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Apesar das coisas ásperas

12 de Julho de 2012, por Evaldo Balbino

O salmista chegou a escrever que “os mortos não louvam o SENHOR, nem os que descem à região do silêncio”. Lindo isso! Se é verdade, não tenho garantias. A garantia que tenho na vida é o momento que estou vivendo agora. E neste exato e prezado momento, garanto que estou vivo, que estou respirando, que estou sentindo o perfume do mundo, mesmo com seus odores ásperos. Asperezas à parte, louvemos ao Senhor agora, glorifiquemos a vida. Saltitemos! Façamos piruetas como loucos irremediáveis. Tal qual a poeira no redemoinho, rodopiemos plenos de vida e com vida agraciados.

Ela caminha com dores e odores desagradáveis. Caminha atravessada de agonias e maus-cheiros a vida. Mas é também a mesma vida que devemos colocar numa balança. Estamos sempre medindo na vida, não é mesmo? Mensuremos, então, o que nos vale, o que vale realmente a pena. Se medimos tudo na vida, meçamos também a ela própria. Tão cheia de problemas, ela não deixa de carregar suas plenitudes. Aqueles sentimentozinhos que nos tomam muitas vezes e que nos fazem gostar de viver, de respirar o ar que nos chega, mesmo que poluído nas grandes cidades. Cheio de detritos da vida moderna, o ar não deixa de ser abençoado. A vida é assim, tão cheia de momentos extáticos, instantes em que, sem nenhuma percepção às vezes, algo se nos revela. Um segredo de amor, de vontade palpitante de amar e de ser amado.

Vejam as pedras! Percebam como elas têm vozes, como falam, como clamam em sua inteireza. Têm sentimentos as pedras. Numa aparência de estaticidade, o que elas são é movimento puro. É volteio latejante do corpo, do cosmos. Vejam também as árvores, cheias de seiva. Olhem também para as mortas, as que um dia tiveram vida explicável pela ciência, mas que agora são natureza para sempre eterna, viva. Um moirão segurando cercas tem vida própria, respira o ar que respiramos, apoia braços tão cansados, tão desejosos. Olhemos para os céus, onde nuvens nos separam do espaço, mas nos dizem dele, da sua imensidão estendendo-se para um longe indefinido. Pensar nessa lonjura é ter a capacidade de nos sabermos potentes para o sonho, para a luz. E tudo isso porque pensamos. Pensamos não para compreender, mas para amar.

Se na região do silêncio não se pode falar, quero, então, ficar nestas paragens mesmo. Aqui onde há muitos ruídos e onde muitas vezes não sabemos sequer ouvir necessários silêncios. Aqueles silêncios que nos dizem muita coisa sobre nós mesmos, sobre os outros, sobre o mundo, sobre o universo. Não quero me calar numa sepultura. Então, com meu corpo desajeitado vou glorificando a vida agora, vou batendo palmas para tudo e todos – menos para as coisas ásperas.

Bato palmas para os corpos se amando, para as bocas se beijando. Gosto de ver os problemas todos ganhando uma resolução. Nos olhares das pessoas, apesar das iras da vida, tenho prazer em verificar vontades de amor, de doação, de ajuda. Mesmo que tenhamos pequenos atritos uns com os outros, afinal não há como fugir disso, mesmo que rosnemos uns aos outros de vez em quando, o que há de melhor em nós é a capacidade de querer roçar um corpo no outro corpo. É a capacidade de olhar para um amigo ou até mesmo um desconhecido na rua e dizer: “somos tão pequeninos, frágeis, mas é exatamente isso que nos faz grandes e unidos. Unidos, apesar do que é áspero”.

Bato palmas sim! Canto louvores a homens, mulheres, crianças, bichos, viagens, barcos, amores, planetas, ruas, praças, cidades, estrelas, mares, rios, árvores – tudo merece salmos e mais salmos. Louvo até aqueles bichos que muitos dizem horrendos. Amo a barata no seu silêncio noturno e os ratos cujos olhinhos são tão bonitos de doer. As cobras, até mesmo as venenosas. Os escorpiões e sua postura bélica perante ameaças. O piolho, amo até o piolho, aquele cuja morada é entre fios de cabelos sem nome, cabelos de quaisquer seres. Louvo e amo até o bicho-de-pé. Aplaudo os gestos heroicos dos que me seguravam à força quando eu era criança e tiravam com extrema perícia os bichinhos-de-pé que me atormentavam. Lembro-me de uma coleguinha de infância que adorava ter bichos-de-pé. A coceira que eles causam, ela dizia, é muita gostosa. Cada louco com sua mania! E que em nossas loucuras louvemos a vida, apesar dos acontecimentos ásperos.

Por num canto tudo o que é áspero não significa fechar os olhos e usar lentes cor-de-rosa diante da vida. De jeito nenhum! É antes saber que algo existe de incômodo, mas também é encarar esse algo como objeto comezinho, como a fragilidade de um vidro perante a resistência da pedra. Falo aqui da vida cheia de espinhos, mas faceira e sempre com plena e eterna idade.

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