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Catar feijão

16 de Junho de 2011, por Evaldo Balbino

Quando minha mãe dizia “tem que botar feijão na panela pra cozinhar”, eu ia lamentando até a lata grande de banha, que me esperava para abri-la e retirar o feijão plantado e colhido por meus irmãos e meu pai. Aquele feijão entre pedras. E eram muitas, as de duro trato!

Nas roças debaixo de um sol de matar, ouviam-se do lado de fora dos ranchos as varas vergando em mãos cheias de calo e suor. Tentei algumas vezes ajudar os meus, pegava também uma vara e tentava bater feijão como um adulto fazia. Meu esforço era muito, e o resultado era pouco. Eu achava bonito como as palhas de feijão voavam, algumas faziam curva no espaço e iam parar macaqueadas em árvores do entorno. Como eu tinha inveja de ver meus irmãos dando vergadas nos montes de palha ressequida! Nem se viam as varas como relâmpagos no ar! Mas eram audíveis os sons que faziam desde lá de cima até as batidas sobre o feijão açoitado.

Não vendo frutos do meu esforço, o que eu gostava mesmo era de agachar nas laterais do terreiro e catar os grãos tresmalhados, os sem-vergonha que ainda queriam ficar por ali, no meio da terra, para brotar mais vida no meio do mato.

Os terreiros eram batidos. Mesmo assim soltavam pedrinhas intratáveis. E eu ficava matutando por que meu pai não cimentava aqueles eirados, por que não evitava que as pedrinhas viessem incomodar a nós, pobres humanos sem propensão para degustar pedras. Somente depois é que pude entender muita coisa. Como um agricultor poderia gastar o dinheiro que não tinha? Como um meeiro poderia cimentar um pedaço de terra que não era seu? Para nossa subsistência, o feijão tinha que ser cultivado. E só metade dele é que meu pai levava para nossa despensa. O jeito era mesmo bater feijão no terreiro de terra batida!

E lá ficava eu diante da lata de banha. Uma guerra se travando. Tinha vontade de resmungar. Como enfrentar aquelas pedras medonhas, que de tão pequenas eram insuportáveis? Espertas, aproveitavam a pequenez para fugir entre feijões, até mesmo confundiam-se com eles. Mas no prato nosso de cada dia, ali quando comíamos com boca e vontade, essas pedrinhas aumentavam de tamanho a ponto de sufocar qualquer apetite. Aí vinham os xingamentos, o coro de vozes da família martelando no meu ouvido que eu era porco, que não fazia nada direito. E ninguém se condoía com minha expressão de tristeza, de fome roubada num relance.

Lembro-me de uma vez ter visto alguém numa novela catando feijão. A nossa TV era em preto e branco, e me deu uma agonia ver aqueles grãos acinzentados, numa parecença com possíveis pedrinhas no meio deles. Como se não bastasse o poder de mimetização que essas pedrinhas têm, a confusão entre pedras e grãos era aumentada demasiadamente. Resolvi nem ficar olhando muito aquelas mãos na faina perigosa, no risco de ouvirem depois que eram porcas, que não trabalhavam direito.

Tempos depois, já não morando no Ribeirão e sim em Resende Costa, passei a achar chique minha mãe levando fubá e arroz na “limpadeira do Vantuir”. As máquinas ficavam abaixo do nível da rua. Na entrada já se sentia um cheirinho gostoso de fubá que não acabava mais! Descíamos um corredor cimentado, antigo. O dono das máquinas pegava os sacos e despejava o conteúdo dentro delas. Era um barulho de dar medo. E eu achava tudo maravilhoso. Não me lembro de minha mãe levando vagens secas de feijão para limpar. Não havia máquinas para isso ali. E eu tinha que continuar em casa, separando o trigo do joio.

Hoje em dia catar feijão é mais fácil. Os pacotes chegam bonitos, trazendo grãos brilhosos, meio seda. Dá gosto vê-los com pedra quase nenhuma. Deslizo-os entre meus dedos; e se uma ou outra pedrinha tenta me enganar, pego-a de surpresa, e lhe digo a que vim, qual a minha função diante da nobre tarefa de limpar o que será comido. Jogo-a fora como quem se livra de um estorvo, de um possível incômodo.

A propósito do que estou falando, lembro aqui o poema “Catar feijão” de João Cabral de Melo Neto. O poeta, um exímio catador de palavras, buscava a pedra que “dá à frase seu grão mais vivo: / obstrui a leitura fluviante, flutual, / açula a atenção, isca-a com o risco”. Eu, particularmente, não gosto de tais pedras. Quero leituras fluviais e flutuantes, palavras boiando para todo lado. Quanto aos feijões, Deus me livre de pedras no meio deles! Essas eu também queria flutuando. Pegaria todas e as jogaria fora. Se tudo fosse assim desde sempre, acho que eu teria sofrido menos, não as ruminando na minha infância entre mãos e boca.

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