor, salva-me!”, já estou salvo por mãos estendidas segurando-me. Minha fé é pouca, é grão de mostarda. Mas com ela removo montanhas, por ela não duvido do meu andar sobre as águas, da bonança da vida, do aplacamento das tempestades. Sem perigo nenhum, meus pés andam sem gravidade que os pese. Andam sobre águas azuis refletindo o céu. E por isso mesmo ando também no espaço. Sou argonauta de novo sem o medo das profundidades perigosas que nos assaltam. E meus saltos são de golfinho, animal e divino. Deus me concede esta façanha.
Também a façanha de amar. Pois amar é compreender o outro, é aceitá-lo na sua diferença e em suas desavenças conosco. Amar quem nos ama é fácil, isso não conta. Mas amar a todos, isso é tão profundo e complexo como o próprio mar. E perigoso também.
Amando perigos, amo todos os animais. No meu espírito aventureiro, saltando como um golfinho, também amo os seres humanos. Nós, pobres animais tão ricos. Tão cheios de virtudes e complexidades. Mais neuróticos que os demais, talvez soframos mais do que todos. Mas isso não tira as cruzes que os outros também carregam. Por isso é que defendo: ajudemos uns aos outros (humanos e animais) a carregar tantas cruzes, como se disséssemos, tal o Cristo: “amai-vos uns aos outros, como eu vos amo”.
E para amenizar tantas cruzes, basta amarmos muito. E a todos sugiro os simples gestos da vida. Como, por exemplo, o de enviar um singelo cartão.
Pra não dizer que não falei da vida
15 de Maio de 2014, por Evaldo Balbino 0
Para Geraldo Vandré e outros mais
que tanto e belamente falaram, falam e falarão.
Quando conheci o livro Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, uma dádiva se me deu.
Lá no Ensino Médio, em Resende Costa, tive acesso a apenas um fragmento da obra, pelas mãos da nossa professora Regina Coelho. Era aquele trecho que se abre com uns versos que nunca mais saíram da minha cabeça: “Nunca esperei muita coisa, / digo a Vossas Senhorias. / O que me fez retirar / não foi a grande cobiça; / o que apenas busquei / foi defender minha vida / da tal velhice que chega / antes de se inteirar trinta”.
Que coisa linda, meu Deus! Como se buscar a vida, a juventude da vida, não fosse por si só algo grandioso. De fato não é cobiça buscar a sobrevida, a dignidade da vida. Aquele “antes de se inteirar trinta” me chocou à época. A professora explicando o poema, e eu pensando muito nas pessoas envelhecidas antes da hora.
Anos depois, lendo a obra toda, me deliciei com o canto tão bonito que João Cabral dedica à vida. Não é à toa que o autor subintitulou seu livro assim: “auto de Natal pernambucano”. Cantando a morte, o poeta cantou a vida, o espetáculo da vida.
A voz do poeta me chega várias vezes, quando retomo o livro e com ele acesso o drama dos retirantes nordestinos. Acesso o rosário, as ladainhas de Severino por cidades e vilas. Acesso a vida de cada dia, feita de pás, enxadas, foices, ferros de cova, estrovengas e braços relutantes. Acesso as vidas de água pouca, de cuia rasa, de farinha parca. As vidas tentando esconder-se em camisas de tecido grosso. Nas viagens retirantes que acesso, escuto Severino, empedernido, aprendendo a viver com a pedra, dizendo-me ao pé do ouvido a música da vida.
Recentemente tive acesso a um depoimento de Cabral quanto ao livro em discussão, e aqui transcrevo um fragmento em que o autor nos conta sobre uma conversa com Vinicius de Morais, o qual se mostrara maravilhado com Morte e Vida Severina: “– Vinicius, eu não escrevi Morte e Vida Severina para intelectuais como você – respondi – Escrevi para os sujeitos analfabetos que ouvem cordel na feira de Santo Amaro, no Recife. O poema é simples, retrata a típica realidade do pernambucano que foge da seca em busca do Recife e termina morando numa favela ribeirinha. Foi um sucesso mundial. Isso me orgulha, mas também me surpreende, porque Morte e Vida Severina passou a ser coisa de eruditos.”.
Isso sim é um bom texto, minha gente! Aquele que pode ser lido por pessoas quaisquer, independente da escolaridade. E Morte e vida Severina não é tão fácil assim não! Mas é tão humano, tão dolorido, tão musical e ritmado, que o lendo é como se estivéssemos rezando. Um louvor para Deus e um canto para a vida. A morte fica ali, em cada verso, piscando seus olhos de noite escura. Mas a beleza do poema transcende a morte que nos rodeia. A poesia, ao revelar a morte, supera o poder da escuridão e do nada.
No mesmo depoimento, Cabral chega a dizer e a se perguntar: “E se quisesse poderia ter feito mais dezenas de Morte e Vida Severina, mas pra quê?”. Ele, na verdade, fez várias vidas severinas. Cada livro seu esbarrou na morte, na secura da vida. Mas justamente por fazer poesia, o que sempre sobressaiu nos seus textos foi a vida. E não outra coisa.
No mesmo depoimento a que me refiro, o escritor ainda diz: “Então fui continuando a escrever. É difícil explicar por que continuei escrevendo”. Cabral, na verdade, escreveu pelo mesmo motivo que todo mundo escreve. Ele escreveu para exorcizar a morte. Esse é o nosso desejo, o mais eterno de todos. Nesse sentido é sintomático o poema “O exorcismo” (do livro Crime na Calle Relator, também de Cabral), em cujos versos o sujeito poético é interpelado por um médico, o “Grão-Doutor”: “Por que da morte tanto escreve?”.
Ao que responde o nosso poeta: “Nunca da minha, que é pessoal, / mas da morte social, do Nordeste.”.
O médico, confrontando, neste poema narrativo-dialógico, os escritos de Cabral aos de outros escritores nordestinos, afirma: “Seu escrever da morte é exorcismo, / seu discurso assim me parece: / é o pavor da morte, da sua, / que o faz falar da do Nordeste.”.
Assim prosseguimos nesta faina de escrever, todos nós, falando das mortes para vivermos a vida. E tudo na verdade é vida, quando o silêncio ainda não nos tomou. Lembro aqui a imagem, em Hermann Hesse, da morte como mãe eterna e de nós como filhos aflitos: “hei de vê-la então como eterna mãe, seu grito / como sinal de amor, e eu como filho aflito.”.
Falemos, então! Falemos para não morrer. Falemos antes que anoiteça, antes que a morte viva em nós.