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A aranha e as paredes

12 de Maio de 2010, por Evaldo Balbino


A escritora Virginia Woolf chegou a afirmar em 1929, no livro Um teto todo seu, que a ficção é como uma teia de aranha, bem ali no canto de uma parede, lá no alto. Uma teia que parece flutuar, sem base, quando na verdade seus fundamentos, diáfanos, estão ali mesmo, em pontos específicos. A teia é uma ilusionista. Olhamos muitas vezes para ela e vemos algo bonito, arte feita por um ser tão desprezível aos olhos de muitos, um ser tecedor de maravilhas. Quanta arte numa teia, não é verdade? Se observarmos bem a sua tessitura, não deixaremos de admitir que a aranha, na sua “faina enfadonha” como disse o poeta Da Costa e Silva, é uma tecelã de fazer inveja a qualquer artesão.
 
É o mesmo poeta que ainda situa a aranha “sobre invisível tear tecendo a tênue teia”. Invisível tear sim, mas sua urdidura é concreta, o labirinto de suas linhas é palpável. Mesmo que nos percamos nas contexturas da teia, ela sempre quer nos dizer algo. Cabe a nós sabermos interpretar, pois, conforme diz o adágio: “Para quem sabe ler, um pingo no ‘i’ é letra”.
 
Já encontrei quem me dissesse que o que eu escrevo é difícil, é complicado. Não pude dizer nada a meu favor, mesmo porque nenhuma defesa nem era necessária, já que ali eu não era atacado. Pelo contrário, não faltaram louvores. Mas confesso que elogios ao que se considera emaranhado são amabilidades desalentadoras para os que tecem como as aranhas e que não desejam morrer nas próprias teias.
 
Falo predominantemente do que foi, mas esse “foi” sempre reverbera no agora. Ou melhor, falo sempre do agora, pois tudo o que teço é o modo de meus palpos tentarem se apoiar não em coisas abstratas, mas no concreto que nos faz existir.
 
Até mesmo quando falo de Deus, falo dele em nós, já que sem o corpo, sem a interioridade do mesmo, sem a consciência que nos constitui, não haveria como encontrar Deus. Santo Agostinho escreve em suas Confissões do seguinte modo: “E como invocarei o meu Deus – meu Deus e meu Senhor –, se, ao invocá-Lo, O invoco sem dúvida dentro de mim? E que lugar há em mim, para onde venha o meu Deus, para onde possa descer o Deus que ‘fez o céu e a terra’? Pois será possível, Senhor meu Deus, que se oculte em mim alguma coisa que Vos possa conter? // Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contêm? E assim, se existo, que motivo pode haver para Vos pedir que venhais a mim já que não existiria se em mim não habitásseis? (...) Por conseguinte, não existiria, meu Deus, de modo nenhum existiria, se não estivésseis em mim.” E nas bíblias, em mais de uma passagem, na urdidura poética de profetas e apóstolos, pois boa parte desses homens foram e são excelentes poetas, encontramos esta imagem: fomos feitos templos de Deus. Eu, de minha parte, penso que sem esse templo, nas suas formas sempre belas e aprazíveis, não haveria a possibilidade de nosso ser gozar, simplesmente gozar em Deus.
 
Recentemente houve também quem me dissesse, agora em tom explicitamente reprovador e preconceituoso: “Além de fazer literatura, algo fora da realidade, você ainda fica falando de Deus. Abstração maior do que essa não existe!” Ora, quem disse isso não sabe que as abstrações são nosso modo de tentar entender. Nossos valores, nossas ideias, tudo busca dizer do que somos, da vida que somos e que nos rodeia.
 
Nas linhas onde escrevo existem rastros, pegadas na areia para quem possa ver. Pegadas de toda natureza, e não apenas sagradas. Mas insisto: o sagrado também nos constitui ao mesmo tempo em que é constituído por nós. Até mesmo Deus, na urdidura da minha existência, tem lá os seus contornos, os quais sabem a estranhezas. Os fios dele vão se tecendo no modo como minhas mãos aprenderam a fazer.
 
Ao falar sobre coisas de ontem e de hoje, coisas abstratas e abstrações tão concretas, ponho-me a pensar na minha mãe e no meu pai – o que é pensar em todos os seres, especialmente nos humanos cuja complexidade da mente faz da consciência da busca uma trajetória repleta de dor e prazer.
 
Meu pai buscando o prumo certo, tijolo sobre tijolo, a retidão de uma parede fincada no chão de um planeta que gira. Bola incerta no espaço. Minha mãe no tear tecendo. E quando um fio se rompe, tudo então se deflagra. Ela buscando o fio perdido, suas mãos imersas na teia aparentemente perfeita.
 
Meu pai erguendo casas e minha mãe tecendo colchas e tapetes sou eu escrevendo com estes fios-palavras, linhas escorrendo entre meus dedos de aranha.

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