(Para Everaldo e Elenice, in memoriam)
Hoje é domingo, o dia é azul, o céu se despe e é limpo. As nuvens me amam, desataviadas. Sobrevoam sobre minha cabeça para dizerem que existo, que me fazem sombras leves com um sol ameno. Dizem-me as nuvens que a vida é bela. Se não vivermos a vida, ela viverá por nós. Então: vivamos! Vivamos, neste domingo, dia da ressurreição. Vivamos nesta manhã de setembro, transformada aqui em palavras, em traços.
Os traços não são eternos, eu sei. Também tenho a consciência de que não sou perene. Mas enquanto puder, pelo menos quero falar. Quero, como se grita naquela canção da Vanusa, sair, falar e ensinar um canto. Não quero ensiná-lo apenas ao meu vizinho, mas também a todos aqueles que venham se avizinhar destas palavras no papel postas. “Eu quero sair / Eu quero falar / Eu quero ensinar / O vizinho a cantar. // Eu quero sair / Eu quero falar / Eu quero ensinar / O vizinho a cantar / Nas Manhãs de Setembro / Nas Manhãs de Setembro / Nas Manhãs de Setembro / Nas Manhãs!”.
Sim, quero cantar como a Vanusa cantava e canta. E saber-me pleno de memória, indo na contramão daqueles que passaram a julgar a cantora como desmemoriada, depois de um episódio em que ela errou o Hino Nacional. Quem realizou tal julgamento é que carece de memória. Parece tão fácil ver nos outros um defeito, uma lacuna sem verificar-lhes o que há de belo. Vanusa é nossa memória. Está em nossa memória musical sem dúvida alguma. Além do mais, para quê cantar bem o Hino Nacional, se neste país a política, em sua grande parte, nos envergonha? A letra parnasiana – bela sem dúvida alguma – não apaga nossa vergonha. Eu defendo sim o nosso hino, mas acho que devemos lutar contra a alienação política que nos toma para construirmos um país que faça jus ao hino tão soberbo que tem.
Eu não sei cantar, mas sei escrever. Então me deixem cantar aqui, nesta folha. Deixem-me cantar como um louco. E como um cão raivoso em noite de lua, quero ser um lobo uivando, furioso, um lobo-memória ardendo de vidas e mais vidas. Quero soltar a voz à semelhança de um uivo ou proferir o que profiro e prefiro com esta voz que Deus me deu. Quero berrar, clamar, gritar, vociferar aos quatro ventos do mundo: vivam as manhãs de setembro! Vivam todas elas, pois nelas estamos eternamente nascendo!
Foi em setembro, por exemplo, que nasceram, há mais ou menos quarenta anos, meus irmãos Everaldo e Elenice. Os meus irmãozinhos que não cheguei a conhecer. Antes de completarem um ano de idade, eles se foram. O Everaldo, com nove meses de vida; e a Elenice, com apenas quatro meses. Eles subiram uma escada longa e estreita, cheia de dores e sede. Subiram para brincar com outras crianças num amplo jardim. Vergel sobre nuvens erguido, lá onde os miúdos, todos eles, vestem roupa azul, da cor do ar rarefeito, do ar espalhado pelos céus.
Até hoje comemoro o nascimento dos meus dois irmãos, eternas crianças, para sempre nascendo. Comemoração a que me entreguei desde pequeno. Lembro-me, lá na minha infância, da minha ida certa vez ao cemitério do Ribeirão de Santo Antônio. Fui até ao campo-santo, sozinho, para encontrá-los, os meus irmãozinhos. E o que vi eram apenas sepulturas entre flores murchas. Eram lápides de silêncio e monotonia. Mesmo assim, não desisti da busca. Menino ainda iletrado, eu não sabia onde estavam os corpos fraternos. Andei pela necrópole rústica e tristonha, uma paz de cortar a vida! Andei olhando não para os lírios, que esses não grassavam por aquelas bandas, mas olhando e colhendo florezinhas simples, pequenas. E fui pegando aquelas ramas silvestres e colocando-as sobre cada um dos sepulcros. Fui enfeitando com enleio e esmero a todos que ali dormiam. Depois, chegando a casa, tive que ouvir dos meus pais que tudo fora perda de tempo, que as sepulturas do Everaldo e da Elenice não mais existiam, que família pobre não comprava sepultura.
Lembro tudo isso e compreendo. Compreendo o menino no seu amor pelos irmãos mortos, mas para sempre vivos. Compreendo as amargas e familiares palavras, quando lamentavam as diferenças que atravessam a todos nós numa sociedade impiedosa. Se todos morremos, eu me perguntava, por que não termos todos um espaço próprio para dormirmos eternamente?
Hoje sei de mais coisas. Sei, por exemplo, que não se tem lugar nunca na existência. Que é ela, a existência, um deslugar. E não estou falando da vida terrena apenas. Estou falando do cosmos, da vida material e espiritual, dessa vida ampla que me parece sempre resumir-se em afoitezas, buscas, felicidades e também em angústias e tristezas. Viver e morrer são fatos que para nós se mostram sempre em deslugares, em tensões, em cordas bambas sobre precipícios.
Berta - 25/09/2013
E hoje sei de mais coisas, coisas estas que estão nas entrelinhas de sua bela crônica. Parabéns.Você me levou a re-fletir sobre tantas questões sobre quem sou, o que me tornei, o que espero da vida, o que desejo ser e ter e não ter para ser. Que sentido é este que damos para as pessoas e coisas, enfim, tantos questionamentos.