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A missa e o homicídio

13 de Dezembro de 2011, por Evaldo Balbino

Os olhos de dona Lilica nem piscam. O padre fala de um mundo maravilhoso, longe do fogo do inferno. Quando a exortação gira em torno de demônios, lagos de fogo ardente, enxofre, sofrimento eterno, ela faz questão de orar mais, de fechar mais os olhos para exorcizar o que é incômodo. Falando assim, desse jeito sério e repetido, é capaz de o diabo aparecer mesmo e aí pronto: estou perdida! Sem altas teologias, pratica uma fé de preferência mais iluminada, mais próxima das nuvens do que dos subterrâneos da vida. Pensando nas nuvens, pelo menos não corre o risco de ir para as profundezas. A sepultura deve ser o inferno, ou a porta dele, já que não tem dúvidas quanto a este dogma: as profundidades do inferno ficam no subsolo da Terra.
  
O novo padre fala muito em demônios. Então ela tem que aproveitar os lapsos de céu na boca do homem de Deus para poder experimentar um pouco de êxtase, sem perigos com cheiro de enxofre. Empertiga-se toda ouvidos para os novos céus, uma cidade gloriosa pairando sobre a terra, anjos e arcanjos resgatando o povo que durante mil anos sofreu destinos malignos. O padre diz de pedras preciosas, paredes de diamante. Palavra bonita esta, fazendo-lhe pensar em paredes de amantes, não apenas um e sim vários. Um amante só é pouco. Aí se penitencia em pensamento: amante no sentido bonito da expressão, ora essa! Deus me livre pensar em amante! Nem quando o Onório me desposava, quando ele estava vivinho do meu lado, meu companheiro e minha pedra no sapato, nem nessa época eu pensava em amante senão em Deus.
 
Na Nova Terra, leões e cordeiros viverão pacificamente, não existirá dor nenhuma, a terra não terá de ser lavrada, o homem não terá que viver mais com o suor do seu rosto, o amor tomará conta de tudo. Haverá fartura por toda parte, ninguém vai passar fome. Vem-lhe de repente a lembrança do que leu certa vez no livro Nosso lar de Chico Xavier, onde se fala de um mundo em que todos bebem ar e água o tempo todo. Aí o medo de ter que passar por tanta escassez, logo ela que adora massas: macarronadas em domingos são sagradas! Melhor mesmo confiar no padre, Deus me livre! Até que ele não está falando coisas tão esdrúxulas assim. Comida no céu é coisa boa, bem-vinda. O pior era o padre anterior da sua paróquia, o que saiu da cidade já há alguns meses. Acreditam que cismou de dizer um dia, e na maior seriedade, uma coisa sem pé nem cabeça? Pois é, olhou pra todo mundo e disse: “E que ninguém pense que Deus precisa da gente. Não precisa não. Pois saibam todos que Ele não pediu a ninguém nem um saco de cimento emprestado pra construir o mundo. Fez tudo sozinho, e em seis dias!”. Vejam que loucura. E ainda acrescentou: “E se tivesse pedido emprestado, ele não é ruim de negócio não. Teria devolvido tudo, e até em dobro!”. Comida no céu sim, Maria Santíssima, mas daí falar em saco de cimento já é demais, como se Deus fosse um pedreiro dado a tais concretudes.
 
Pra herdar toda essa terra e suas glórias, continua o padre, a glória desse mundo não pode nos iludir. Toda riqueza deve ser combatida. Ainda bem que não sou rica, com meus dois salários vivo bem, com dignidade. O Onório, mesmo com suas ignorâncias, me deixou essa pensão que me serve, agora tenho outro salário, afinal meus sessenta anos merecem. Ai, meu Deus, como já trabalhei nesta terra! Mas não tenho preguiça não. Inclusive não me preocupa se tiver que continuar suando o rosto no céu. O que não pode é faltar macarronada lá aos domingos. Isso não pode!
 
Meus queridos irmãos, minhas queridas irmãs, fiéis do Deus vivo todo poderoso, tomemos cuidado com as coisas deste século! Ela não sabe que século tem dois sentidos. Mas qual é o problema deste século, meu Deus? Desde que o mundo é mundo é essa fuzarca, essa latomia, é reclamação que não para mais! E ficam aí falando que tudo tá ruim, tá com problema. Minha mãe já dizia isso, meu avô também, minha bisavó, e todos os meus antepassados até Adão. Lá no Éden já devia ter problemas, ah já devia!!
 
Hoje em dia, filhos do Todo Poderoso, principalmente hoje em dia, já perdemos os parâmetros, o que é certo e errado. Por exemplo, a televisão! Desde meados deste século (agora ela entende corretamente a palavra “século”), a humanidade vem se entregando às ilusões que uma simples tela alimenta. Simples, porém perigosa, enganadora, aliciadora das ingenuidades. O que é aliciadora? – pergunta-se dona Lilica. Podemos dizer que a televisão é um lobo atacando um cordeiro. Agnes dei! Ela adora ouvir latim. Não entende nada, mas soa bonito, um som poderoso. Nem diabo em latim soa feio. Fica até angelical.
 
O padre vai falando dos males que a televisão traz a todos. E vai ensinando a igreja a fugir de tais armadilhas. Enquanto ele prega, dona Lilica vai pensando em anjos cantando em latim, orando em latim, um coro de enlevar a alma. Dura um bom tempo o seu devaneio.
 
Quando dá por si, o padre está alongando os ensinamentos. Olha para o relógio, e as horas já estão avançadas. Vira-se para a comadre Dulce e só vê uma baba descendo da boca que ronca quase que silenciosamente. Começa a preocupar-se. Perderá a novela. Começa a pedir a Deus para que a missa acabe. E sem nenhuma culpa faz isso. Sem nenhuma culpa como um santo. Deus atende, precipita o culto. Lilica acorda a comadre de rosto sonolento, cabeça apoiada no encosto do banco da frente.
 
De fora da igreja, nem há tempo de conversar com a amiga, que também perdeu o sono e vai caminhando a passos largos. Vamos, comadre – afirma ofegante a dona Lilica –, hoje vai passar quem matou a Odete Roitman!

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