Desde criança tenho reverência para com as cruzes. Aprendi que elas não devem ser adoradas, que devem sim ser execradas, pois numa delas, num dia terrível, um homem foi crucificado. E foi nela que ele também perguntou: “Eloí, Eloí, lamá sabactâni?”. O céu se fez escuro e a treva desceu sobre a Terra. Rasgando-se o véu do santuário, uma dor cortou os peitos sofridos, uma dor de sufocar a todos em amor, piedade e arrependimento. O véu se rasgando é bem a imagem da dor, de algo lacerante, mas é também a imagem de um vitupério, de uma coisa absurda, como absurdas são muitas coisas já acontecidas neste mundo.
Muitos outros, como Jesus, foram mortos e crucificados. Tiveram muitos que carregar também suas cruzes. E muitas vezes o fizeram sem sentirem um Simão Cireneu os ajudando. Carregamos cruzes sempre. E elas são tão nossas, que às vezes nem as percebemos. Fazem parte de nossos corpos, de nossas vidas, de nossos medos, de nossos sonhos e de nossos pesadelos. Sem cruzes, não teríamos a possibilidade de rever a vida, de descansar em alguns momentos.
Mas há muitos tipos de cruz. As hieráticas, as rígidas e as delicadas, as que brilham e as toscas e opacas, as feitas de pedra ou pau, mas também as fabricadas de suor e ouro e exploração. Existem as simplezinhas que se cravam nas infâncias do mundo, que se fazem de toquinhos, de talos de mamona, pauzinhos amarrados com embira e fé. Basta cruzar um pau com o outro e pronto: eis que uma cruz se desata, passa a existir.
Lembro-me de quando eu estava aprendendo os pontos cardeais na escola primária. A professora Lúcia nos dava luz, nos ensinava a ficar de pé, de braços abertos, e com a mão direita virada para o nascente do sol. Aí saberíamos discernir os pontos cardeais: à direita o leste, à esquerda o oeste, à frente o norte e atrás o sul. Será que é por isso que dizemos que ter um norte é dar sentido à vida, é ter destino? Talvez seja por isso mesmo, pois desde pequeno me ensinaram que o Norte estaria à minha frente. E deduzi de tudo isso que olhar para trás ou para os lados seria fugir do norte, da linha reta, dos caminhos previstos. Mas ninguém na época me deu a fundamental lição que hoje eu já aprendi: olhar sempre para o leste é estar constantemente amanhecendo.
E em pé, lá na escola primária, abrindo os braços sobre um sol delicioso, eu não sabia com o que me fantasiar. Se com a minha sombra projetada no chão, cheia de vida às vezes maior do que eu, ou se com os braços abertos que, com o corpo, formavam uma cruz, também viva, palpitando naquele chão de terra na Escola Estadual Assis Resende. À época, a escola funcionava no que é hoje a Prefeitura Municipal de Resende Costa, pois o edifício do Grupo Escolar Assis Resende estava em reforma.
Das cruzes que existem, há duas que sempre me molestaram. Cada uma a seu modo. As de cemitério e as de estradas.
Nos dois cemitérios da minha cidade, da minha pequena Resende Costa, as cruzes sempre foram sérias, empedernidas, postadas sobre sepulturas como se fossem sentinelas sombrias, austeras. Sempre me incomodaram essas cruzes, esses guardas que nunca tosquenejam, pois que estão vigiando sempre algo. Algo que nunca consegui saber se é a vida ou a morte. Velam, por acaso, os que jazem entre flores e insetos alados? Ou nos espreitam, a nós que vamos ali chorar nossos mortos? Muitas pessoas tentam mascarar essas cruzes, tentam dar-lhes a gala de senhoras pomposas e bem-vestidas. Senhoras com hálito perfeito para salões e namoros e juventudes. Os entes queridos, os que ainda não transpuseram os umbrais da morte, colocam ao redor das cruzes jarros de flores, fotos dos falecidos, adornos outros e vários. Colocam tudo isso como se dissessem, numa dedicatória amorosa: “Aos mortos, dos que ainda vão morrer”. E nenhum desses adereços apaga o brilho da estrela fatal: a severidade dessas senhoras sobre corpos e insetos e vermes.
Há também as cruzes plantadas nas beiras de estrada. Quando as vejo, um silêncio mais que profundo me toma. Um silêncio rumoroso, daqueles que nos vêm para fazer perguntas. E aí ficamos atônitos, querendo saber por que estão ali aquelas cruzes, o que de fato ocorreu no sítio onde elas reinam silenciosas e também sérias. Tais cruzes são muito simples, humildes, e raramente vejo flores tentando enfeitá-las. Parece que o tempo passa, e as cruzes enraizadas nas beiras de estrada, desleixadas, ficam sendo apenas memória. Memória sem enfeite nenhum.
Mas para que servem os enfeites, se tudo passa mesmo? Acho que eles existem porque gostamos da beleza. E existem uma vez que, na beleza, podemos amar toda feiura. E entre feiuras e belezas, perdemos por fim a noção do que seja uma coisa e outra, e isso pelo fato de tudo ser belo. Assim nos amamos todos, entre cruzes, flores e insetos alados.
As cruzes
16 de Outubro de 2012, por Evaldo Balbino