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A amante

13 de Marco de 2012, por Evaldo Balbino

Esta ouvi de minha mãe, que por sua vez ouvira, na sua ida infância, da Conceição da Salota. Foi lá naqueles tempos em que as assombrações tinham mais vida, falavam, riam zombeteiramente em cima das porteiras impedindo que carreiros passassem com boiadas e bois. Foi lá naquele tempo, em que a morte e a vida andavam ainda mais juntas, amigas, imiscuindo-se escancaradamente uma com a outra, que uma caveira passou por suas penas.
 
O Ribeirão de Santo Antônio não se dava ao luxo de possuir um coveiro oficial. No campo santo, quem tinha mãos e enxada não era rei, mas com certeza servia à morte e à vida numa faina de escavar e esconder os mortos.
 
Eis que um dia, um desses benditos serventes, o seu Benedito das Cruzes, descobriu numa sepultura uma caveira quieta, fria, mas ainda quente das memórias tristes da vida. Na fronte do crânio jazia um epitáfio, provavelmente escrito no além túmulo, ou melhor, dentro do túmulo. Assim diziam as palavras grafadas, parecia que a ferro e fogo: “Já penei muito e não sei até quando vou penar”.
 
Seu Benedito mirou fixamente a cabeça sofrida, penada, porque caveiras penadas existem, e ficou se perguntando por que aquela frase não terminava com um ponto de exclamação. Sofrimento assim deve ser forte, tão forte, que merece um sinal de pontuação à altura. Benedito, de poucos estudos, admirava as frases muito pontuadas, as exclamativas, as exaltadas.
 
Com piedade cristã da caveira, decidiu retirá-la do cemitério e levá-la para um lugar seguro onde ela não penaria mais. Decidiu ajudá-la, como um bom cristão o faria. Em sua casa, escondido da mulher, colocou os ossos sofridos numa gaveta, trancando-os em seguida a sete chaves. Ali guardado, o esqueleto ficaria esquecido dos problemas da vida, ou da morte talvez, e não se entregaria à esquisitice, à esquizofrenia dos que labutam na jornada cósmica.
 
Os dias se passavam, e seu Benedito, com a chave que valia por sete no bolso, com a chave e com um segredo bem guardado, ia e vinha constantemente. Do trabalho para sua casa, da sua casa para o trabalho. Fidelíssimo a sua esposa, fidelíssimo ao seu morto engavetado, e também fidelíssimo aos seus mortos de que bem cuidava às vezes entre as cruzes e as flores. Um cuidado que dividia com os afazeres de sua vida de trabalhador de eito.
 
Desconfiada, a mulher de seu Benedito, a dona Constância, que tudo arrumava dentro de casa, começou a sentir comichões nas mãos, na mente e no coração. Este, quando sente algo parecido com uma coceira, um aperto de ciúme, de suspeita, leva seu dono ou dona a ter cada vez mais um pé-atrás. E Dona Constância, julgando inconstantes os sentimentos do marido, começou a julgá-lo. Decerto estaria dentro da gaveta algo terrível, como cartas de amantes ou coisas piores.
 
Certa feita, quando o marido se ausentou por mais dias da casa, a mulher decidiu acabar com suas comichões, com aquilo que a dilacerava. E se amante houvesse, brigaria com o seu homem. Ah, brigaria e muito!
 
Gaveta trancada não se abre. Ainda mais quando guarda uma caveira penada. Constância decidiu, por isso, arrombá-la. E se nada houvesse ali dentro e o marido chegasse depois e questionasse tamanha destruição, ela daria uma desculpa qualquer. O que não poderia continuar acontecendo era o bichinho do despeito amoroso roer-lhe tanto o coração.
 
Com o machado do marido, a madeira de jacarandá cedeu, e eis que o espanto da mulher se manifestou. Nunca tivera medo da morte. Agora é que não teria. Mas o que era aquilo, meu Deus! Certamente os restos mortais de uma antiga amante do marido. Cartas, palavras denunciadoras, pétalas murchas de rosas trocadas, perfumes em lenços obscenos, marcas de batom pecaminoso – nada disso estava ali. O que ela viu era mais forte: os restos da mulher amada. Mas restos podem muitas vezes ser tudo. E ainda continuam sendo na vida um atropelo, uma lembrança no sapato ou na cabeça.
 
Dona Constância leu aquelas palavras sangradas: “Já penei muito e não sei até quando vou penar”. Leu, e disse para si mesma: “Pois é, sua safada, saiba que você ainda vai penar muito mais!” Acendeu o forno lá na horta, não economizando a lenha cortada pelo suor do marido traidor. Quando o fogo já se erguia esfomeado para as alturas do forno, ela juntou os ossos de vida fácil e os jogou na fornalha do demo. E que queimassem todos, os prostitutos!
 
As palavras que o esqueleto escrevera não eram epitáfio falso. Tratava-se sim de uma ossada sofrida, e ainda por cima ultrajada pelas acusações da mulher. E, para terminar, ainda teve que passar pelo lago de fogo ardente em que se transformara o forno de Dona Constância.
 
Mas na sua raiva de amor e ciúme, a mulher não viu que horas depois de a caveira ser chamuscada, um pombo branco saiu das chamas e foi voando paras as nuvens. Não era o Espírito Santo. Isso não era! Não era amante nenhuma também. Era apenas uma alma liberta amando nuvens e espaços.

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