“Deus faz doçuras muito tristes”. Essa frase não é minha; é da Clarice Lispector. O espectro que nos chega sempre tão claro. Por isso vai entre aspas, que não sou nenhum plagiador. Pelo menos acho que não. Mas vamos direto ao assunto.
Clarice escreveu essa poesia cheia de verdades em 1967 e a publicou em 16 de dezembro do mesmo ano no Jornal do Brasil, numa crônica lindamente chamada “Das doçuras de Deus”. Ela dizia sobre uma empregada sua, Aninha, que, segundo a cronista, deveria se chamar Aparecida. Deveria se chamar assim, mas Clarice não sabia explicar por quê.
Mulher feia com uma ausência de dentes dianteiros, calada, mineira com gestos apagados, Aninha usava nos dias de folga uma saia vermelha estampada (muito mais comprida que seu tamanho) e uma blusa marrom. Essa falta de gosto era, na opinião de Clarice, uma das doçuras de Aninha.
Tenho cá comigo que de fato a empregada era doce, e de uma doçura peculiar. Quanto à combinação do vermelho estampado com o marrom, me eximo de concordar com a autora, mas também não discordo. Fico neutro, se é que a neutralidade seja possível. Aposto que muitos me olham e devem pensar: “Que homem de mau gosto, com essas roupas feias que não combinam entre si!”. É verdade: nunca fui muito bom nesse negócio de moda, principalmente em se tratando de mim. Só não dou conta mesmo é de andar pelado, infelizmente.
Voltando ao assunto principal desta crônica. A doçura verdadeira de Aninha era realmente algo para surpreender. Foi ela mesma quem disse a Clarice Lispector que não gostava de livros “água com açúcar”, que queria sim era ler os livros da autora que a própria Clarice caracterizou de complicados. Lispector, não desejando atmosfera de literatura em sua casa, resolveu dar-lhe um romance policial, cuja tradução era de próprio punho. Dias depois a empregada disse-lhe que acabara de ler o livro, gostara do enredo, mas que o achara um tanto infantil. E arrematou: “Eu gostava era de ler um livro seu”.
Que maravilha! Aninha era complicada também. Fazia parte da minha patota. Combinava vermelho estampado com marrom, não portava uma beleza de que alguém possa se gabar e ainda por cima gostava de livros complicados.
Ponhamos algumas coisas em pratos limpos. Pois quando estão sujos, os pratos não nos permitem comer como se deve.
Primeiramente, não me sinto nenhum patinho feio. Nem posso dizer se Aninha também sentia isso ou não.
Em segundo lugar, que fique claro o seguinte: livro complicado não quer dizer livro difícil. Livro complicado é aquele que não escamoteia a vida, que não coloca lentes cor-de-rosa nos olhos de um leitor ingênuo e sai dizendo aos quatro ventos que o mundo é várzea. Pode até falar de rosas, de jardins floridos, de sonhos ao pé de uma serra maravilhosa, de amores que se encontram felizes para sempre. Pode falar de tudo isso. Mas se for bom, será complicado, terá a capacidade de tirar não apenas o tapete dos nossos pés, mas o chão inteiro, forçando-nos a levitar desconjuntadamente.
Aninha – como Clarice, prefiro dizer também Aparecida – era de uma doce complicação não simplesmente porque gostava de livros complicados. E sim porque, além de ser ela mesma, com seus gostos supostamente duvidosos, com suas manias tidas como estranhas, ainda houve por bem desembocar no único caminho que lhe possibilitava enfrentar as complicações da vida. Aparecida, a que sumira de Minas Gerais e aparecera como empregada no apartamento de Clarice Lispector lá no Rio de Janeiro, enlouqueceu.
Um dia de manhã, depois de haver demorado muito na rua para fazer as compras, Aparecida surgiu diferente. Um sorriso brando mostrando os dentes postiços que antes lhe faltavam na frente. O dinheiro das compras amassado na mão direita. E dentro do saco de compras dependurado no punho da mão esquerda existiam, cheios de vida e utilidade, pedaços de papel sujo e tampinhas de garrafa de leite e de outras garrafas.
Numa atitude pueril, Aparecida foi para o quarto mostrando o alto da cabeça e dizendo que sentia uma dor ali, bem ali. Deitou-se e permaneceu calada. Ainda com sorriso brando, disse, quando indagada, que pegara tudo o que estava no saco para enfeitar o seu quarto. E o que é um quarto, senão um pedaço da vida? A vida precisa mesmo de enfeite.
O que Aparecida queria enfeitar, então, era a vida. E queria fazer isso com a doce pureza de uma criança chamada loucura. Na suavidade mansa dos seus devaneios, ela transmitiu muitas lições, como aquelas que os livros complicados nos transmitem. Estar doida era também um modo de dizer: “Gosto de coisas complicadas. Não gosto de água com açúcar”.
Coisas complicadas
16 de Janeiro de 2013, por Evaldo Balbino