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Crônica de Natal

14 de Dezembro de 2010, por Evaldo Balbino

Desta vez seria diferente.

Nos anos anteriores ele correra com outros meninos atrás de um carro luxuoso, conversível e enfeitado de apetrechos natalinos. Um carro distinto daqueles com que na pequena cidade estavam acostumados. Fizera todo aquele exercício, ano após ano, e nenhum brinquedo sequer. Só conseguira pegar, de cada vez, uns dois ou quatro saquinhos de pipoca doce. Sujos pela terra vermelha da rua sem calçamento, aqueles saquinhos seguiram jururus em suas mãos de menino.

Se pelo menos fossem daquelas pipocas que estouravam no fogão a lenha de sua casa! Uma barulhada dentro da panela: “rebenta piruá e deixa a pipoca”, “rebenta piruá e deixa a pipoca”... Assim seu coração ia dizendo, pulsando, pulando como as pipocas na panela, desejando que não restasse nenhum grão daqueles pulos eletrizantes. Queria que a mágica acontecesse sempre e com todos os milhozinhos. Queria isso para depois brincar e comer. Cada pipocazinha ganhava uma forma: ovelha, pedaço de nuvem, um carrinho diferente, uma cabeça de boi, uma florzinha para a vida. Cada qual mais bonita e comestível que a outra. Barulhavam felicidades entre os dentes apressados e gulosos do menino.

Mas depois daquelas corredeiras atrás do carro faustoso e com Mamãe Noel dentro, ele conseguira apenas pipocas doces, sem o doce sal que as de sua casa tinham. Por isso decidiu que agora tudo seria diverso. Definiu o que iria acontecer, deliberando o porvir como sonha um profeta com o futuro. Ficou sabendo que outra mulher rica estava inscrevendo crianças pobres para serem agraciadas pelo espírito natalino. Era só dar o nome para conseguir um brinquedo. Qualquer um que fosse, não se importaria. Mas tinha que ser um brinquedo.

Saiu de casa pela manhãzinha, sem falar com a mãe. Chegou a uma mansão escondida, cujo portão grande abrigava mistérios, mostrando e ao mesmo tempo escondendo coisas que ele não podia tocar. Um cachorro desses imensos corria de um lado para outro, atrás do portão. Bafejava seu hálito audaz nas grades, impondo a elas não um medozinho qualquer, mas um terror desses bem graúdos. O garoto, catatauzinho de nada, atreveu uma aproximação. Era bem cedo, não podia acordar a família da Dona que lhe daria um presente. Ficou silencioso, montando guarda como o cão valente.

Logo começaram os movimentos. Questão de minutos. Outras crianças principiaram a chegar. E todas traziam nas mãos uns papéis amarfanhados. Ele era o primeiro da fila. Imponente, feliz como ficava na escola, quando todos tinham que ficar em linha para entrar na sala e para ir ao vestiário. Ele, sempre o primeiro. O menorzinho lá na frente perto da professora. Como poderia enxergar o bê-á-bá se um grandão ficasse na sua frente? Não, de jeito nenhum! E ali, agora, era como sua mãe dizia: “Deus ajuda a quem cedo madruga.” Chegara cedo, não chegara!? Nada mais justo do que ser o primeiro a ser atendido.

Apareceu um homem forte do outro lado do portão. Assoviando, prendeu o cachorro, abriu as grades e permitiu que a fila acedesse ao pátio. Ele, o meninozinho, ficou rente à porta bonita da sala, toda de madeira e vidros. Belezura assim ele nunca tinha visto.

Rapidinho apareceu a madame, com um caderno encostado ao peito e uma caneta presa na mão direita. Ela se sentou num sofá grande, e ali se afundou carregada e pomposa.

– Pode entrar o primeiro!

O homem que prendera o cachorro guiou o menino pelo braço até uma cadeira diante da mulher. Tamborete duro perante o sofá. O guri nem perceberia a diferença, pois com bancos duros já estava acostumado. O problema ali era o sofá. Sua maciez destoava diante do banco em que ele fora depositado.

– Seu nome?

– Chiquinho, senhora.

– O seu nome, garoto, não o apelido!

– Ah, sim, é Francisco.

– Francisco de quê?

– Como assim?

– Ora, como assim?! Quero saber seu nome completo!

– Ah, tá certo: é Francisco Jesus da Silva.

A mulher anotou o seu nome e pediu que ele lhe mostrasse os documentos.

– Que documentos?

– Uai, você não viu escrito no cartaz pregado lá no portão? Não sabe ler não, meu filho?

– Sei sim! – respondeu melindrado, pois o que mais sabia fazer na vida era ler – Sei sim, mas não vi o tal de cartaz não!

– Pois você tinha que trazer a carteira de trabalho dos seus pais e a sua certidão de nascimento pra me mostrar!

– Mas eu não trouxe não, senhora. Não tem jeito sem esses papéis?

– Não. Não tem! Providencie tudo ou do contrário não se inscreve.

Ele abaixou um pouquinho o rosto, com raiva, triste, mas não deixou de perceber os olhos da madame inspecionando-o de alto a baixo. Diante do seu silêncio, continuou a mulher:

– Ou será que você tá escondendo que não precisa de brinquedo? Seu pai trabalha com o quê?

– Ele faz casas, dona.

– De qualquer forma preciso dos documentos. Volta em casa e pega!

O garoto saiu constrangido, magoado. Não tinha como pegar os papéis. Como explicaria tudo para os pais? Orgulhosos, não iriam deixar que ele fizesse aquilo. Subiu pela rua calçada e bonita, perguntando-se quantos saquinhos de pipoca doce conseguiria pegar dali a alguns dias. O Natal chegaria de novo, e em sua casa não existia lareira nem chaminé.

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