Ao começar esta crônica, vem-me à lembrança aquele menino peralta e sonhador criado por José Mauro de Vasconcelos. Falo do Zezé, o menino fantasioso que desde cedo teve que lidar com as coisas ásperas da vida. E lembro bem que, quando eu era criança, lá em meados dos anos de 1980, li uma vez no livro didático Brincando com as palavras um pequeno texto intitulado “Artes de Zezé”. Era um fragmento do romance O meu pé de laranja lima. E o texto era encimado por uma linda gravura, dessas que, em minha opinião, não se fazem mais. Um senhor e uma senhora apontavam para uma janela quebrada e, furiosos, ralhavam com um menino que corria como um relâmpago. Um catatauzinho de nada, mas grande na bagunça. Desde aquela época guardo na memória a figura do “pequeno Zezé”.
Mas hoje não vou falar dessa personagem. Vou falar é da vida. Se bem que falar de O meu pé de laranja lima é o mesmo que falar da vida. A história criada pelo José Mauro é fascinante e tem atravessado gerações e fronteiras. Lembro-me da felicidade que me tomou, numa biblioteca de Madri, quando pude ler numa estante uma lombadazinha com o delicado nome Mi planta de naranja lima. Belíssima tradução!
Não. Como eu já disse, não vou falar desse livro. Vou falar diretamente é da vida, mais especificamente dum episódio ocorrido em Resende Costa em 1989. E o que vi, nesse ano, não foi bonito. Foi de uma aspereza desnecessária.
Zezé, esse era seu apelido. Era um menino custoso, briguento, caçava confusão com todos nós da escola. “Filho de mãe solteira”, diziam algumas línguas tradicionalistas, as que não eram poucas. “Um endiabrado o José”, decretavam alguns professores. E entre decretos e alcunhas, ele prosseguia incólume na sua existência de fazer o mal.
Confesso que eu não gostava dele. Na quadra poliesportiva da escola, Zezé sempre fazia uma das suas. Certa vez, por exemplo, ele pegou a bola de vôlei e deu um saque com fúria na minha direção. A bola bateu no meu peito com tanta força, que a dor me deixou sem ar. Não estávamos jogando. Não era nenhuma partida. E a cólera dele era sarcástica e sádica. Ele era daquele tipo de criança que não se sente bem se não estiver fazendo mal para algum colega. Criança não tem maldade?! Ora, ora! Criança também é ser humano, meus amigos! Tem maldade sim, e das bravas muitas vezes!
Na verdade Zezé não era tão criança assim. Como era aluno repetente, já era mais velho do que todos nós da turma. Se não me falha a memória, ele estava cursando a sexta série pela terceira vez. Enquanto a maioria dos alunos andava pela média dos 12 anos de idade, ele tinha uns quatorze ou quinze. Era um menino difícil.
Ele, o complicado menino, além de muito difícil, era também vaidoso. Andava com os livros numa das cadeiras, amparados por um dos braços pendido. Andava todo duro, empertigado, exibindo músculos que, no entanto, não tinha, com jeitão de macho conquistador das meninas apaixonadas. Andava assim e dizia que mochila era coisa de meninas ou de meninos frescos. Alguns dos nossos colegas o chamavam de galinho índio, pois ele, mesmo pequeno, andava tal qual, sempre com a pose de briga, pronto para bater em alguém. Outros lhe davam diverso epíteto, chamando-o de “He-Man Conquistador”. Ele usava calças transadas, bem diferentes das que nós usávamos. E falava gírias e outras línguas que não entendíamos. Na rua, depois da aula, tirava do bolso um cigarro e fumava com desdém, com ares de adulto, como se aquele gesto o tornasse mais homem. Tratava-nos com grosseria quase sempre. Daí nossas picuinhas com ele. E tudo eram manias pré-adolescentes, aquelas rivalidades bobas que tínhamos e que passam com o tempo. E ele sempre usava na cabeça um lenço, para andar na moda, dizia.
Eis que um dia, perante uma de suas bagunças, um professor nosso irritou-se profundamente com ele e, num tom agressivo e nervoso, começou a chamá-lo de Cazuza. E foi dizendo você pensa que é alguma coisa na vida? Não é nada, rapaz! E fica aí imitando aquele desviado com lenço na cabeça! Você não sabia, seu idiota!? Pois então: ele é um desviado! Não é à toa que ele tá doente, que tá morrendo! Pelo visto você quer ser como ele, não quer?!
Diante da fúria docente, a turma ficou espantada e quieta. O nosso colega endiabrado, transformado agora em Cazuza, enfiou o rabo entre as pernas. Virou de repente um anjo sem asas, uma ovelha medrosa. Se ele entendia o que vociferava o professor, não sei. Confesso que eu, na minha inocência, não entendi à época as alusões feitas pelo mestre. Somente tempos depois é que fui entender tudo. E confesso que, mesmo não sentindo amores pelo nosso colega, tive pena dele. Porém, depois, mais pena tive ainda foi do nosso educador com aquela sua preconceituosa intervenção pedagógica.