Domingo, 19 de agosto de 2012. Após dois intensos dias de participação na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, decido-me por caminhar pela Avenida São João, e por fazê-lo namorando o cruzamento dela com a Ipiranga. Sempre quando faço isso, é lógico, lembro-me do Caetano Veloso e da sua canção, a dura cidade concreta erguendo-se perante meus pés e olhos mineiros. O meu amor por São Paulo, como tudo em mim, é dúbio. Mas afianço convictamente que gosto de São Paulo. Aprecio sua poesia rude, sua cara de metrópole desordenada que me instiga, que me tira de um centro urbano um pouco mais pacato, apesar de nem tanto, que é o de Belo Horizonte.
Sempre me hospedo em hotéis do Centro de São Paulo. E desta vez não é diferente. Fora do Anhembi, onde ainda está ocorrendo a Bienal, o que me restam são as ruas sujas do centro paulistano, seus prédios e bares, os cinemas de sexo espalhados por vários pontos, as praças e seus mendigos. Resta-me esse mundo estendido perante minhas vontades.
Ainda na altura da Praça da República, esquina com a Rua dos Timbiras, quase piso em algo, e vejo que se trata de um homem dormindo sob um encardido e fétido cobertor São Vicente. Na minha infância fui acariciado por esses cobertores toscos e baratos, que minha mãe comprava em grande quantidade em São João del-Rei. Eram cobertores com preços acessíveis ao bolso de uma família numerosa e simples. Mas na simplicidade, tínhamos limpeza e nos escondíamos dos frios de junho. Esse não parece ser o caso do homem deitado. Seu corpo está encolhido e treme juntamente com a sujeira do cobertor.
Em São Paulo está frio neste domingo. A manhã tem sol, mas uma brisa saturada de poluição bate nas faces dos transeuntes. E todos andam pela Avenida São João, como se estivessem respirando o ar mais puro do mundo. O costume tem destas coisas: passamos a não estranhar o que nos é danoso no cotidiano que se estende em nossas vidas. E enquanto duramos, duram nossos corpos acostumados a tudo. A sentir um ar sujo e a respirá-lo com prazer, a ver pessoas deitadas na rua como se estivessem numa cama confortável e dentro de uma casa aconchegante. Vemos horrores, porém não os enxergamos. Não há demonstração de nenhum estarrecimento.
Entretanto algo me estarrece. Um mendigo, sentado na calçada mais adiante, aproveita a água que escorre de um restaurante sendo lavado. E vai esfregando os seus pés imundos, vai tirando as crostas que os cobrem. Com água e sabão que já tiveram sua serventia no chão sujo de uma casa noturna, esse homem se limpa, busca tornar-se palatável aos olhos da sociedade.
Atônito fico. Deixo-o lavando-se e sigo o meu caminho. Já são quase 11 horas da manhã, e o tempo avança. Tenho que comer alguma coisa, passar correndo pelo hotel e retirar minha bagagem. O voo de volta para Belo Horizonte será apenas às 18 horas, mas a diária vence ao meio-dia, e não estou disposto a pagar caro por uma parcela de tarde num quarto de hotel.
No Largo Santa Cecília pego o metrô, faço baldeação na Estação da Sé e sigo até a Estação São Judas. Dela saio à rua, pego um ônibus deliciosamente vazio na grande São Paulo, e chego em questão de minutos ao aeroporto de Congonhas. Avisam-me no check-in que posso, caso queira, antecipar minha viagem. Isso muito me alegra, afinal já estou sequioso de minha cama e de um sono tranquilo. Geralmente não durmo bem em quartos de hotel. Uma colega me disse certa vez que em hotel tudo é bom, pois é onde a gente exerce o papel do outro. Essas psicanálises não me convencem. Além disso, em mim mesmo, no meu canto, já faço esse tal exercício. Não preciso de hotéis para isso. Na minha ânsia, quase esqueço meu documento no balcão da companhia aérea. Com o bilhete em mãos e a bagagem despachada, vou para o embarque imediato. Dentro do avião, sento-me espaçosamente, e espero pela decolagem.
A máquina sobe para os céus de São Paulo. Sobe e, de vez em quando, inclina-se para um lado e depois para o outro. Estou à janela. Quando o aparelho tomba para o lado em que estou, fico superior a São Paulo. Ela está lá embaixo, ficando pequena com seus prédios gigantescos, com seus rios sujos como cobras lentas, com seus carros minúsculos num movimento de formigueiro. É domingo, e estou subindo para os céus de São Paulo. À medida que subimos, vamos atravessando nuvens, com um balanço de dar um pouquinho de medo.
Planando agora no ar, na altura já desejada, o que vejo são flocos de algodão, ilhas de vapor lindas e leves levitando sobre a cidade inteira. O avião parece estar navegando mais acima dessas ilhas. E nos movemos pelo ar como se água fosse. As ilhas flutuam, parecem estáticas. E eu fico extático vendo-as assim tão bruma sobre uma cidade cheia de problemas. Inclino o banco do avião e tento dormir. As nuvens são ilhas e ignoram o que está mais abaixo delas. Ignoram também o que sinto e não percebem que estou tentando dormir.
Ares de São Paulo
12 de Setembro de 2012, por Evaldo Balbino