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A assombração do cor’go da Sá Bilica – Parte 01

15 de Abril de 2015, por Evaldo Balbino

O mutirão de mulheres e homens estava no terreiro da casa dos meus pais. Eram todos nossos familiares. Os maridos batiam as palhas de feijão com varas que vergavam e cantavam pelo ar, e as esposas também cantavam com suas peneiras esvoaçantes, soprando palhas e livrando os grãos de feijão do excesso de terra e cisco.

Decidida, a meninada deixou toda aquela faina do terreiro e debandou para o cor’go da Sá Bilica. A caçula da Nita estava conosco. Ela já tinha sofrido o bastante a morte da mãe. Não que tivesse esquecido. Mas o tempo tem o poder de amainar montanhas, de amansar tristezas. A dor continua ali, bem escondida, todavia pacificada por outras coisas da vida. E o que a vida demandava de todos nós, naquele momento, era um banho fresco no cor’go onde as mulheres lavavam roupas, onde moças sonhavam seus amores e onde moços, rindo, alimentavam vontades de namoros e tinham estertores nos olhos plenos de obscenidade e vigor.

Deixamos os adultos em sua labuta com peneiras, varas de bater, palhas de feijão e os grãos que nos alimentariam durante o ano todo. Deixamos todos para irmos refrescar nossos corpos jovens e sedentos de água corrente.

Da grande pedra embaixo de arbustos e cipós entrelaçados, a garotada começou a jogar-se sobre as águas. Todos de roupa, que moços e moças não podiam desnudar-se assim, uns perante os outros, sem mais nem menos. Ainda mais diante de crianças. Éramos muitas crianças, supostamente ingênuas e não portadoras das ditas maldades humanas. Todos, então, mergulhavam seus corpos usando roupas. Mas eram roupas leves, shorts curtos, os meninos e moços sem camisa, as meninas e moças com leves camisetas e shorts também curtos. Todos pulavam da grande pedra. Aquela em que, diziam, uma assombração ficava sentada, cismando sua vida eterna e penada, durante noites inteiras.

Sobre a grande pedra, eu não gostava de ficar. Tinha medo de a tal da assombração, a que diziam cismar noites inteiras, aparecer de repente e me levar para mundos outros, talvez para a morte.

Desta vez, para variar, eu não estava sobre a grande pedra nem mergulhava como faziam todos. Do lado oposto do cor’go, sobre a areia árida e segura eu fiquei. Ora banhando os pés, ora pensando se deveria entrar na água convidativa das margens, mesmo que pouca.

De repente um ruído estranho. Um estrondo na plena luz do dia. Pensei na hora na tal da assombração. As sombras das árvores, a despeito do dia, davam um ar meio tétrico ao ambiente. Em meio a tanta luz e água resplandecente correndo sobre areia e pedras, as sombras tinham o que dizer. Não, não podia ser a assombração! Eu nunca a tinha visto, e não seria naquele momento, à luz oblíqua do sol, que eu a veria.

Passado o susto de todos, a calma retornando aos corpos antes esfuziantes, a bagunça foi reconquistando seu lugar. Era água e espuma de água para tudo quanto é lado. Gritaria, um empurra-empurra gostoso de pura molecagem. No meio de tudo isso, de novo um barulho, agora vindo de detrás da pedra, de atrás das árvores e dos cipós.

 

Todos olhamos, assustados, para aquele lado. Eis que de entre as tranças dos cipós saiu um ser estranho, parecia uma mulher, calçando botas de homem (as de sete-léguas). Sua saia era branca e cheia de remendos de panos de outras cores. Mais para cima das botas, com o balançar da saia pelo vento, viam-se suas meias, negras e grossas. Sua camisa era de um vermelho pálido, cor de sangue velho e morto. Seus braços eram negros, seu pescoço também. Sobre o rosto um pano preto, com quatro buracos bem fundos que eram seus olhos, o nariz adunco e negro (que despontava sobressalente do pano) e a boca vermelha como sangue, dividida entre emanar gemidos e cachimbar um grande cachimbo torto e amarronzado. Sobre um dos ombros, uma foice, com lâmina brilhando, faiscando em nossos olhos.

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