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As grandes miudezas

12 de Novembro de 2010, por Evaldo Balbino

Não é burguês o meu amor por formigas trabalhando. Há cem milhões de anos elas estão assim, na peleja. Contemplo o alinho com que marcham sob folhas e ciscos. Levam detritos de vida para mais vida fazerem. É pura vitalidade o que me dizem nos seus rápidos movimentos. Bastam um pé, uma gota d’água ou um soprozinho do vento, para que se desbaratem e percam a direção. Mas eis que de repente, como num passe de mágica, voltam ao balé compassado. Voltam, como se uma ordem maior as governasse. E continuam como juntas de bois e boiadeiros numa sintonia que dá gosto.

Quando criança, meus olhos buscavam atentos aquelas “correções” de formigas. Era assim mesmo que os adultos diziam: “correções”. Não proferiam o que manda a norma: “correições”. Mas sabiamente me diziam das correções dos passos, das perninhas perfeitas, impecáveis, num andar de fazer inveja a muitos. Somos ritmados, com certeza. Mas quantas e quantas vezes não tivemos que lutar e ainda lutamos nesta vida para buscar um ritmo uniforme? Bailarinas, corpos vários dançando numa só cadência, pés de várias pessoas como se de uma apenas fossem. Somos capazes desse ritmo, é verdade. Mas devemos brigar pelo mesmo. Já as formigas não! Podem me dizer os estudiosos que cada um desses serezinhos passa por uma aprendizagem de compasso também. Nem sei se é isso o que ocorre. De formigas entendo o que me fazem sentir. E o que me ensinam é movimento puro, graciosidade natural, elegância perfeita. E se nem todas se arranjam naquelas filas apreciáveis, o que ficou nos olhos do menino de outrora e de agora foram as enfileiradas, as poderosas falanges em prol da vida.

São perfeitas as formigas. Pontinhos no universo. Há as maiores, também sublimes. Porém todas tão pequenas sob pés de elefantes desengonçados que somos. Andamos sem nenhum cuidado. Caminhamos displicentes, pisando essas vidas em sua faina. Andamos sem mirar os lírios do campo, majestades maiores que a de Salomão. Sequer paramos para colher flores à beira do caminho e conversar com o Lobo Mau. Há sempre alguém para dizer dos perigos nas curvas floridas das alamedas, dos abismos nos lábios do lobo que nos adulam. Mas se parássemos, se olhássemos amorosamente os grandes olhos, sua fome de carne, suas patas enormes em nossa direção, poderíamos assim verificar que sob suas patas peludas, quentes, perigosamente apetecíveis, estão trabalhando as formigas.

E como não determos os olhos naquelas trilhazinhas sinuosas ou retas? As pequeníssimas estradas são aquelas trilhas feitas pelo ato de se trilhá-las. Não são passivas as formigas. Por isso podemos e devemos dizer a elas, meio que seguindo o poeta Antônio Machado: “caminhantes, não há caminho, mas fazeis caminho ao andardes. Se o que importa são os atos, os afazeres, a prova de vossas ações está aí, no chão diante de nós”.

E nas trilhas, em cada soldadozinho visto e namorado, podemos notar muitas glórias. Têm antenas as formigas! E isso me comove mais do que os radares poderosos criados pelo homem. Vivem em mundos de dinossauros, sombras concretas que as pisam, que se julgam superiores, que pouco ou nada se importam com elas. Mas têm radares, o que não possuímos. Não temos o poder das formigas.

Tudo é uma questão de ponto de vista, eu sei. Mas não as vejo pequenas por falar desta altura toda, desta altura falsa. Este lugar de que falo me engana. Grandes são as formigas, imensas! Elas sim suportam o mundo.

E meus olhos de criança não suportam a alegria, quando as vejo nos labirintos entre gramas, entre folhas caídas, levando gotas de néctar, pedaçozinhos de vegetais ou bichinhos mortos e menores que elas. Quando as vejo unidas e levando uma carga maior do que seus corpinhos frágeis, também me comovo. Enterneço-me com tamanha união. No debaixo de terras que desconheço, no mistério do húmus, de uma humildade que me fascina, sei que elas se alimentam e se cuidam, para que a vida prossiga.

Já me perguntei em demasia sobre o que me é insondável. Mesmo que entomólogos devassem o de dentro das formigas e as suas casas subterrâneas, as sauvazinhas me apelam é com mistérios. Mistérios brilhando como deleites, gotas tremulantes nos olhos da criança que eu fui e ainda sou. A criança que via, nas veredas do Ribeirão de Santo Antônio, formigas pelo quintal como juntas de bois em namoro. Bois sem nenhuma canga, livres, ruminando continuamente aos ouvidos desta criança que escreve; desta criança que não olvida as significâncias, brincando sempre com bois, formigas e palavras.

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